Há males que vêm para o bem

Todos temos a capacidade de nos recuperar, reorganizar os fatos e obter um saldo positivo a partir de situações aparentemente negativas da vida.
 
Por uma pequena vila um dia passou uma manada de cavalos a caminho da capital do reino. Um garoto encantou-se por um pequeno potro, e acabou ganhando o cavalinho de presente do cavaleiro-chefe. “Que sorte teve seu filho”, comentou um vizinho com o pai do garoto. “Pode ser sorte ou pode ser azar”, respondeu o pai. O tempo passou, e o cavalinho crescia ao lado do garoto feliz. Entretanto, um dia o cavalo fugiu. “Que azar teve seu filho”, interpretou o mesmo vizinho. “Pode ser azar ou pode ser sorte”, argumentou o pai.
 
Alguns dias depois o potro voltou para o curral, trazendo com ele uma pequena manada de cavalos selvagens. “Que sorte teve seu filho”, insistiu o vizinho palpiteiro. Mais uma vez o pai ponderou que “pode ser sorte ou pode ser azar”.
 
O menino pôs-se, então, a domar os cavalos, e nessa tarefa acabou caindo e fraturando a perna, o que o deixou imobilizado, sem poder montar nem andar. “Que azar teve seu filho”, disse o mesmo homem. “Pode ser azar mas pode ser sorte”, retrucou o pai, mais uma vez. Foi quando o país a que pertencia a aldeia entrou em guerra e todos os jovens foram convocados e enviados para batalhas sangrentas, mas o jovem não foi, pois estava acamado. “Que sorte teve seu filho”… – e assim a história pode não ter fim.
 
Esta pequena metáfora nos lembra que nem sempre a conseqüência dos fatos será como seu prenúncio. Uma boa notícia pode se transformar em uma má situação, e a recíproca é verdadeira, pois alguns males que acontecem em nossas vidas podem se transformar em coisas boas, melhores até do que se o mal não tivesse acontecido. Pode ser apenas coincidência, ou pode derivar da capacidade que o ser humano tem de se recuperar, reorganizar os fatos e ter, no final, um balanço positivo a partir de situações aparentemente negativas. É quando dizemos, otimistas, que há males que vêm para o bem. Mas o que há por trás dessa afirmação?
 
Imprevistos acontecem
 
À medida que aumenta a sofisticação do mundo, com um número multiplicado de variáveis interferindo em nossas vidas, cresce também a possibilidade de que fatos ocasionais mudem os rumos, alterem os planos e provoquem novas situações, ora melhores, ora piores do que as imaginadas originalmente. Nem sempre as coisas são como gostaríamos, nem como planejamos. É quando afirmamos que imprevistos acontecem, e tratamos de lidar com os fatos novos. Nessas horas entra em jogo a capacidade humana de transformar em ganho o que aparentemente deveria ser uma perda. Mas será que é simples assim?
 
Imaginemos duas situações diferentes e semelhantes ao mesmo tempo. A primeira: você tem um emprego em que é feliz e de repente é despedido. A sensação inicial é de desespero, ainda que controlado. A auto-estima cai a níveis baixíssimos, o mundo parece hostil e você se sente sozinho. Entretanto, uma semana depois, você é chamado para ocupar uma vaga em outro emprego, com maior salário, melhor ambiente de trabalho e ótimas perspectivas. Tudo deu certo e você – que não teria conseguido o emprego novo se não tivesse perdido o anterior – passa a repetir: há males que vêm para melhor.
 
A segunda: você resolve abrir seu próprio negócio, usando sua experiência no setor, suas economias e, principalmente, seu otimismo. Mas as coisas não acontecem como planejado. Os fornecedores não são confiáveis, os empregados não se comprometem, os clientes não aparecem. O tempo passa, você tenta todas as saídas, faz propaganda, troca os empregados, consegue um empréstimo no banco para capital de giro. Mesmo assim o sufoco continua e você sente que precisaria de mais tempo para consolidar o empreendimento. Você não tem esse tempo, pois as contas estão vencendo. O final é previsível: você fecha a empresa, fica endividado, sem perspectivas e sem amigos. E leva, a partir de então, muito tempo para se levantar na vida de novo. Mas hoje, quando se lembra do ocorrido, você considera que foi um grande aprendizado, que o fortaleceu e o tornou mais prudente e sábio, e até reconhece que foi bom ter passado por aquele sufoco.
 
No primeiro caso, o final feliz parece ter vindo de algo mágico, independente de sua vontade. Já no segundo, o bem veio do inestimável aprendizado que só uma experiência ruim pode conceder. Sim, há quem diga que todos os males podem terminar por nos oferecer algo de bom, dependendo apenas da interpretação do fato, o que depende da percepção e da lucidez da pessoa.
 
Desespero positivo
 
O filósofo dinamarquês Sorën Kierkegaard, por exemplo, jogou uma luz sobre o assunto quando, em 1849, publicou sua obra O Desespero Humano – Doença até a Morte (Martin Claret), que se transformou em uma espécie de manual sobre os desesperos que nos acometem e seu significado para nossa evolução. Afinal, diz ele, todos os humanos alguma vez se desesperam diante dos males que pertencem à vida natural. A diferença está em o que fazemos com esse desespero e o que aprendemos com ele.
 
Kierkegaard divide o desespero em duas categorias: o desespero-fraqueza e o desespero-desafio. O primeiro deriva do desejo de não sermos o que somos – ou negar os fatos. O segundo deriva do desejo de sermos o que não somos – ou transformar os fatos.
 
Não parece, mas a diferença é imensa. Quando não desejamos ser o que somos, ou quando negamos a realidade, estamos negando nossa essência, e então nos transformamos em inimigos de nós mesmos. Já quando desejamos ser o que não somos ou queremos mudar a realidade, podemos estar diante da possibilidade de nosso crescimento pessoal. Afinal, desejamos ser aquilo que não somos ainda – e uma nova possibilidade se abre.
 
Isso também acontece com fatos externos a nós. Quando sofremos a perda de um ente querido, por exemplo, é claro que gostaríamos de negar o fato, mas ele é inegável, pois pertence à ordem natural das coisas. Já quando aceitamos a perda e tratamos de elaborar a nova realidade – por mais dura que seja –, abrimos uma nova possibilidade em nossa vida.
 
Os males que acometem o homem funcionam como um espelho. Quando se mira nele, este vê sua verdadeira essência, que pode ser sua miséria ou sua grandeza, ou ambas. Os momentos maus, de sofrimento, são a melhor oportunidade que temos de entrar em contato real conosco mesmos. Entretanto, há quem negue a oportunidade, transferindo a responsabilidade para as circunstâncias. Nesse caso, não há a menor chance de o mal vir para o bem.
 
Considera-se o primeiro desespero como uma fraqueza, pois não podemos negar o que somos sem ofender nossa essência. Isso é um ato covarde, fraco. Já o segundo desespero é um desafio por abrir a possibilidade de ser mais do que se é. É conseguir mais do que se conseguiu até então. Significa patrocinar a evolução, o que não deixa de ser igualmente desesperador, pelas dificuldades naturais da mudança.
 
Quando negamos a nós mesmos, e nada fazemos a respeito disso, é difícil que este mal venha para o bem. Mas quando a fraqueza vira desafio e a autonegação vira mudança e aprimoramento de rumos, então o bem sempre virá, como conseqüência natural do próprio aprendizado. Diz o filósofo: “Se eu arrisco e me engano, que seja – a vida castiga-me para me socorrer. Todavia, se nada arriscar, quem me ajudará?”.
 
Nesse sentido, concluímos que o desespero é bom, pois seu oposto é a apatia, e esta produz imobilidade e mata a oportunidade. Kierkegaard afirma que as infelicidades que o homem encontra pelo caminho o fazem aproximar-se de si mesmo e, ao invés de extinguir-se, ele se refaz, torna-se um novo ser, melhor e mais forte.
 
Crise como crescimento
 
As crises são boas quando terminam bem, e elas sempre podem terminar bem se promoverem aprendizado, crescimento. A própria palavra “crise” se auto-explica. Ela deriva do grego krinos, que tem um significado esplêndido: algo como avaliar para julgar, ou considerar para decidir, ou ainda selecionar para escolher. O momento de crise é, então, um momento de escolha, e nele está incluída a avaliação do fato, o julgamento dos valores, a decisão pela melhor alternativa. A crise é educadora, um privilégio. Aqueles que tiveram poucas crises na verdade foram poupados do amadurecimento, como acontece quando os pais superprotegem seus filhos ou quando os professores não provocam o pensamento de seus alunos – apenas passam conhecimentos dogmáticos, desprovidos de significado.
 
Da China também recebemos uma luz de sabedoria milenar. Em mandarim, o ideograma que simboliza crise é formado pela junção de dois outros ideogramas, sendo que um representa perigo enquanto o outro representa oportunidade. Em nossa língua ocidental essas duas palavras são diferentes e não guardam, entre si, nenhuma relação. Por isso achamos que crise é perigo e não oportunidade. E é justamente essa visão parcial que diminui nossa chance de transformarmos os males em bens. Quando o perigo é interpretado como oportunidade utilizamos a crise a nosso favor e, neste caso, o mal realmente vem para o bem.
 
Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril.
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