Eu, Epicuro Macunaíma de Masi

O homem é o único animal que faz algumas coisas. É o único que pensa (pelo menos do nosso jeito), se reconhece no espelho e faz amor de frente. É também o único cria ciclos comportamentais e, volta e meia, reedita uma velha maneira de vestir, dançar, guerrear, pensar.
 
No século IV a.C. o filósofo grego Epicuro desenvolveu uma filosofia materialista, arreligiosa e que cultuava a busca ao prazer como virtude primordial. Desejava Epicuro criar um pensamento capaz de libertar as pessoas do medo. Não só do medo da morte, mas, principalmente, do medo da vida. No entanto ele diferenciava os prazeres entre si, e estimulava as pessoas a buscarem aqueles que podiam ser duradouros, e que, portanto, derivavam de uma conduta absolutamente virtuosa.
 
Epicuro, por justiça, não deve ser relacionado a atos de prazer carnal, imediato e volátil, como as orgias, bebidas e sexo livre. Isso está mais relacionado com o hedonismo, filosofia que também privilegia o prazer, mas não estabelece diferenças entre os vários tipos, como faz o epicurismo.
 
Em 1928 o escritor paulista Mário Raul de Morais Andrade lança o livro Macunaíma, no qual traça um “perfil do brasileiro” na pele do personagem-título. Uma combinação de romance com história, mitologia, folclore e epopéia, Macunaíma descreve um “herói sem caráter”, que gostava de nada fazer, e que tinha como frase predileta “Ai, que preguiça…”
 
Ao lado de Oswald de Andrade, Anita Malfatti e outros intelectuais, Mário de Andrade organiza a Semana de Arte Moderna em 1922, que foi recebida com críticas extremas pela sociedade da época, mas que fez história e criou o modernismo, importante movimento da cultura brasileira. Algum tempo depois essa tendência desembocou no Manifesto Antropófago, assinado por Oswald de Andrade, que propunha que o Brasil “devorasse” a cultura estrangeira e criasse uma cultura própria, revolucionária, diferente.
 
Nos últimos dois anos temos sido assediados pela literatura, pelas entrevistas e pela presença televisiva do sociólogo Domenico de Masi, que, unindo Macunaíma a Epicuro, tenta demonstrar a virtude do ócio. Apaixonado pelo Brasil, onde encontrou o terreno mais fértil para plantar suas idéias, diz, para quem quiser ouvir que “a rede de balanço talvez seja o objeto que tenha o design mais bonito e prático entre todos aqueles criados pelo homem”.
 
Com um pensamento bem encadeado, o italiano mostra que as horas destinadas ao ócio pode ser transformadas no tempo mais rico de criatividade. Diz que vivemos a sociedade “pós-industrial”. A primeira grande revolução dos costumes aconteceu há cerca de 7.000 anos, na revolução agrícola. A segunda foi a revolução industrial, no século XVII. A terceira revolução (a pós-industrial) estamos iniciando agora, quando o valor principal está sendo deslocado da terra e dos bens de consumo para o terreno dos bens imateriais, como a informação, os serviços , a comunicação, a arte, todos produtos das idéias.
 
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