Eu, eu mesmo e o mundo

Tem dois tipos de viagem que eu gosto de fazer: as que vou acompanhado e as que viajo sozinho. “Muito engraçado, o colunista…”, você deve estar pensando, e com justa razão. Mas antes de perder a paciência com este autor, pense um pouco: viajar é sempre bom, desde que você faça a coisa certa. E fazer a coisa certa significa colocar na mesma mochila todos os ingredientes de uma boa viagem: a escolha do local, a época apropriada, os recursos necessários, o pré-work da viagem, ou seja, ler e interar-se um pouco do local, de modo a aproveitá-lo melhor, e, claro, a melhor companhia.
No quesito companhia, eu já experimentei várias configurações. Viajei com a família, com meu filho, com um amigo, com dois, com uma turma, com colegas de trabalho e, claro, com a namorada, que que virou minha mulher e minha grande companheira de descobertas pelo mundo. Aliás, alguém já disse: se o casal quer saber se o casamento vai dar certo, que primeiro viaje junto. Uma viagem é um resumo da vida, com todas as delícias e dificuldades, e a convivência intensa será uma avant-première do cotidiano.
Ainda acho que minha mulher é minha melhor parceira de viagem, pois ambos sentimos prazer por descoberta, gostamos de aventura e temos hábitos parecidos. Contabilizamos nossas viagens na pasta do patrimônio do casal, e novas viagens estão sempre em nossa estratégia para o futuro.
Depois da minha mulher como companheira de viagem, em segundo lugar ( e, às vezes, em primeiro) está outra pessoa especial: eu mesmo.
Acredite. Tenho experiência. Viajar sozinho pode ser uma excelente ideia, principalmente quando é por opção ( e não por falta de opção).  A jornada ganha um toque de reflexão, de  autoconhecimento, de busca interior. É surpreendente o quanto encontramos com nós mesmos quando  vamos para lugares novos em nossa própria companhia. Chega a ser comovente.
Em inglês, há um recurso linguístico muito sutil das diferentes maneiras de estar só. São duas palavras distintas: loneliness e aloneness. Parecem sinônimos, mas não são. Traduzindo, loneliness quer dizer exatamente solidão, a condição de estar isolado, desacompanhado, solitário, abandonado.
É triste estar em loneliness! Já aloneness tem um sentido positivo – significa que você está isolado, sim, mas porque você decidiu se isolar. Significa estar em companhia de você mesmo com algum objetivo nobre como refletir, meditar, se acalmar. Estar aloneness não significa estar solitário. Antes, é estar em boa companhia. É nessa categoria que entram as viagens que fazemos sozinhos.
Há viagens cujos princípios até recomendam que se faça só. O melhor exemplo é o dos caminhos dos peregrinos, cujo roteiro mais conhecido do mundo é o de Santiago de Compostela, pelo interior da frança e da Espanha. Quase sempre as rotas de peregrinos têm  um caráter místico ou religioso, como a de Fátima em Portugal,  a de Assis na itália e o caminho inca no Peru, que termina em Machu Picchu; entretanto, muitas pessoas que as perfazem não são religiosas nem místicas. Então apenas querendo viajar sozinhas por um local preparado para isso.
Destino mais valioso
Mas qualquer lugar está preparado para os viajantes solitários, desde que eles saibam se bastar. Então, o planeta inteiro se disponibiliza, solidário e aconchegante. A escritora americana Elizabeth Gilbert tornou famosa a viagem de encontro consigo mesma no livre que virou best-seller mundial Comer, Rezar e Amar. Suas aventuras em Roma, índia e Bali viraram filme com Julia Robert. Claro que ela não encontrou somente a si mesma. Encontrou também Javier Bardem, que, aliás, interpreta um personagem brasileiro.
Esse é o outro lado de viagens que fazemos a sós. Os encontros. Favorecidos pelo distanciamento e pela abertura do espírito, conhecer pessoas faz parte da viagem. Elas estão na paisagem. Outra descrição semelhante, também baseada em uma história real (segundo o autor), foi transformada em livro pelo roteirista Andrew Gottlieb. Para curar a ressaca de um casamento fracassado e de um divórcio litigioso, o personagem viaja sozinho para a Irlanda, onde deseja beber , para Las Vegas, com a finalidade de jogar, e para a Tailândia, onde acreditava poder entregar-se à luxúria. Uma evidente paródia ao Comer, Rezar e Amar, o Beber, Jogar, [email protected]#er foi comprado pelo cinema antes de ser lançado.
Guardadas as diferenças de estilos, ambos os livros tratam do mesmo tema. Eles falam de pessoas que resolvem viajar sozinhas em busca de conhecer seu interior mais do que novos lugares.  Os dois personagens são bem-sucedidos em seus propósitos, encontram suas verdades conhecem novos locais e, de quebra, apaixonam-se novamente.
Uma viagem solo não precisa ter caráter místico, não precisa se para longe nem longa. Não é necessário que seja até o distante Oriente nem a lugares paradisíacos. Uma viagem solo pode ser para uma grande cidade ou para uma praia. Para Nova York ou Ilhabela. Aliás, uma viagem pode ser empreendida pelo próprio bairro ou até dentro de casa. Uma verdadeira viagem solo, quando voluntária, tem a virtude do autoencontro. O mais valioso entre todos…
Acho que viajar só é uma aventura e uma conquista que todos devem ter. Libertar-se da necessidade da companhia pode ser uma alforria para a imobilidade, um passaporte para todas as nações, um navio para todos os portos. Você, sua mala e seu desejo de explorar o mundo já formam um time completo. A respeito disso, disse uma vez o escritor Ernest Hemingway, ele mesmo um grande explorador do planeta e da alma humana:
“Já me senti sozinho em uma multidão, e bem acompanhado em um momento de solidão”.
Texto publicado sob licença da revista Viagem , Editora Abril. Todos os direitos reservados. 
 
 
 
 

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