Idéias Secas: compromisso com realidade

Fabiano e Vitória sabiam que precisavam de idéias novas para continuar no emprego. Eram colegas de trabalho recém admitidos na agência de propaganda, e tinham consciência que nesse tipo de negócio só sobrevive quem consegue ser criativo, mostrar que é criativo e usar a criatividade o tempo todo.
 
E logo de cara tinha surgido um desafio imenso. Como colaborar com a sensibilização da sociedade para a questão da fome no Brasil, sem que isso pareça uma campanha de caráter factual, destinada a se esvaziar com o tempo, à medida que outras demandas políticas sejam mais importantes e a atenção da população possa ser desviada para outros assuntos? Afinal, a opinião pública precisa sempre estar ocupada.
 
O assunto é bastante relevante e não há como discutir o valor e a importância do “produto” fome. Milhares de brasileiros encontram-se abaixo do “limite da pobreza”, estando, portanto, expostos à possibilidade de passar fome a maior parte do tempo. E é justamente dessa parcela de miseráveis que surge a marginalidade que povoa a periferia das grandes cidades, e infiltra violência nas ruas em que nós, cidadãos “honestos e trabalhadores” trafegamos e onde queremos, é claro, segurança e tranqüilidade.
 
É interessante como funciona o efeito “anestesiante” da violência e da miséria. Assim como o olfato que se acostuma com um cheiro pouco agradável, e deixa de percebê-lo depois de algum tempo, parece que o cidadão comum da classe média brasileira “acostumou-se” e não sente mais o “cheiro” da miséria que nos cerca e nos envolve.
 
Essa era a missão de nossos personagens. Ajudar o brasileiro sentir o “cheiro” do problema sem se “acostumar” com ele a ponto de não senti-lo mais. Por isso, longas reuniões de pauta, brainstormings de inovação, exercícios de criatividade. E apesar de todo o esforço, nenhuma campanha que fosse digna da importância do tema sem cair no “lugar comum emocional apelativo”.
 
Até que um dia, o chefe do escritório, experiente e culto, acabou por dar uma valiosa pista, ao mesmo tempo em que mexeu com os brios da dupla: – “Vocês nem parecem ter os nomes que têm. Não se esqueçam da realidade, e se precisarem de ajuda peçam para o Graciliano!” O que é que ele quis dizer com isso? Nossos nomes e a realidade? Qual a relação entre os dois? Que Graciliano é esse?
 
Foi então que tudo fez sentido! É claro! Graciliano Ramos, o alagoano genial, autor obras como “Caetés”, “Memórias do Cárcere”, “São Bernardo” e a melhor de todas: “Vidas secas”. Qual a razão do sucesso desse nordestino que escreveu sobre a tragédia humana e começou a carreira no Jornal de Alagoas em 1909 publicando um soneto chamado justamente “Céptico”?
 
É fácil perceber essa razão: literatura de qualidade aliada ao compromisso com a verdade.
 
Quanto aos nomes, Fabiano e Sinhá Vitória são justamente os nomes dos personagens centrais de “Vidas secas”, o casal de retirantes, com dois filhos, um papagaio, e uma cachorra chamada Baleia.
 
“Sinhá Vitória precisava falar. Se ficasse calada, seria como um pé de mandacaru, secando, morrendo. Queria enganar-se, gritar, dizer que era forte, e a quentura medonha, as árvores transformadas em garranchos, a imobilidade e o silencio não valiam nada. Chegou-se a Fabiano, amparou-o e amparou-se.”
 
E andavam para o sul, metidos naquele sonho. Uma cidade grande, cheia de pessoas fortes. Os meninos em escolas, aprendendo coisas difíceis e necessárias. Eles dois velhinhos, acabando-se como uns cachorros, inúteis, acabando-se como Baleia. Que iriam fazer?
 
Retardaram-se temerosos. Chegariam a uma terra desconhecida e civilizada, ficariam presos nela. E o sertão continuaria a mandar gente para lá. O sertão mandaria para a cidade homens fortes, brutos, como Fabiano, sinhá Vitória e os dois meninos.”
 
As Sinhás Vitórias precisam ser ouvidas, mas para isso não precisam de palavras bonitas nem de campanhas milionárias. Precisam apenas do compromisso mais elementar, e mais difícil de ser atendido: o compromisso com a realidade, que é o que faz a diferença entre os homens sábios e aqueles que vieram para este mundo apenas para passear!
 
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