Faça a sua parte

Como um ato isolado pode liderar um comportamento coletivo
 
Uma das abordagens mais recorrentes ao tema da sustentabilidade ambiental é a responsabilidade individual. Ou seja, o que “você” está fazendo para diminuir a possibilidade da catástrofe no planeta? Há dois tipos de resposta possíveis. Primeiro: você não está nem aí para o meio ambiente porque acha que a maioria pensa assim e não adiantaria nada fazer alguma coisa, pois seria apenas uma gota no oceano. Segundo: você faz a sua parte. Neste caso, suas motivações podem ser uma das seguintes: fazer bonito na frente de outras pessoas; ficar em paz com sua consciência; acreditar que seu gesto pode, de fato, fazer a diferença. Se você está nesta última categoria, pode confiar, você está fazendo a diferença e as pessoas como você são a grande esperança do planeta, porque suas ações têm efeito multiplicador.
 
Para ilustrar, vou contar uma história da qual muito me orgulho. Eu e minha mulher moramos em São Paulo há menos de dez anos, vindos de Curitiba, no Paraná. Nossa cidade de origem é conhecida por algumas soluções urbanísticas, entre elas, o hábito de separar o lixo orgânico do reciclável. Curitiba é, no mundo inteiro, a cidade que ostenta o maior índice de separação doméstica de lixo. As pessoas não conseguem não separar, estão condicionadas por um programa que começou nas escolas básicas há cerca de 30 anos.
 
Pois bem, quando montamos nosso apartamento na paulicéia, uma das primeiras providências foi comprar dois recipientes para separar o lixo. Mas, eis que, passadas umas semanas, o zelador do prédio nos fez um comentário desconcertante. “Professor”, disse-me ele, “nós achamos muito bonito o senhor e sua mulher separarem o lixo, mas eu queria lhe avisar que quando chega aqui em baixo nós juntamos tudo de novo porque por aqui não há coleta diferenciada”. Assim, do nada, o comentário colocou nossa cívica iniciativa na categoria dos atos inúteis. Tínhamos dois caminhos possíveis: aceitar a nova realidade e acabar com o costume, ou manter o hábito, ainda que inócuo. Optamos pelo segundo caminho.
 
Foi quando duas coisas boas aconteceram. A primeira foi a descoberta de que um supermercado próximo mantinha um programa próprio de coleta seletiva e aceitava, de bom grado, contribuições dos vizinhos. A segunda, melhor ainda, foi a informação de nosso zelador de que, passados cerca de seis meses, vários vizinhos do prédio já estavam fazendo a mesma coisa. Uau! Nossa teimosia ecológica foi a tal “bola de neve” que cresce à medida que desce a encosta, atraída pela consciência e pela responsabilidade. Sempre é assim — um ato coletivo começa de um ato individual. Hoje, só 2%* da cidade de São Paulo são atendidos por coleta seletiva, mas já é um começo. Lembre-se: você é uma parte da humanidade e é responsável pelo todo. Lidere essa idéia ponto final!
 
Texto publicado sob licença da revista Você s/a, Editora Abril.
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