Educando nos dias em que vivemos

É bem possível que a tão propalada lucidez de Sócrates devesse ser representada menos por suas idéias revolucionárias sobre o pensamento e sobre o comportamento humanos, e mais pela capacidade que tinha de tocar as pessoas com essas idéias, usando um poder natural de promover o interesse nos jovens, que eram o principal alvo de seu espírito de educador.
 
É igualmente possível que o filósofo grego, fundador da dinastia dos grandes pensadores, nem sequer tivesse passado à História, se não conseguisse contaminar seus discípulos, especialmente Platão, e ele o fez porque amava o que fazia. A pobreza e a intolerância da sociedade e da própria família não foram fortes o suficiente para parar Sócrates. Só a morte pôde fazê-lo. E mesmo assim, o mestre aproveitou a oportunidade para dar uma lição de lucidez e de bom humor. Ao veredicto do juiz – “Sócrates, você está condenado à morte”, respondeu – “grande coisa… o senhor também”. Nada mais lógico!
 
Desde Sócrates, sabemos que educar é ensinar a pensar. Vivemos, sim, novos tempos. Talvez “Era do Conhecimento” seja uma metáfora exagerada, mas com certeza vivemos uma sociedade que privilegia o conhecimento. Quando no período pós-segunda guerra mundial (antes dizíamos apenas “pós-guerra”, mas já são tantas que temos que ser mais objetivos) a tecnologia da informação começou a transformar sociedade, teve início um período que viria a nos intoxicar e criar um novo tipo de ansiedade, a de decidir pela informação que aceitaríamos, dentro de um manancial quase inesgotável.
 
Conhecimento não é informação. O que passamos na sala de aula, para nossos alunos, é informação. Conhecimento é mais, é a informação interpretada, codificada, transformada, ampliada e assimilada. Conhecimento não se transfere, se constrói. Em uma comparação simplista até demais, conhecimento é casa, informação é tijolo. Mas e a argamassa? Onde encontramos a cal, o cimento, a água e o ferro?
 
A informação é objetiva, já a argamassa que promove o liame e a construção do conhecimento, não. O aprendizado é intelectual, enquanto aprendizagem é quase toda emocional. Saberes codificados só viram conhecimento quando acompanhados do sentido e do afeto. A semiótica propõe a seguinte divisão: palavras, imagens, sinais, gestos, são significantes. Idéias e intenções são significados.
 
Sem significados de nada adiantam os significantes. É provável que contextualização seja a palavra mágica, pois é o atalho mais confortável para o significado. Saber para que serve (a utilidade é mobilizadora), perceber o belo implícito (a beleza é a precursora da perpetuação, seja da espécie ou da idéia), reconhecer o verdadeiro que está contido (a verdade consolida a teoria) e sentir que vou me tornar melhor (o bom, representado pela ética e pela moral). Outra visão dos quatro aprenderes.
 
E hoje aqui estamos, professores no século XXI, buscando entender a lógica que nos mantém ativos e, quase sempre, altivos. A sociedade que construímos durante a segunda metade do século passado resolveu transformar a escola na única responsável pela educação da juventude. A família quer trabalhar, a televisão quer vender, a igreja quer moralizar e a política… bem, esta quer politicar.
 
E o educador quer educar, mas até agora sabíamos que a escola é o coadjuvante principal da educação, mas que precisa e depende das parcerias. A família é a primeira escola, onde a sociabilização começa a tomar corpo e rumo. Como humanos que somos, atravessamos a vida na tentativa de resolver o conflito entre a individualidade e a generalidade. Como resolver a questão de que a criança deve aprender a sociabilizar-se mantendo a identidade? O ser humano depende do conviver para viver. A atenção ao coletivo nos permite estruturar uma personalidade solidária e fraterna. Mas quando, ainda imaturos, somos mergulhados na comunidade de forma indistinta, corremos o risco da massificação, perdendo a originalidade fundamental. Como resolver isso? Pelo trinômio família-escola-sociedade, com certeza.
 
Os quatro aprenderes: conhecer, fazer, conviver e ser, não conseguem completar-se a não ser na consciência de um ser múltiplo, fruto de um ambiente múltiplo, em que cada parcela comparece com sua porção. A escola faz a sua parte, e o professor, este herói, mais ainda, pois se opõe, ao educar, a ventos que deseducam. Ventos que trazem o cheiro da mídia irresponsável e da cultura de massa que aliena. E que não deseducam dentro da idéia do desconstruir para construir melhor. Simplesmente deseducam. E nós, chamados educadores, vamos juntando nossos pulmões pedagógicos para soprar em contrário. Ufa!
 
Texto publicado sob licença da Revista Pitágoras.
Todos os direitos reservados.