Educar é libertar

Era o ano de 1965, eu era apenas um adolescente, e, como todos os adolescentes, achava que já sabia das coisas, que entendia o sentido da vida, e, principalmente, que podia mandar em meu próprio nariz. Hoje, tudo o que sei, é que nada disso é verdade, em nenhuma idade. Tudo bem, leva-se tempo para conquistar um mínimo de sabedoria…
 
Mas quero fazer justiça àquele adolescente que eu fui: ele, pelo menos, estava procurando algo. Era curioso e inquieto. Preferia a sensação de errar por ter tentado do que a de manter-se seguro na imobilidade. Essa postura me custou muito, mas também me valeu muito. Se eu pudesse voltar atrás, eu gostaria de ter errado ainda mais, por ter tentado muito mais. Mas voltemos ao assunto…
 
Talvez por ter esse espírito, lembro de ter sido um dos primeiros a entrar na fila para comprar um ingresso para uma peça de teatro de que tanto se falava, e que seria apresentada no pequeno auditório do teatro Guaíra, em Curitiba, minha cidade. O nome da peça era engraçado: Liberdade, liberdade. Tinha sido escrita por um tal de Millor Fernandes, era dirigida por um tal de Flávio Rangel e interpretada, entre outros, por um tal de Paulo Autran.
 
Pois foram esses tais indivíduos que ajudaram a marcar em minha alma, como uma tatuagem metafísica, o valor incomensurável da liberdade.
 
Eu podia ser só um menino meio confuso, mas já compreendia que algo de errado estava acontecendo. Os militares haviam retirado o presidente João Gulart e colocado um general baixinho e sisudo em seu lugar. Os tempos pareciam sombrios, entretanto, ainda faltava muito para acontecer. A censura da imprensa, o AI5, o fechamento do Congresso vieram depois, dando à História o direito de chamar aquele período militar de ditadura. De fato, a melhor maneira de qualificar um regime de ditatorial, é identificar nele o desrespeito ao valor que é, ao mesmo tempo, grandioso e elementar: a liberdade.
 
Talvez seja uma característica só de minha geração, mas acho que não. Nós tivemos, claro, a chance de viver um tempo em que o embate entre a liberdade e a opressão, a censura e o autoritarismo estava escancarado, o que transformou o valor da liberdade em uma bandeira a ser defendida. E a maneira mais inteligente e resolutiva, a meu ver, eram as manifestações artísticas. Os filmes que mais me marcaram foram aqueles em a liberdade era um protagonista. Easy rider, com Peter Fonda e o jovem Jack Nicholson, Fugindo do inferno, com o indomável Steve McQueen, Os aventureiros, com Alain Delon e Lino Ventura, entre tantos.
 
Na música, claro, tínhamos Chico, Geraldo Vandré, Gil e Caetano, os Mutantes, além do Jim Morrison e seu The Doors, Bob Dylan e Joan Baez, ainda que o hino que eu assobiava até dormindo tinha sido composto por um italiano, Gianni Morandi, e se chamava C’era un ragazzo che come me amava i Beatles e i Rolling Stones. No Brasil ganhou uma versão incrível de Os incríveis, em 1977. Fui vê-los em um salão acanhado do recém fundado clube Santa Mônica. Contava a história de um garoto que, como eu, amava os símbolos de liberdade. Nunca mais fui o mesmo.
 
O tempo passa, eu adultesço, viro professor e, com a experiência, vou adotando um slogan particular que eu repetia internamente cada vez que pensava em desistir: “Educar é libertar”. A ideia da liberdade como valor fundamental me acompanhou sempre, e foi acrescida da certeza de que o caminho mais nobre para alcança-la é a educação, pois ela libera o homem da pior das prisões, a ignorância.
 
Por tudo isso, fiquei muito feliz por ter sido convidado a falar em um espaço da FLIP 2013, chamado exatamente Casa da Liberdade, ao lado de pessoas ilustres, como Carlos Ayres Britto, Guilherme Fiuza, Gustavo Franco, Ricardo Cota e Marcos Troyjo. Mais que feliz, muito honrado.
 
De um pequeno palquinho em meio a um jardim coberto, com plantas teimosas e pessoas curiosas sentadas em cadeiras, banquinhos ou esteiras na grama, em uma das muitas ruas de pedras de Paraty, comecei a falar, agradeci, e contei que me haviam solicitado que abordasse e tema da liberdade sob a ótica da educação. Para mim, era tão fácil que não sabia nem como começar. Ironia da retórica. Mas comecei.
 
E disse que falaria sobre o tema em três tópicos: a orientação da liberdade enquanto objeto,  a preparação para a liberdade enquanto potência e a  gestão da liberdade enquanto responsabilidade. Pode parecer difícil, mas não é. Vejamos.
 
A orientação da liberdade
 
Essa é do psicanalista alemão Erich Fromm: há dois tipos de liberdade, a “liberdade de” e a “liberdade para”. Qual você defende? Eu prefiro a “liberdade para”. A “liberdade de” prega o desapego, a ausência de amarras. A “liberdade para” olha em direção ao futuro, está conectada aos sonhos, às realizações.
 
Em geral os dois tipos de liberdade estão associados, mas não necessariamente. Eu posso dizer, por exemplo, que estou “livre de” trabalhar com horários e prazos a cumprir, por isso estou “livre para” viajar pelo mundo ou para pensar em novos projetos. Neste caso, o “de” permite que o “para” exista. Só que nem sempre é assim. Às vezes, ao buscarmos a “liberdade de” perdemos a “liberdade para”.
 
O casamento, a relação a dois, é um bom exemplo disso. Tenho experiência nesse assunto, pois durante muito tempo em minha vida, eu preferi não ter vínculos, manter-me sem compromissos sérios, com relações apenas eventuais, avulsas, passageiras. Eu dizia que queria “sentir-me livre”. Livre? Será essa a melhor estratégia para alcançar a liberdade? Pode ser, mas apenas a “liberdade de”. Não manter uma relação fixa, não ter que dar satisfações, não assumir responsabilidades equivale a não estar apegado a nada, a ninguém. É estar livre de amarras. Mas e a “liberdade para”, que, no fundo, é a mais importante?
 
Só depois que o destino piscou-me o olho direito e colocou em minha vida uma companheira é que eu percebi que a “liberdade para” é muito mais significativa que a “liberdade de”, pois é ela que me permite escolher os caminhos, criar as possibilidades, viver a vida com intensidade. Só quem tem uma boa relação tem a liberdade verdadeira. Como homem, eu digo: nada como uma companheira, para compartilhar a vida. Dá alegria, segurança, vontade. Aliás, companheiro vem de “comer do mesmo pão”. Companheira é a mulher que compartilha o pão. Que se alimenta dele, o aprecia e não reclama se ele está duro, pois ela ajudou a prepará-lo.
 
Este é apenas um exemplo, mas há outros, observe. Muitas vezes a verdadeira liberdade vem quando aceitamos tarefas e assumimos grandes responsabilidades. Trata-se da plataforma para o futuro. Ficar anos atrelado a uma escola pode parecer uma prisão. Não é. É o passaporte para uma vida mais autônoma, livre. Pense nisso. O que interessa é a “liberdade para”. É para ela que devemos orientar nossos pensamentos.
 
A conquista da liberdade
 
O filme Fugindo do inferno trata do plano de fuga de prisioneiros aliados de um campo de concentração nazista. A parte que trata da execução do plano, a fuga em si, é a parte menor do filme. A conquista da liberdade, para aqueles homens, passaria por um período de análise, planejamento, desenvolvimento de competências e recursos. Trata-se de uma interessante metáfora. A liberdade se conquista, não vem de graça. Você pode até viver em um ambiente de liberdade, mas se depender de outros para viver ou tomar decisões, não será verdadeiramente livre.
 
E, como disse no começo deste texto, acredito que a educação é o grande passaporte. Por isso tenho muito apreço pelas ideias do Jacques Delors, o educador francês que trabalhou para a UNESCO, buscando um modelo novo de educação para o século XXI. Um modelo que fosse realmente libertador.
 
Sua proposta pode ser aprofundada em seu relatório, que virou um livro seminal chamado Educação: um tesouro a descobrir. Em síntese, sua proposta é a de que educar é ensinar a aprender, e não ensinar matérias, simplesmente. Pense como você, em seu tempo de estudante tinha um objetivo central, que era preparar-se para as provas. Esse modelo não é libertador. Prende o aluno a uma rotina de cobrança. A prova quer saber se você memorizou o que o professor ensinou.
 
Ensinar a aprender é outra coisa. É dar a liberdade para a escolha dos caminhos através de uma potência da aprendizagem permanente. E o Delors disse mais. Disse que o aluno tinha que desenvolver a capacidade de aprender, sim, mas que há quatro aprenderes fundamentais: aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a conviver e aprender a ser. Esta é a educação verdadeiramente libertadora. A que ensina a pescar. O rio da vida está bem diante de cada um de nós.
 
A responsabilidade de ser livre
 
Liberdade é responsabilidade. Ser responsável significa responder por nossos atos. Escolher os caminhos e assumir as consequências. Quem é o responsável pela construção da história de cada um de nós? Para simplificar, vamos imaginar três modelos.
 
Há quem se considera vítima do destino, da época e do local onde nasceu e cresceu. “Esta é a vida que me foi dada viver” – dizem estes, que são chamados de “deterministas”. É claro que há situações extremas, locais injustos, ditaduras, segregações, genocídios, castigos da natureza. Tirando essas situações, não há necessidade que nos sintamos prisioneiros de um destino.
 
Há quem se considera acima desses limites do mundo, e acredita fortemente que pode qualquer coisa. “Eu mando em meu destino”, alegam os deste tipo, que são chamados de “possibilistas”. Eles podem, os possibilistas. Ou acham que podem tudo, e acabam levando lambadas nas costas, pois por assim pensarem extrapolam os limites.
 
É claro que podemos qualquer coisa. Desde que nos preparemos para isso e desde que façamos uma leitura lúcida das condições ambientais. O mundo não pode ser desrespeitado. “Eu sei onde quero chegar e vou me organizar para isso”. Este é o slogan do “estrategistas”, os que acreditam em seu potencial e usam os recursos ao seu dispor de maneira inteligente. São os que mais usufruem da liberdade, pois se prepararam para ela e assumiram a responsabilidade pela conquista.
 
A FLIP deste ano homenageou Graciliano Ramos. Enquanto esperava minha vez de falar, folheava um livro de textos inéditos do autor de Vidas secas quando parei, por acaso, em de seus Garranchos – que é como ele chamava seus artigos – dedicado exatamente a este tema. “Precisamos projetar na treva que há na alma do analfabeto o clarão radioso que vem do livro!”, diz ele. Não poderia ter havido melhor acaso. Com essa leitura terminei minha fala. E termino este artigo, que é só o começo de uma reflexão. E viva a liberdade.
 
Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril. Todos os direitos reservados. Visite o site da revista: www.revistavidasimples.com.br

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