Improviso

O leitor Henrique Machado pergunta: “No mundo veloz e mutante em que vivemos, é importante aprender a improvisar?”
 
Há alguns anos, eu e minha filha Débora estávamos em Olinda, em Pernambuco, descansando no Alto da Sé, apreciando a famosa vista e uma refrescante água de coco, quando fomos abordados simpaticamente por dois repentistas locais. O primeiro, dedilhando o violão de maneira displicente, atacou:
 
Com licença meu bom paulista
Mas eu preciso lhe mostrar
Que nós temos mais que a bela vista
Que vocês estão a apreciar
O que encanta todo sulista
É nossa maneira de agradar
 
Seu companheiro, então, perguntou nossos nomes e o que éramos um do outro, fez graça com nossa pele clara, nosso jeito magro, nossa rendição à beleza local, e emendou:
 
O Eugenio é um homem aberto
Que leva a Débora pra passear
Mas como ele é muito esperto
E a filha tudo quer comprar
Ele aponta pro mar tão perto
E diz leve a vista pra lembrar
 
Esses dois poetas, homens simples, poderiam ficar por horas improvisando versos a partir de temas propostos ao acaso. Essa arte – o repente – é uma manifestação da cultura popular, comum nos estados do Nordeste, mas não só neles. Sua principal característica é o improviso de versos a partir de palavras, criando rimas que respeitam o sentido. Como em geral é praticado em dupla, o repente também assume a característica de uma disputa, um verdadeiro duelo entre os dois cantadores. Vence aquele que consegue encurralar o outro, que vai ficando sem argumentos ou sem rimas. Trata-se de uma arte engraçada, curiosa, que encanta quem a escuta pelo inusitado das frases e pela inteligência lingüística dos contendores, mais que pela qualidade musical ou poética.
 
O repente usa o princípio da sextilha, uma estrofe composta por seis linhas, em que a rima obrigatória está nas linhas pares, facultativa nas ímpares. À primeira vista, a sextilha pode parecer pobre, mas, quando bem usada, mostra seu grande potencial poético. Camões, por exemplo, usou-a para compor Os Lusíadas. É, sem dúvida, um recurso ótimo para o improviso, que, por sua vez, é uma característica importante da arte. A arte sem o improviso arrisca-se a ficar limitada à técnica. Ainda que ninguém faça arte sem dominar a técnica, só ganha o título de artista quem consegue usar sua base técnica para criar, produzir… improvisar.
 
Usando a arte como exemplo, as empresas, que nada mais são que grupos humanos formados para atingir resultados, são cada vez menos comparadas a orquestras sinfônicas, em que tudo acontece obedecendo à partitura e ao ensaio; e cada vez mais comparadas a bandas de jazz, capazes de improvisar buscando melhores resultados.
 
Sem preparação prévia
 
Mas o improviso não é exclusividade da arte, pode ser percebido em outras – ou todas – as atividades humanas. A ciência também é um exemplo, apesar de ter suas bases fincadas no método, que é a antítese do improviso. É que, às vezes, imprevistos acontecem.
 
O filme Apolo 13, estrelado por Tom Hanks, mostra um exemplo do poder do improviso da engenharia espacial, que foi fundamental para salvar vidas humanas. Baseado em fatos reais, conta o drama dos três astronautas que ficaram aprisionados na cápsula lunar após um defeito técnico que não só abortou a chegada à Lua como também colocou em grande risco a vida dos tripulantes. O problema era o que fazer com o gás carbônico produzido pela própria respiração dos astronautas que, após determinado nível, transforma-se em substância tóxica, matando quem o inala. Era necessário construir um filtro.
 
Mas como, se eles não tinham a bordo os materiais e as ferramentas necessárias? Foi quando entrou em ação uma equipe da base de Houston que, trabalhando com cópias exatas dos produtos existentes a bordo, conseguiu construir um protótipo de filtro suficientemente eficaz. As informações foram passadas para a nave e os astronautas conseguiram reproduzir o filtro com partes retiradas de outros equipamentos. Ao unir com fitas adesivas alguns pedaços de tecido e restos de plástico, os astronautas conseguiram salvar suas próprias vidas.
 
O filme é bem feito, conta uma história verdadeira e é uma metáfora da própria vida. Às vezes achamos que estamos no comando, com tudo organizado, previsto, arrumado, quando somos assaltados por um imprevisto que muda tudo. O que fazer quando somos pegos de surpresa, quando algo totalmente fora do script sai da cartola da vida, que brinca de mágica e diz “surpresa!”? Convenhamos, nem tudo sai exatamente como planejamos o tempo todo e, às vezes, temos de improvisar para não ficar com cara de bobo maldizendo a sorte.
 
Mas parece que nós, brasileiros, estamos bem na foto, pois diz a lenda que, nessa arte, somos insuperáveis. E sempre encontraremos exemplos para confirmar essa tese. Eu mesmo tenho minhas histórias. Lembro, por exemplo, que quando visitei, como estudante de medicina, um pronto-socorro nos Estados Unidos, fiquei impressionado com a quantidade de recursos à disposição dos médicos plantonistas. Ao comentar que nós, no Brasil, não tínhamos nem a metade dos equipamentos, produtos e técnicas que para eles eram rotina, tive que ouvir: “E como conseguem trabalhar?” “Improvisando”, disse eu, para um gringo que fazia cara de golfinho. E era a pura verdade. Se não tínhamos mononylon, suturávamos com algodão. Se faltava mertiolato, desinfetávamos com álcool. E, no fim, tudo dava certo. Como diz o ditado popular, “é a necessidade que ensina o sapo a pular”.
 
Com preparo
 
Mas há o outro lado da moeda: é claro que o improviso é útil, mas cuidado, pois ele pode significar falta de planejamento. E, se for, é parente da incompetência. Lembro que meu pai, dado a repetir frases de efeito, costumava dizer: “Você não pode depender do improviso para viver, mas se não souber improvisar, estará perdido”.
 
Naquela ocasião não entendi direito, mas o tempo acabou esclarecendo a idéia do meu velho. Se você não tiver planejamento e estrutura, dificilmente chegará a algum lugar; mas, considerando que a vida é cheia de casualidades e de surpresas, às vezes você precisará improvisar.
 
Pois é. Parece que estamos diante de mais um paradoxo – precisamos estar preparados para improvisar. Como assim? Se estivermos preparados, o improviso não deixa de ser um improviso? Não! Pelo simples motivo de que o improviso não está relacionado à falta de preparo e sim ao aparecimento súbito de uma situação que não era esperada. Imprevistos acontecem, e os improvisos são a resposta.
 
O professor Reinaldo Polito, mestre em ciências da comunicação e professor de oratória de executivos, artistas e políticos, ensina que a capacidade de improvisar é uma das qualidades dos bons oradores. “Entretanto”, diz o especialista, que é autor de 17 livros sobre o assunto, muitos publicados em vários idiomas, “improvisar não significa falar sobre o que não se conhece, e sim organizar os pensamentos e transformá-los em palavras diante de situações não esperadas.” Improvisar não é sair do nada para o tudo. Antes, significa buscar no baú mental de repertórios as peças que precisam ser encaixadas e ajustá-las o mais rápido possível, pois a situação é de emergência.
 
E, para isso, é necessária a combinação entre a calma e a autoconfiança. Por exemplo, se você é chamado a falar de repente, não tem jeito, terá que improvisar. Polito recomenda que, nesse caso, você comece abordando um tema mais simples, de menor importância, que domine bem, para estabelecer um elo de confiança com a platéia e, claro, ganhar tempo para se acalmar. Quando a freqüência cardíaca baixa, os neurônios se comunicam melhor, as palavras se organizam e as frases fluem. Cuidado, apenas, para não sair do foco. Dê um giro, mas volte ao assunto, se não vão achar que você é um político tentando enrolar.
 
Com responsabilidade
 
Uma das histórias sobre o compositor polonês Frédéric Chopin conta seu primeiro encontro com outro gênio do romantismo do século 19, o húngaro Franz Liszt. Consta que Chopin, ainda desconhecido, visitava um empresário artístico em Paris quando, de repente, ouviu o som de uma de suas polonaises vindo da sala ao lado. Assustado, correu para o local e viu ninguém menos que o já famoso Liszt sentado ao piano, tocando uma das partituras que Chopin havia esquecido sobre a mesa enquanto aguardava ser chamado para a reunião com o empresário.
 
Liszt, sem interromper, perguntou se a composição era daquele jovem desconhecido que o olhava assustado. Ao receber a confirmação, disse que estava tão impressionado com a qualidade da obra que gostaria de apertar a mão do compositor, mas não podia fazer isso, pois não conseguia parar de tocar. Chopin então apresentou a solução: “Eu posso substituir sua mão direita com minha mão esquerda. Então poderemos nos cumprimentar”. Esse dueto de mãos esquerdas foi apenas o primeiro improviso daquela tarde parisiense. O que se seguiu foi um concerto a quatro mãos, improvisando variações sobre a obra de ambos.
 
Não tenho confirmação dessa história. Mas não importa. É muito bela. Além disso, ensina que o improviso não é um ato de irresponsáveis. Só improvisa quem conhece o assunto sobre o qual deve improvisar. Chefes de cozinha improvisam nas panelas, músicos improvisam com os instrumentos, professores improvisam na sala de aula, médicos improvisam no hospital de campanha, poetas improvisam ao ouvido de suas musas. O que não dá para imaginar é ver médicos improvisando na cozinha, cozinheiros no piano etc. Improviso não é aventura. Exige preparo e responsabilidade. Improvisar sobre o que não se domina é como achar que se pode pilotar um avião porque se tem carteira de motorista. Não vai dar certo no fim.
 
Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril.
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