Falar é bom, fazer é melhor

– E você, tá fazendo o quê a respeito disso?
 
Adorei ouvir essa pergunta. Ela foi feita por meu amigo João para um sujeito, que vou chamar de Carlos, em uma roda animada de um final de tarde de sexta feira. Já se disse que uma mesa de bar é um território livre, um lugar quase sagrado, em que as inibições são dissolvidas no álcool, as opiniões são declaradas sem medo, as ideias são discutidas com fervor, os sonhos são expostos sem pudor e, no final, tudo termina no penúltimo chope.
 
Além disso, uma mesa de bar deve respeitar a premissa da alegria, da descontração, do fair play. Nada mais chato do que a presença de alguns tipos, entre eles os “donos da verdade” e os “de mal com a vida”. E o problema é que, muitas vezes não há como evita-los e, pior, esses dois entes, com frequência, habitam o mesmo corpo. O tal Carlos era uma dessas almas penadas.
 
Ele fez sua análise sociológico-econômico-política de nosso tempo usando vocábulos enfáticos, como incompetência, sem-vergonhice, corrupção, violência, descaso, apimentados por adjetivos grandiloquentes, tais como irrecuperável, destrutivo, atrasado, imensurável e, pasme, apocalíptico. Quando alguém esboçava uma opinião contrária, ele dizia “Você não sabe o que fala”, e se alguém concordava ele complementava: “É pior do que você pensa”. Eu não sabia se pedia mais um chope, se ia embora ou me suicidava com a faca de cortar queijo.
 
Ok, os assuntos de nosso tempo merecem, sim, discussão, tomada de posição, elaboração de propostas. Outro tipo a ser evitado é o alienado que parece viver em outro planeta, alheio a tudo. O problema não é o assunto. O problema é a forma. Era evidente que o comensal em questão tinha como objetivo apenas regurgitar revolta, e não acender alguma luz. Foi quando o João, calmamente, fez a pergunta que abre este texto.
O que se seguiu for relativamente cômico, pois o relato de o “o que ele fazia a respeito” não convenceu a ninguém, nem a ele mesmo. Aliás, acabou resumindo, seu papel não era fazer nada mesmo, era apenas denunciar. E já estava fazendo muito. Não, meu caro, você não está fazendo nada, além de tornar desagradável a mesa do bar, que existe para ser feliz. Longe de mim achar que não devemos encarar as mazelas de nosso tempo de frente, com a cara limpa e o olhar atento. Só acho que poderíamos, quem sabe, reclamar um pouco menos e fazer um pouco mais.
 
 
 
Além da responsabilidade
 
Mas, fazer o que, se não temos poder de polícia, nem somos legisladores, juízes, autoridades? Fazer o que está ao nosso alcance, ora. O planeta, o país, a cidade, esses espaços cheios de problemas, poderiam ser divididos em áreas de influência, em pequenos territórios em que cada um de nós pudesse agir como um capitão da mudança, do cuidado e da civilidade. Podemos mudar o melhorar pela atitude e pelo exemplo. Pode parecer ingênuo, mas não há outro caminho. A denúncia é necessária, mas a atitude é imprescindível. Tudo começa pela disposição pra assumir uma parcela da responsabilidade.
 
No início do texto me referi a personagens inspirados em duas pessoas. O João real também se chama João. João Cordeiro. Ele acaba de lançar um livro (Editora Évora) que gostei muito, e recomendo. O título é em inglês: Accountability. Por que ele não traduziu? Simples: porque essa palavra não tem tradução literal. O mais próximo seria responsabilidade, mas, para isso, há a palavra responsibility. Accountability é mais que responsibility. Em resumo, ser responsável significa assumir responsabilidade, já, ser accountable significa procurar a responsabilidade a assumir.
O livro tem um tom corporativo, dirigido aos profissionais, jovens executivos, líderes de equipe, mas a aplicação do conceito é universal. Pessoas accountables são bem vindas nas empresas, nas escolas, na rua, em casa. Mitos gregos, parábolas bíblicas, pesquisas psicológicas, cases empresariais e até o Homer Simpson ilustram a obra. Aliás, a frase deste último abre um capítulo: “A culpa é minha e eu ponho em quem eu quiser!”.
 
O personagem criado pelo americano Matt Groening é o Macunaíma moderno e, apesar de simpático, representa o que há de pior em termos de civilidade. Nunca a culpa é dele e nunca será dele a atitude positiva. É um exemplo bem acabado de “desculpability”. Os portadores dessa síndrome são os que mais usam expressões como “Alguém precisa fazer alguma coisa”, “Isso não é comigo”, “Só fiz o que me mandaram”, “Eu não sabia”, “Esse problema não é meu”, “Já deu meu horário”, e por aí vai.
 
O livro deixa claro que a atitude accountable pode ser aprendida. Deveria, aliás, ser ensinada nas escolas, tem o mesmo valor do que aprender matemática para a construção de uma vida digna e bem sucedida. Aliás, diz o texto, assumir responsabilidades não dá garantia de sucesso, mas não se conhece alguém bem sucedido que não tenha assumido responsabilidades. É, dá pra pensar.
 
 
 
Atitudes transformadoras
 
Enquanto escrevia este texto, a sincronicidade – aqueles acontecimentos coincidentes que têm relação apenas significativa, e não causal, e que foi tão explorada por Jung – se fez presente.
 
Primeiro, recebi um e-mail de meu amigo Zé Pescador, contando de sua luta contra o Coral-sol, uma espécie de coral que está se proliferando rapidamente em nosso litoral, especialmente na Bahia e no Rio de Janeiro. Apesar de belo, é uma praga, pois destrói outras espécies de coral e coloca em risco todo o ecossistema. O Coral-sol é nativo do Timor Leste, e veio para o Brasil aderido ao casco de plataformas de petróleo na década de 1980.
 
O Zé Pescador, que fundou há anos a Pró-Mar, uma ONG de educação ambiental na ilha de Itaparica, pode ser visto todos os dias mergulhando com um martelo e um cinzel para remover o máximo que possa do coral intruso, dando, assim, um alento de sobrevivência para os demais. Já vi o Zé reclamar da falta de recursos e das autoridades – agora mesmo, diz ele em seu e-mail, acaba de chegar mais uma plataforma de petróleo à baia de Todos os Santos, cheia dessa praga – mas nunca o vi derrotado.
 
Zé Pescador dá ótimas palestras pelo Brasil sobre essa e outras iniciativas, suas e de outros não-acomodados. Em uma época em que o tema sustentabilidade entrou para o vocabulário das pessoas lúcidas e das empresas conscientes, ouvi-lo faz um bem tremendo. Com suas palavras o Zé aumenta a consciência da população e das autoridades, mas é com sua atitude que ele convence, comove e cria seguidores. Hoje outras pessoas o ajudam. Se eles pararem, a fauna que resiste desde a chegada de Cabral, estará seriamente ameaçada.
 
A segunda coincidência deu-se quando recebi a revista Veja com um encarte sobre Curitiba, em comemoração aos 321 anos de minha cidade de origem, de onde saí há tanto tempo, mas que ainda ocupa espaço importante em meu afeto. Uma das seções tem o sugestivo título de Curitibanos nota 10, e se refere a pessoas que têm “atitudes transformadoras”. A capital do Paraná é conhecida por suas soluções urbanísticas, iniciadas na década de 1970 pelo então jovem prefeito Jayme Lerner, cujas ideias só prosperaram porque contaram com a participação dos cidadãos. Se não de todos, pelo menos da maioria, os que separam lixo, preservam o patrimônio público, respeitam as filas. Os curitibanos nota 10.
 
Um dos textos conta a história do engenheiro Napoleão Chiamulera que começa seus domingos semeando mudas pela cidade. Já plantou mais de mil árvores, sendo a metade de araucárias, o pinheiro paranaense, e as demais de espécies frutíferas. Abaste-se de mudas no Instituto Ambiental do Paraná, planeja os locais, prepara o solo e deixa sua marca ao longo da ciclovia do bairro do Hugo Lange, que aliás, ganhou esse nome em homenagem a um médico da região, conhecido por suas ações comunitárias.
 
Pensei muito no engenheiro curitibano hoje de manhã, quando pedalei na ciclovia da Marginal Pinheiros, uma boa obra da prefeitura de São Paulo, mas que, além de boa seria bela, se tivesse uma mata ciliar exuberante em toda sua extensão. Mas, será que a responsabilidade é só da prefeitura? E nós, que somos os usuários e verdadeiros donos desse espaço? E você, Carlos? E eu, estou fazendo o quê, além do que pagam para fazer?
 
Não quero ser injusto. Comentei duas atitudes transformadoras, mas há outras. Há milhares de homens e mulheres espalhados pelo Brasil e pelo mundo dando bons exemplos, às vezes seguidos, às vezes apreciados, às vezes ignorados. Ainda bem. São eles que criam o fluxo positivo, um movimento que impede o mundo de estagnar na apatia e na indiferença. Heróis do cotidiano. Os mais necessários.
 
Eugenio Mussak, que escreve para Vida Simples todos os meses, diz que se acha accountable, mas que poderia ser mais.

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