Fora da ordem

Dois jovens brasileiros se encontram no metrô de Londres. Estão indo para a mesma festa, em um lugar chamado Notting Hill. Eduardo estuda matemática e Edgar faz doutorado em literatura ingle-sa. Conversam alegremente até que, de repente, o metrô simplesmente pára no meio do percurso. Os passageiros não se abalam, pois curtas paradas são comuns em um sistema de metrô com 13 linhas, dezenas de estações e centenas de máquinas puxando milhares de vagões, com milhões de pessoas de todas as nacionalidades trafegando apressadas e esperançosas em todos os dias londrinos. Até aí, tudo bem, só que…
 
Só que aquela parada está sendo mais longa que as corriqueiras. O condutor do trem informa que a interrupção do movimento se deve a um fato inesperado, mas que já está sendo resolvido. Pede desculpas e recomenda paciência. “Unexpected occurrence?” – resmunga Edgar, para um Eduardo sério e pensativo. Ambos ficam quietos por instantes, esperando um movimento, um fim para aquela sensação desagradável de ficar parado nas entranhas da cidade mais cosmopolita do mundo ao lado de pessoas sisudas de todas as nacionalidades. Eduardo quebra o silêncio:
 
– É o efeito do caos.
– Como? Você acha que há uma situação de caos em Londres? O que você quer dizer com isso? – pergunta Edgar, com sinais de ansiedade e medo.
– Não há caos em Londres. Há caos no mundo, no universo.
– Não me assuste. O que você está querendo dizer?
– Nada de mais. Só que a vida é assim mesmo. Está sujeita a um número tão grande de pe-quenos fatos, que nós não deveríamos nos espantar com os acontecimentos inesperados. Eles fazem parte do universo de possibilidades, algumas pequenas, algumas grandes. Sei lá o que aconteceu no metrô. Pode ser muita coisa.
– Sei – disse Edgar entrando no espírito da discussão. – Pode ser uma ameaça terrorista, mas também pode ser que um esquilo perdido do Hyde Park resolveu procurar abrigo nos sub-terrâneos e está sendo caçado pelos seguranças do metrô.
– Exato. Ou ainda pode ser que um técnico do controle do metrô está de regime brabo, des-maiou em cima de um painel e provocou a parada de boa parte do sistema. Tudo é possível. Pequenos acontecimentos dificilmente previsíveis podem alterar imensamente um sistema com-plexo. E o mundo é exatamente isto: um sistema complexo.
– A borboleta bateu asas em Pequim…
– E provocou um furacão no Texas… Exatamente.
Em seguida, o trem andou, interrompendo as divagações de nossos amigos. Eles nunca sabe-rão por que o trem fez aquela parada, até porque, logo depois, na festa, Edgar conheceu Daisy, uma galesa sardenta, e Eduardo encantou-se com Juanita, uma mexicana que estuda cinema. Romances que estão começando também têm inú-meras pos-sibilidades.
 
O caos e sua teoria
Os nomes dos personagens fictícios dessa história foram inspirados em dois pensadores im-portantes do século 20: Edward Lorenz e Edgar Morin. Lorenz é um matemático e meteorologista do MIT, a prestigiosa universidade de Boston. De-vemos a ele os primeiros estudos sobre a Te-oria do Caos. Morin é um sociólogo francês, dono de uma obra vasta, incluindo análises da com-plexidade da vida. Em campos diferentes da inteligência humana, ambos chegaram a conclu-sões equivalentes: o mundo e a vida são sistemas tão complexos que é praticamente impossível prever todas as possibilidades que as influenciam.
 
Desconcertante, não é mesmo? Mas muita calma nessa hora, pois exatamente por saber dis-so é que ganhamos uma possibilidade maior de controlar nosso mundo e nossa vida. Em outras palavras, se eu sei que o caos existe, consigo observar que ele, apesar de ser o caos, também tem um padrão que pode ser observado, controlado – e, a partir dele, criamos uma nova ordem.
 
Edward Lorenz procurou encontrar um método confiável de obter a previsão do tem-po no longo prazo, e utilizou para isso modelos computadorizados. Acabou descobrindo que os padrões meteo-rológicos são absolutamente caóticos por natureza, pois pequenas variações de pressão, tempera-tura ou vento podem provocar reações espetaculares, contrariando totalmente as previsões. Os grandes eventos, como o resfriamento das águas do oceano Pacífico, podem ser previsíveis, mas um incêndio em uma pequena floresta não. E esse fato poderá influenciar a temperatura de sua cidade tanto quanto o outro.
 
Daí nasceu aquela famosa hipótese, segundo a qual as minúsculas correntes de ar provoca-das pelo bater de asas de uma borboleta em um continente podem desencadear forças e aconte-cimentos que vão acabar resultando em um furacão do outro lado do planeta. Assustador? Sim, mas também fascinante. A vida é assim, um sistema complexo, em que os efeitos são, muitas vezes, desproporcionais às causas.
O acaso existe, sim, por isso tenho que estar preparado para ele.
 
Lorenz costumava contar uma experiência que tivera em uma praça, observando um chafariz. É totalmente impossível prever como estarão as gotas de água no próximo instante. As possibilidades são infinitas, o sistema é totalmente imprevisível, incontrolável e caótico. Mas – e aí reside o fato interessante de sua obser-vação – o chafariz, e todo seu conteúdo caótico, estão controlados pelo espaço que os contém. Ele certamente não passará do pequeno muro decorativo que o delimita e o define como uma bela imprevisibilidade.
 
Enquanto Lorenz estudava o caos na natureza, Morin tratou do assunto na sociologia. Disse ele: “A complexidade da vida apresenta os traços inquietantes da confusão, da desordem, da incer-teza. Daí a necessidade de pôr ordem nos fenômenos, de selecionar os elementos, compreendê-los, organizá-los, hierarquizá-los, e para isso precisamos do conhecimento”.
 
Ordem e desordem
 
Então, se o caos está presente em nossa vida, corremos o risco de perder o controle. Certo? Certo, mas depende de nós, pois aí entra a inteligência humana, a mente capaz de devolver a ordem e até aproveitar os fatos do acaso como propulsores de uma nova ordem, ainda melhor. “O que não me mata me fortalece”, diria Nietzsche.
O físico alemão Rudolf Clausius criou o termo entropia, palavra de origem grega que quer di-zer alguma coisa como “troca interior”. Ela foi primariamente usada na termodinâmica, parte da física que explica as trocas de calor entre os corpos.
 
A entropia é aplicada para medir a parte da energia que é transformada em trabalho, sendo, nesse caso, desviada paracriar um grau de de-sordem no sistema. Mas, em uma aplicação ampliada, a entropia afirma que os sistemas comple-xos – como a vida – estão em permanente movimento, e que seu destino é o caos. Em outras palavras, qualquer sistema – sua mesa de trabalho, sua conta bancária, o jardim de sua casa, o trânsito de uma grande cidade, a economia mundial –, se deixado à sua própria sorte, virará uma imensa confusão, principalmente em função da imensidade de pequenas variáveis que pode inter-ferir nele.
 
Essas pequenas incursões para a intimidade dos conceitos científicos nos ajudam a entender o que acontece em nossas vidas. Se não investirmos conhecimento, talento, esforço, trabalho na organização de nossas vidas, estamos abrindo espaço para o caos. Isso sem contar que, apesar de todos os esforços, ainda devemos considerar o acaso, aquilo que parecia improvável mas que pode acontecer. Gostemos ou não.
 
Por exemplo, eu, neste mês, estou comemorando meu primeiro aniversário. Você deve estar perguntando: “Como assim, se ele na verdade é um cinqüentão?” Explico: é que há um ano, em um sábado calmo, em casa, ouvindo meus CDs em companhia de meus livros, de minhas cachor-ras e de minha mulher Lu, de repente comecei a sentir tontura, vertigem e dor de cabeça. Eu, um homem de hábitos saudáveis, que faz ginástica, alimenta-se bem e tem nível controlado de estres-se, tive um aneurisma cerebral roto, que quase me custou a vida, assim, de repente, do nada.
 
Foi um fato inesperado? Certamente. Raro? Sim. Previsível? Pouco provável. Causou sofrimen-to? Com certeza. Foi uma coisa ruim? Pode parecer estranho, mas hoje eu acho que não. Claro, porque eu fui atendido a tempo, tive um diagnóstico rápido e a ação efetiva de médicos que resolve-ram o problema através de uma técnica moderna de cirurgia endovascular. Mas também porque tive que fazer, inesperadamente, um sabático compulsório de um mês. Tempo bem aproveitado para rever meus valores, refazer planos, repensar a vida.
 
Acredite, sou uma pessoa melhor hoje, depois que entendi o significado da finitude da vida, que percebi a importância das amizades, que compreendi o valor da família, que travei contato com as benesses da ciência, que consegui com que, em meu interior, a razão fizesse as pazes com a fé.
 
Aliás, Einstein teria afirmado que Deus não joga dados com o Universo. Eu, entretanto, tendo a acreditar que é isso o que Ele faz o tempo todo. Assim nós temos mais o que aprender e ganha-mos mais oportunidades para evoluir. Como disse Anatole France: “Acaso é o pseudônimo de Deus, quando ele não quer assinar sua obra”.
 
Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril.
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