Força e delicadeza

– Delicadeza exige força. A brutalidade é fraca.
 
Com esta frase, meu amigo Hiroshi tentou sintetizar o kabuji, o teatro japonês, cujos papéis femininos também são representados por homens, com movimentos suaves e delicados. Mas, cuidado, essa delicadeza feminina está longe de ser um sinal de falta de força ou de virilidade. Antes pelo contrário. Para conseguir controlar o corpo, evitando movimentos abruptos, é necessária grande força e controle muscular.
 
Aliás, não é só no teatro japonês que percebemos a relação entre a força e a delicadeza. Se você já assistiu a um balé clássico, sabe do que estou falando. A Ana Botafogo, em uma entrevista, disse coisas como: “Começo meu ensaio sempre com alongamento, esticando os pés no chão, elevando a 45 graus e depois a 90 graus até poder, depois de cerca de meia hora, estico a perna numa amplitude maior e começar a saltar e subir na ponta. Tudo vai gradativo. Não chego aqui e começo a dançar”. É dura a vida de uma bailarina. Forca e graciosidade. Talento e disciplina.
 
Nunca esqueci daquele pensamento de meu companheiro de olhos puxados, e não pude evitar de extrapolar essa verdade para o comportamento cotidiano das pessoas. Do palco do teatro para o palco da vida. É incrível como, ajustando a lente da crítica sem julgamento, assistimos a demonstrações explícitas de delicadeza e também de grosseria.
 
Percebi que, assim como no balé, os atos de delicadeza cotidiana costumam partir daqueles que, por se saberem fortes, não precisam sair por aí demonstrando sua força, exibindo superioridade e causando medo. Quem faz isso, na verdade é fraco. Age como um baiacu, o peixe pequeno que se infla todo para parecer grande e ameaçador diante do inimigo.
 
Quando falei sobre isso com outro amigo, o Eduardo, que é mestre em várias artes marciais, ele, sorrindo, de pronto me explicou o significado do Goju-Ryu, um estilo de karatê, que busca aproximar os opostos, as energias aparentemente antagônicas, para ser mais poderoso. “Go” simboliza a força, a rigidez, enquanto “Ju” tem o significado de suavidade ou flexibilidade. “Ryo” quer dizer estilo.
 
Este é o estilo que só os grandes conseguem desenvolver. Sendo suave nos movimentos e forte nos objetivos em que eles resultam, surpreende o oponente e leva ao controle e à vitória.
 
O poder da suavidade
 
Sem ser um carateca, e, muito menos, sem querer ser um Gandhi das relações, ainda acredito na força da gentileza, da elegância e da suavidade. Convivo muito com executivos de empresas, lideres corporativos, e noto que os mais experientes e bem sucedidos, muitas vezes considerados “agressivos” nos negócios, não o são nas relações. Ao contrário, são serenos, passam segurança e confiança. E, ao evitarem a rudeza, conseguem retirar das pessoas de sua equipe o que elas têm de melhor. Afinal, confiança, respeito e admiração são sentimentos incrivelmente mais poderosos do que medo, obediência e subserviência.
 
Infelizmente todos nós já presenciamos atos de brutalidade explícita em todos os ambientes. No trabalho, na rua, no transporte público, em casa e, também nos movimentos de reivindicação. Aliás, a brutalidade eclipsou a força que os movimentos tinham em sua origem. E eles ficaram fracos. A violência não é forte, concluo.
 
A delicadeza é, acima de tudo, uma manifestação de força. Lembre-se de alguém (todos conhecemos pessoas assim) que jamais eleva a voz, que é capaz de sorrir diante da adversidade, que usa seus argumentos lógicos não para se impor mas para colaborar e encontrar a melhor solução diante de uma dificuldade.
 
É sobre essa delicadeza que eu falo aqui. Aquela delicadeza no trato, que está milhas e milhas de ser sinônimo de insegurança, subserviência ou fraqueza. Ao contrário, é uma demonstração de segurança e autocontrole. É bom conviver com alguém assim. Mas ainda há quem ache que os fortes são os que demonstram sua força através da agressividade das palavras, da rudeza dos gestos e da grandiloquência da voz. Este é o modelo que nos venderam, infelizmente.
 
A verdade é outra. Repare como a delicadeza costuma vir das pessoas mais bem resolvidas, confiantes, que parecem estar no comando – e elas estão. Estas são as fortes de verdade. E, o mais importante: tornam-se ainda mais fortes com seus gestos e palavras suaves e gentis, pois a partir delas conquistam os demais, e assim ganham respeito, confiança e poder.
 
Apesar de vivermos em uma sociedade não selvagem, organizada, extremamente mais segura e confortável do que nunca foi, ainda encontramos a genética ancestral se manifestando pela brutalidade, pelo grito, pela demonstração da força como armadura protetora. O evolucionismo explica. Só que, quando falamos de evolução, estamos nos referindo às espécies, mas podemos estar falando de sociedades e de indivíduos, e é necessário entender a diferença. Sinais de evolução, no caso de uma pessoa ou de uma sociedade, são a educação, a consciência, a civilidade, e não a força bruta nem a capacidade de causar medo.
 
Mas cuidado, não estou falando de ascensão social. Deveria haver uma relação direta entre esses fatos, e em geral há, mas já assisti a comportamentos bizarros e inconvenientes na sala VIP do aeroporto, e cenas de comovente solidariedade e gentileza em locais simples e até pobres. Algo falhou naqueles e deu certo nestes.
 
Definitivamente, não precisamos de gritos, quebradeira, músicas que fazem apologia à delinquência, gestos ofensivos, grafites sem sentido nem beleza, desrespeito ao patrimônio público, invasão ao espaço privado. Precisamos é de civilização e esta é, necessariamente, gentil e delicada, por isso é forte. É desta força social que às vezes sinto falta.
 
Passos suaves
 
Recentemente assisti a um espetáculo que me lembrou tudo isso e me encantou profundamente. Fui ver uma apresentação da Escola Espanhola de Equitação que, apesar do nome, fica em Viena, no suntuoso Palácio Imperial de Ofburg, em pleno coração da capital da Áustria. Este foi o centro do poder dos Habsburgo, soberanos entre o século XIII e o final de Primeira Guerra Mundial, em 1918. A grandiosidade arquitetônica desse palácio, com seus 2.600 cômodos impressiona e encanta que o visita, além de ser, ainda hoje a sede do governo daquele país. Foi lá que morou a mítica Sissi, interpretada pela bela Romy Schneider no cinema. Aliás, a beleza de ambas é equivalente.
 
Fundada no século XVI, quando os primeiros cavalos foram trazidos da Espanha, a escola foi um dos símbolos da realeza e, atualmente, da cultura daquele país. A entrada se faz por uma escadaria, pois os cavalos são vistos de cima, em seu picadeiro, onde se exercitam, treinam e se apresentam. O ambiente é surpreendente, pois em nada lembra uma estrebaria. Três imensos lustres de cristal enfeitam o teto e as valsas de Strauss enchem cada cantinho com seus acordes leves e alegres.
 
Cinco cavalos estavam se apresentando quando chegamos. Quatro cavaleiros e uma amazona, todos elegantes, conduziam os animais com delicadeza. A beleza do conjunto é indescritível. Algo me chamou a atenção na moça, que mantinha uma postura de bailarina e sorria o tempo todo. Ela era magra, aparentemente frágil, e formava com o cavalo um conjunto único. Às vezes tocava no costado do imenso animal com o dedo mínimo, e ele respondia de imediato ao seu comando.
 
Consta que os Andaluzes foram os primeiros cavalos de sela e os primeiros em quem se usou estribo (me disse meu amigo Marins), e isso fez toda a diferença, pois transformou-os em arma de guerra, inclusive carregando cavaleiros em suas armaduras de ferro, tão forte eram. Os cavalos Lipizzan, da escola, são descendentes dos Andaluzes. Imensos, pesados, deixam transparecer sua musculatura potente por baixo da pele. É a força em estado natural.
 
Entretanto, não se ouvem suas passadas, de tão sutis e suaves. Trotam como se bailassem, empinam-se como se se alongassem. Quase flutuam, e é isso que impressiona, criando uma imagem hipnótica. Só conseguem ser delicados porque são fortíssimos, como os bailarinos clássicos. Não conseguimos parar de olhar para eles, e admira-los. Apreciando aquele balé me lembrei mais uma vez de meu amigo: “Delicadeza exige força. A brutalidade é fraca”. Verdade.
 
Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril. Todos os direitos reservados. Visite o site da revista: www.revistavidasimples.com.br

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