É errando que se aprende

O físico e escritor australiano Paul Davies, autor, entre outros, do livro “O quinto milagre”, em que ele lança novas luzes sobre a discussão da origem (e do sentido) da vida, revela que, mesmo antes da ciência surgir, o homem já dominava algumas tecnologias, e cita como exemplo a bússola, que teria sido inventada na China, e o bumerangue, aquela arma que retorna à mão de seu arremessador e é utilizada pelos aborígines australianos. Diz: “O bumerangue não foi inventado partindo da compreensão dos princípios da aerodinâmica. A bússola não envolveu a formulação dos princípios do magnetismo. Estes e outros mecanismos foram alcançados por tentativa e erro. A ciência veio depois”.
 
De fato, a ciência surgiu na Europa do século XVIII, especialmente após as teorias de Pascal e de Descartes e dos experimentos de Newton. Até então a humanidade evoluía a partir das tentativas, errando muito e acertando às vezes (tanto é que não dizemos “tentativa e acerto”). Mas foi assim que aprendeu, e se organizou para diminuir o número de erros em suas tentativas. A ciência derivou da observação e da catalogação dos erros que, dessa forma, passaram a não ser repetidos. Em outras palavras, começamos a fazer ciência quando aprendemos a aprender com nossos erros passados.
 
Errar é próprio da condição humana. Aprender também. Infelizmente algumas pessoas não estabelecem conexão entre essas duas qualidades. Este sim é um grande erro. Na verdade, o erro só é erro quando não é percebido; quando é, torna-se aprendizado. Sem essa percepção, você corre dois riscos: o de continuar repetindo seus erros sem aproveitá-los para evoluir, ou o de parar de tentar por medo de errar.
 
Vivendo e aprendendo
 
Jean Piaget, o psicólogo e filósofo suíço, falecido em 1980 nos explicou que a aprendizagem é induzida pela experiência (veja a coluna Atitude da Vida Simples no. 14: “informação e conhecimento”). Disse Piaget que ao longo do processo de desenvolvimento, cada ser humano constrói seu conhecimento e, que neste processo o erro é um componente importante.
 
A própria ação do indivíduo e o modo como as novas experiências se convertem num processo de construção interna são os componentes que formam o conhecimento de cada um. E, para realçar que o homem é construtor de seu conhecimento, o estudioso denominou a sua postura teórica de Construtivismo.
 
Piaget também disse que as crianças estão constantemente testando suas teorias próprias sobre o mundo, motivo pelo qual as respostas que o mundo dá a cada uma de suas ações são muito importantes. Ao fazer alguma coisa errada, a criança precisa saber que errou, e porque aquilo é considerado erro. Assim, as informações dotadas de sentido serão internalizadas e os erros não voltarão a se repetir, pois afinal, ocorreu um aprendizado.
 
A criança tem suas teorias particulares sobre o mundo e, se ao testar alguma, for simplesmente recriminada, sem receber nenhuma explicação para a censura, não compreenderá o porque de não ser verdadeira sua teoria, e porque é considerada um erro. Quando isso acontece, ela passa a ter medo de testar novas experiências, ou seja, passa a ter medo de errar. Com isso diminui tanto número de erros quanto o de acertos e, pior, a possibilidade de aprender. E acaba internalizando esse sentimento, e levando-o pelo resto da vida. Quando adulto, deixa de fazer coisas por medo de errar.
 
O erro bom
 
O erro bom é aquele que nos abre alternativas. Consta que Thomas Edison, após ter sido intimado pelo seu patrocinador a interromper suas experiências disse: “por que desistir agora, se já sabemos muitos modos de como não fazer uma lâmpada? Estamos hoje mais próximos de saber como fazer uma lâmpada que antes!” Isto é, errar é a possibilidade de acertar na próxima tentativa.
 
O matemático austríaco Piet Hein inventou aquele “Cubo Mágico”, cujo nome original é Soma Cube, que possui mais de 240 formas de solução, ou seja, deixar cada lado do cubo composto por cubos menores da mesma cor. Mas, apesar de tantas formas de acerto, só é possível chegar lá após muitos erros. Isso significa que você vai tentar muitas rotações até que consiga solucionar. E, certamente, precisa memorizar as rotações erradas para não cometê-las novamente. Se não aprender com o erro, vai insistir nele e, continuar insistindo até o limite de seu controle emocional.
 
Quem já tentou, sabe que em um dado momento, vem a grande vontade desmontar o cubo e remontá-lo certo. Essa fraude não só não é possível no jogo como também na vida. Não há como desmontar o mundo e montá-lo como nos parece certo. A única alternativa é aprender a viver, o que pressupõe tentar, errar e tentar novamente.
 
Você quer um atalho? Ele existe sim: aprenda também com o erro dos outros. Daqueles que tentaram antes de você e acabaram acertando, mas não sem errar, acredite. Esse atalho só é percorrido através do estudo e da interação com outras pessoas, especialmente os mais velhos. Hein escreveu um curioso poema a respeito de sua invenção, e da filosofia do erro:
 
O caminho para a sabedoria?
 
Bem…, é direto e simples de expressar:
errar,
errar
e errar novamente…
Mas menos,
menos
e menos…
 
O erro oculto
 
Entretanto, há erros inconscientes, dos quais às vezes não temos como nos livrar. O pai da psicanálise, Sigmund Freud os denominou de fenômenos lacunares. Isto é, são lacunas que ocorrem nas manifestações conscientes, abrindo caminhos para o inconsciente. Entre estes fenômenos estão os lapsos, os atos falhos, e outros sintomas. Devido a estes mecanismos estamos sujeitos a cometer erros que não temos como evitar, pois causam uma descontinuidade no discurso consciente. Trocar ou esquecer o nome de um conhecido são erros que, quando acontecem, nos deixam com uma estranha sensação de vazio. Você já experimentou essa bizarra saia justa? Pois você sofreu um fenômeno lacunar. Freud explica…
 
A psicologia, a filosofia e até lei aceitam que errar faz parte da condição humana. Mas todos são unânimes em afirmar: “não faz mal que você erre, desde que esteja aprendendo com seus erros”. Na antiga Roma, o político e orador respeitado Marcus Tullius Cícero dizia que “errar é próprio do homem, mas perseverar no erro é coisa dos tolos”. Muitos séculos depois o filósofo alemão Emmanuel Kant disse que “o contrário da verdade é a falsidade. Mas quando a falsidade é tida como verdade, passa a se chamar erro”. Quase todos os grandes pensadores da humanidade disseram alguma coisa a respeito do erro e, acredite, todos eles erraram muito, só que entraram para a história por seus acertos, é claro.
 
O erro previsto
 
Os erros são, em geral, involuntários, até porque, se forem propositais, deixam de ser apenas erros, passam a ser crimes. Até o Código Penal brasileiro prevê essa diferença, cuidando também dos erros, e não apenas dos crimes. Por exemplo, se alguém, em um aeroporto, leva uma mala de outra pessoa, pensando ser a sua, praticou uma ação ilícita sem saber. Cometeu o que a lei chama de “erro de tipo”. É claro que essa pessoa não será condenada por seu ato, mas sua responsabilidade não é desconsiderada, pois ela devia ser mais atenta.
 
Há também o chamado “erro de proibição” em que a pessoa errou por não saber que o que fez era proibido pela lei. A descrição desse erro mostra que a pessoa pode realmente estar enganada sobre o seu ato ser uma conduta proibida ou não. Um caboclo que sempre caçou animais nativos, e ao ser preso por crime contra a fauna, não entende o que ele cometeu de errado, pois sua família sempre agiu daquela forma. O mesmo ocorre com os índios que não têm conhecimento dos códigos da civilização. Nestes casos, o Estado assume sua parte de culpa, pois devia oportunizar a essas pessoas a noção do erro, através da educação.
 
A virtude do erro
 
O erro não nos afasta da virtude. A maneira como lidamos com ele, sim. Duas qualidades devem acompanhar o erro: a responsabilidade e o aprendizado. Ser responsável significa responder por seus erros, o que é próprio dos adultos.
 
Aprender significa incorporar o que é certo e o que é errado, o que é próprio dos atentos.
 
Ser adulto e estar atento são qualidades dos que acertam mais, apesar de terem errado muito.
 
Errou? Não faz mal, desde que você:
– Seja lúcido para admitir que errou;
– Seja humilde para assumir a responsabilidade;
– Seja esperto para consertar o resultado;
– Seja sábio para incorporar o aprendizado.
 
Isto vale para pessoas, organizações e para a própria sociedade. Em uma empresa da organizada e próspera cidade de Joinville, vi, certa vez, logo na entra da, uma placa que dizia: “aqui é permitido errar”. Trata-se de uma empresa adulta e atenta e, claro, competitiva e rica. A moderna administração reconhece a importância do erro, mas a sabedoria popular já fazia isso antes. Nosso Paulo Vanzolini, cientista e poeta, é autor da célebre música Volta por Cima, em que ele dá conselhos àquele que, como ele, e como todos, errou mas, por ser um “homem de moral, não fica no chão”. O que faz, então? Ora: “Reconhece a queda e não desanima. Levanta, sacode a poeira, e dá a volta por cima”.
 
Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril.
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