Elegância

Estávamos no espaço agradável e estimulante de uma grande livraria. Acontecia o lançamento de livro de um grande amigo e eu aguardava na fila de autógrafos, bebericando uma taça de vinho branco, folheando a obra e, claro, observando o ambiente. Trata-se do tipo de evento em que fatos interessantes acontecem, principalmente em função da diversidade de pessoas que lá estão. Perto de mim, três mulheres bem vestidas, usando joias discretas mas evidentemente valiosas, conversavam animadamente em um tom adequado ao local. Estavam muito à vontade, entretanto uma delas tentava equilibrar nas mãos o livro já devidamente autografado, a bolsa, o celular e a taça de vinho vazia, portanto inútil. O malabarismo que ela fazia não deixava de ser engraçado.

Eu apenas observava a cena, a certa distância, preso pelo lugar na fila. Foi quando um senhor de certa idade que se retirava após já ter abraçado o autor, passou por elas, parou um instante e disse:

– Com licença. Estou indo deixar minha taça no balcão. Posso ajuda-la a livrar-se da sua, já que está vazia? – e sorriu com naturalidade.

No primeiro momento as três mulheres olharam com surpresa aquele desconhecido que trajava um paletó antigo, ligeiramente puído, calças de sarja folgadas e sapatos confortáveis, parecendo um professor universitário de ciências sociais com dedicação exclusiva. Na sequência, a malabarista iluminou o rosto com um sorriso, entregou a taça ao cavalheiro e agradeceu com sinceridade. Ele a apanhou e se retirou discretamente, fazendo um ligeiro maneio com a cabeça. As três o acompanharam com o olhar por um instante, até que uma comentou:

– Que homem elegante. Não se fazem mais homens assim.

Elegante, disse ela? Olhei de novo para o professor. Poderia se dizer muita coisa sobre sua figura – tradicional, antiga, clássica, confortável, humilde, casual, até simplória – menos elegante. Foi quando me dei conta do óbvio: ela estava se referindo ao comportamento dele, não à sua indumentária. Como sou estúpido, pensei… De repente meu blazer sob medida ficou sobrando em meu corpo. O “Não se fazem mais homens assim” ficou reverberado em meu cérebro muito tempo. E me dei conta que eu queria ser “um homem assim”.

Eu sei, a roupa faz parte da composição da elegância. Porém, estar elegantemente vestido tem mais a ver com adequação do que com sofisticação. Aquele senhor usava roupas simples, mas adequadas ao lançamento de um livro de crônicas, evento social que não pede nem gravatas nem longos. Aliás, inadequado seria estar vestido como se estivesse indo a uma festa black-tie. Além de brega. E o que valia mesmo era seu comportamento de cavalheiro.

Quando eu era garoto havia na TV um programa inspirado nos conselhos do Marcelino de Carvalho, o jornalista e escritor que foi o pioneiro nos temas de etiqueta e comportamento social. Seu Guia de boas maneiras é um clássico, obrigatório para os jovens das famílias que acreditavam que as boas maneiras eram pré-requisito para as boas carreiras e para os bons casamentos (a jornalista Cláudia Matarazzo lançou uma versão atualizada, o Marcelino por Cláudia…, que vale cada letra impressa).

O esquete era genial, com atores interpretando uma situação em que a etiqueta era o foco e, após a cena, um narrador em off comentava o acontecido e dava a interpretação adequada, segundo o mestre.

Lembro de um episódio em que, em uma reunião social em casa de amigos, chega um casal vestido de maneira excessivamente informal, com bermudas e camisetas, e foi criticado pelo alter-ego do programa. Na sequencia chega outro casal, agora exageradamente arrumado, ele de smoking, ela de longo, e foi também repreendido pela voz. Eis então que chega o terceiro casal, vestido de modo adequado, trajando roupa social leve, comme il faut, e recebeu, por isso, rasgados elogios da voz da consciência de plantão.

Só que este casal comete, então, a gafe de se jactar do fato, enaltecendo suas qualidades e desfazendo dos demais, e recebe, então a dura reprimenda por estar sendo arrogante e indelicado com os que, por ignorância ou desinformação, já estavam se sentindo mal o suficiente.

Elegância relativa e absoluta

Então é assim – aprendi com o mestre Marcelino -, vista-se adequadamente e comporte-se convenientemente. Este é o caminho mais seguro para que você seja apreciado, respeitado e convidado de novo.

Há gente que não tem “senso de noção”, como diz minha filha, brincando. Você já sentou ao lado de um sujeito de regata no avião? Ou ao lado de um casal no cinema, que fazia sua versão particular do 9½ semanas de amor? Já se irritou com a mesa ao lado no restaurante, onde parecia haver uma festa particular? Eu já. Tudo isso e mais um pouco. Como é importante entender o local onde se está.

É óbvio que um coquetel em uma galeria de arte é diferente de um churrasco na chácara do melhor amigo. Para cada ambiente há uma etiqueta relativa, apropriada àquele lugar, mas em todos os ambientes, deve-se respeitar a etiqueta absoluta, universal.

Como assim? Veja bem, posso ir de bermudas e tênis ao churrasco, mas devo me apresentar mais formal ao coquetel. Isso é etiqueta relativa. Entretanto, em nenhum dos dois lugares tenho o direito de ser inconveniente às demais pessoas, e em ambos cabem pequenos gestos de gentileza. Etiqueta absoluta. Simples assim.

Dia destes meu voo estava atrasado e eu fui gastar o tempo na sala VIP de um cartão de credito. Pelo menos lá há mais conforto e alguns mimos, como café, sucos, jornais. Sala VIP… Vamos lembrar: VIP significa Very Important People, então pressupõe-se que lá estarão pessoas de bom nível cultural e educação refinada. Pois bem, um dos VIPs que lá estavam andava pela sala vociferando em seu telefone celular, dizendo alguns impropérios para seu interlocutor sobre assuntos pendentes em sua empresa, vários decibéis acima. Deu vontade de ligar para PSIU da Prefeitura. O constrangimento era geral. VIP? Talvez: Very Inconveninet Person.

Posição social, cultura geral, estudo universitário são condições excelentes que colaboram para o desenvolvimento de uma sociedade civilizada, boa de se viver. Infelizmente nem sempre são garantia de gentileza, cavalheirismo ou elegância. Cruzando de balsa entre Salvador e a ilha de Itaparica vi um cavalheiro de chinelos e pele curtida de pescador ceder seu banco para uma dama. Precisamos de mais atitudes como a do pescador e do professor, e menos como a do Very Important. É dessa matéria que é feita a civilização.

Elegância e polidez

Nunca me esqueço de um hotel em que estava hospedado em uma cidade na Suíça próxima a uma estação de esqui. Esperava o elevador junto com minha mulher quando chegou um homem com seu filho de aproximadamente cinco anos, ambos falando em francês. Quando o elevador chegou, o pequeno rapidamente entrou, e foi, então repreendido por seu pai, que o fez sair e permitir que entrássemos primeiro. Durante a curta viagem vertical o garoto perguntou por que, e ouviu de seu pai: “vous êtes pressé, mais ne peut pas oublier la politesse” – algo como “não é porque você está com pressa que vai esquecer de ser educado”, e depois ficou repetindo “la politesse est très important”. Esse pai está criando um cavalheiro.

Elegância não é frescura nem afetação. Elegância é sinal de inteligência e educação. Preste atenção como há pessoas que são naturalmente elegantes, demonstrando em cada gesto a preocupação com o bem estar do outro. Você já percebeu como as mulheres valorizam o homem que lhe dá passagem, que dá a volta no carro só para abrir a porta, que manda flores no dia seguinte ao do primeiro encontro?

Acho incrível como alguns homens dizem que tudo isso é frescura, que não há mais espaço para tais gentilezas em um mundo em que as mulheres estão no mercado de trabalho competindo com os homens em igualdade de condições. As mulheres querem ser iguais – dizem – por isso não valorizam mais ser tratadas com gentileza masculina. E cuidado para não ser confundido com assédio – complementam.

Ôps! É hora de colocar os pingos nos is. Elegância não é assédio, não é paquera, nem sequer galanteio. Corre em raia paralela. Pra começo de conversa, quem é elegante mesmo nem sequer faz distinção de gênero. Homens elegantes são elegantes entre si. Ser elegante é ser discreto, nem sequer se fazer notar, jamais ocupar muito espaço. O importante não é aparecer, o importante é se fazer distinguir.

Elegância é usar com frequência as três palavras magicas da civilidade: com licença, desculpe, obrigado. É incrível como elas têm o poder de desarmar os espíritos e facilitar as relações. Isso é civilizado. E, como diz a Gloria Kalil, que entende do assunto: “Ninguém é chic se não for civilizado”.

O Eugenio Mussak sabe que pontualidade é sinal de elegância. Por isso, pelo menos pede desculpas quando atrasa a entrega do artigo. 

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