É a mim que corrijo quando retoco minhas obras

William Butler Yeats (1865-1939) foi um dos principais poetas da língua inglesa do século XX e um dos três maiores poetas irlandeses (os outros dois foram Oscar Wilde e James Joyce). Lá no meio de sua bem acabada obra romântica, encontramos uma frase solta que dá um novo tom ao pensamento de todos aqueles que procuram aprimorar seu trabalho e sua vida. Disse ele: “… é a mim que corrijo ao retocar minhas obras…”.
 
É no mínimo um pensamento edificante para aqueles que, como fez Yeats, procuram dar o melhor de si através daquilo que fazem. O resultado do trabalho representa, como a arte, o espírito daquele que o produziu. Quando fazemos um trabalho e nos contentamos com um resultado apenas médio, estamos, ao mesmo tempo, concordando com continuarmos a ser apenas médios.
 
Yeats não se incomodava em refazer o que havia feito anteriormente, como a finalidade de obter um resultado melhor. E, na verdade, ao aprimorar seu trabalho estava aprimorando a ele mesmo.
 
Na empresas encontramos quatro tipos de pessoas: (a) a que tem pequeno desempenho, e grande vontade de aprender; (b) a que tem grande desempenho e pequena vontade de aprender; (c) a que tem grande desempenho e grande vontade de aprender e (d) a que tem pequeno desempenho e pequena vontade de aprender. Que tipo de pessoa você gostaria de ter em sua equipe de trabalho?
 
O moderno RH tem uma tendência a preferir pessoas com potencial. Vontade de aprender permanentemente, portanto, é fundamental. O baixo desempenho será tolerado, desde que considerado temporário. Pessoas com desempenho comprovado, mas que perderam a vontade de se aprimorar são consideradas um perigo, pois, não só param de evoluir, como passam a contagiar colegas com seu comportamento, em geral carregado de uma segurança pessoal meio arrogante.
 
O sonho de consumo de todo gestor de RH é a pessoa que tem altos tanto o desempenho quanto a vontade de aprender. Esse tipo de profissional as empresas querem reter. Aliás, a discussão principal nas rodas de recursos humanos foi deslocada do verbo “atrair” para o verbo “reter” talentos. A percepção moderna é que salário pode atrair, mas as condições de crescimento profissional e desenvolvimento pessoal são os responsáveis pela retenção. E é claro que as pessoas do tipo (d), pequenas no desempenho e na vontade de aprender têm seus dias contados.
 
Aceitar que somos limitados é o mesmo que condenar a nós mesmos a continuarmos limitados. Só aumentamos nosso alcance quando conhecermos nossos limites, sim, mas com a finalidade de empurrá-los para mais longe, aumentando nossos potenciais. Nesse sentido, há dois tipos de pessoas que são irritantes ao extremo: aquelas que se acham limitadas e não acreditam em seu próprio potencial de desenvolvimento, e aquelas que se julgam perfeitas, não aceitando que precisam melhorar sempre.
 
As que se acham limitadas e se conformam com isso provavelmente tiveram algum defeito de educação, quando aprenderam principalmente aquilo que “não podiam fazer” e não o que “podiam fazer”. Aprenderam pela negação, e chegaram à triste conclusão que na vida há mais coisas fora de seu alcance do que dentro de suas possibilidades de realização. É uma educação castradora, culpa de pais despreparados e de escolas viciadas em métodos medievais, que confundem educação com treinamento para a prática de atos definidos, e não com liberdade de pensamento.
 
As que pensam que não têm mais o que aprender ou como melhorar pois consideram que já fazem tudo perfeito, são vítimas de um mecanismo de defesa inconsciente, que tem por finalidade camuflar um sentimento de inferioridade ou de medo, e reagem às sugestões de mudança com arrogância e autoconfiança vazia. São pessoas perigosas, pois sua segurança pessoal não é convenientemente embasada, mas provoca reações no meio em que vivem, podendo levar outras pessoas a comportamentos enganosos. Quem acha que sabe tudo é tão nocivo quanto quem acha que não sabe nada.
 
Yeats tinha razão. Temos que melhorar sempre, e só podemos fazer isso procurando melhorar o que fazemos. Nós não somos medidos pelo resultado de um ato isolado, e sim pelos resultados que obtemos continuadamente. Um toque de gênio em uma rotina diária medíocre não garante mais o emprego de ninguém. Regularidade está na ordem do dia. Inclusive regularidade no crescimento, tanto profissional quanto pessoal. Afinal, “… é a mim que corrijo ao retocar minhas obras…”.
 
Texto publicado sob licença da revista Você s/a, Editora Abril.
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