Erasmo e Isaac

Erasmo de Rotterdam foi um dos principais pensadores do Renascimento. Viveu no começo do século XVI e é tido como o melhor representante do pré-Iluminismo. Criticava a Igreja corrupta e autoritária e ironizava a produção intelectual da época, representada pelo formalismo das universidades, reduto dos escolásticos. Erasmo, bebendo na fonte dos filósofos gregos, recuperados na época em que viveu, escreveu Elogio da Loucura, em que critica a hipocrisia e a tolice humanas, e todas as formas de tirania e superstições, ao mesmo tempo em que se refere às paixões, o que chama de uma “loucura sábia”, pois dela emanam o amor e o prazer. Um verdadeiro tratado sobre a condição humana.
 
Isaac Asimov, nascido na Rússia mas criado nos Estados Unidos, formado em química pela Universidade de Colúmbia, foi, sem dúvida, o mais profícuo escritor de ficção científica do século XX. Escreveu uma série chamada Fundação, na qual descrevia um plano de mil anos para dominação do universo, e Eu Robot, em que criava uma nova mentalidade de relação entre o homem e as máquinas. São dele as famosas Leis da Robótica.
 
Os livros de Asimov são ambientados no futuro. Dez séculos à nossa frente. Com sua cultura de cientista, ele consegue escrever uma ficção com base em fatos reais ou possíveis. É antes um futurólogo do que um ficcionista. Um detalhe, no entanto, provoca a inteligência de seus leitores. Os ambientes do futuro, recheados de maravilhas tecnológicas, viagens interplanetárias, facilidades e confortos proporcionados pela ciência, são habitados por pessoas que trazem dentro de si as mesmas angústias, desejos, medos e paixões que experimentamos hoje. Aliás, exatamente as mesmas descritas por Erasmo do Renascimento e pelos gregos de 25 séculos atrás.
 
A lição que tiramos dessa comparação é que parece que o homem não muda. Muda o entorno, o exterior, o geral, mas não a essência humana. Três tempos; três cenários diferentes; três homens iguais. Na virada para o século XXI a palavra mais articulada é mudança. A mudança do século, do milênio, da era. A mudança da tecnologia, das profissões, do comportamento corporativo.
 
E agora? Podemos, afinal de conta, mudar de verdade? O homem muda ou não muda? Qual a verdade por trás dessa questão? Quais as características do profissional do século XXI, que nada mais é do que uma continuação dos últimos anos do século XX?
 
Consta que, na prática, o século XX terminou em 1989, por ocasião da queda do muro de Berlim. Não pelo fato em si, mas pelo que ele provocou, ou simbolizou. O fim da guerra fria. A disponibilização da Internet à humanidade. A desfronteirização e suas conseqüências. É claro que a conseqüência mais visível ocorreu na vida profissional, em que as pessoas passaram a conviver com um escritório maior, imenso, do tamanho do mundo. As qualidades do profissional do futuro já são bem conhecidas: domínio da informática, da internet, de idiomas, capacidade de trabalhar em equipe, criatividade, interdisciplinaridade, contextualização.
 
O que mais chama a atenção dos observadores atentos ao comportamento humano é que as mudanças profissionais atualmente exigidas passam longe das escolas e dos centros de treinamento técnico. O que se deseja de verdade são pessoas capazes de aprender continuamente, de perceber as mudanças do meio ambiente em que estão inseridas, de adaptar-se rapidamente a essas modificações.
 
O que o mundo quer, neste início de século, incluindo nesse mundo o técnico/profissional/corporativo, é um ser humano de verdade. Completo. Com potencialidades em permanente processo de desenvolvimento. E com respeito aos seus desejos humanos…
 
O resto é conseqüência! Erasmo e Asimov assinam embaixo!
 
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