Indo direto ao ponto

“Olá, meu nome é Eugenio. Eu escrevo para a coluna ‘Atitude’ desta revista. O tema deste mês refere-se a um comportamento muito desejado atualmente: a capacidade de ‘ir direto ao ponto’. Você vai ficar sabendo quais as vantagens de usar uma comunicação objetiva, e como fazer isso de maneira correta e elegante.”
O parágrafo acima tem cinqüenta e duas palavras e foi escrito em um pouco mais de quatro linhas. Entretanto, ele contém uma mensagem composta por seis elementos: quem, o que, onde, quando, porque e como.
O “quem” é o Eugenio; o “o que” é o tema abordado, o “onde” é a coluna Atitude; o “quando” é este mês, o “porque” é o comportamento desejado atualmente; e o “como” é a técnica que permite que você faça isso de maneira correta e elegante. O texto dá todas as informações, e ainda cria o gancho para a continuação da leitura, pois o “como” ainda está por vir.
Preste atenção: qualquer esforço de comunicação que tem por finalidade atender às questões colocadas acima.
É claro que elas não estão juntas sempre, aliás, quase nunca; mas é bom que se diga que a comunicação será tão mais assertiva quanto maior for o conjunto dessas questões e quanto mais ligadas elas estiverem entre si e com a idéia central.
Entretanto não é incomum que estejamos diante de uma pessoa que se dirige a nós, ou diante de um texto que estamos lendo, e de repente percebemos que estamos extremamente desconfortáveis; e demoramos a perceber que tamanho desconforto deriva da falta de respostas às perguntas intrínsecas ao diálogo.
Há pessoas que simplesmente não conseguem mostrar para onde estão indo com seu discurso. Acredite, elas não conseguem prender a atenção de seus interlocutores.
A linguagem é uma espetacular qualidade humana. Foi seu surgimento, lá no alvorecer de nossa espécie, que permitiu duas fabulosas ocorrências: a organização da sociedade humana e o desenvolvimento da capacidade de pensar. Sim, a linguagem antecedeu o pensamento.
A fragilidade física do homem só foi compensada por sua capacidade de agrupar-se, e esta foi aprimorada pela comunicação oral, que vem evoluindo desde então. O esforço para comunicar palavras desenvolveu o cérebro de tal forma que começamos a pensar.
Perceba como essa relação existe em nossas vidas diárias. Quando você explica alguma coisa para alguém, você mesmo acaba entendendo melhor. Os professores, por exemplo, são unânimes em afirmar que mais aprenderam quando começaram a ensinar. Outro exemplo vem dos terapeutas de consultório, que estimulam o paciente a falar, mas cuja intenção final é o estímulo ao pensar.
Há, portanto, essa relação definitiva entre a comunicação e o pensamento. Pensamos para falar, e ao falar, desejamos interferir no pensamento de nosso interlocutor. Ou de nosso leitor, se a palavra for escrita, como neste caso…
Daí a importância da lógica, que é representada pelas respostas às seis questões já citadas.
Quando o interlocutor começa a não receber as respostas, mesmo que ele não as tenha formulado, a comunicação ameaça perder-se. A lógica, na comunicação, é atingir o objetivo; é ir ao ponto principal, aquele que motivou o início da conversa.
Então comunicação é apenas lógica? Não, não é. É também emoção. E é do encontro de ambos, lógica e emoção, que nasce a mensagem, pois um fertiliza o outro, gerando a curiosidade, gestando a idéia e trazendo à luz o entendimento.
 
A comunicação e o alvo
A comunicação tem um alvo que deve ser atingido. Ir direto ao centro do alvo é o modo mais efetivo de se processar uma mensagem. Estamos diante de uma arte, pois ir direto ao alvo constitui a assertividade desejada, mas cuidado! O alvo precisa estar pronto para receber a mensagem, e isso às vezes exige preparação prévia, feita pelo emocional.
Simplificando, há três tipos de pessoas:
 
a) As que usam palavras inicialmente para criar o ambiente favorável e depois expõe o objetivo claramente.
 
b) As que vão ao ponto central tão rapidamente que acabam recebendo resistência porque se tornam agressivas.
 
c) As que não conseguem transmitir a mensagem por absoluta incapacidade de objetivar.
 
Imagine atender ao telefone em sua casa e, do outro lado da linha alguém diz:
– Boa tarde, por favor, posso falar com o Roberto? Aqui é o André, colega dele no colégio.
Informação correta, suficiente, completa e educada. Foi direto ao ponto de maneira adequada. Infelizmente nem sempre é assim que acontece. Principalmente quem tem filhos adolescentes, ao atender ao telefone já ouviu algo como:
– O Roberto está?
E pronto! Mais objetivo impossível, mas nos sentimos no mínimo incomodados pela falta de etiqueta. Ir direto ao ponto não pode ferir os bons modos, a elegância de nosso idioma, a educação que garante a vida em sociedade.
Há ainda outra possibilidade:
– Alô, eu preciso falar com o Roberto. Estava procurando o Carlos, mas ele me disse que o Roberto passou lá no clube e falou com a Paulinha sobre o trabalho do colégio…
Desta vez faltou a assertividade que sobrou no anterior, mas nem por isso atendeu à educação desejada. Faltou lucidez, sobrou retórica sem sentido. Os últimos dois tipos correm o risco de não atingir o objetivo, que é falar com o Roberto sem aborrecer ninguém. O pobre Roberto tem cada amigo…
 
O tempo máximo de atenção
O americano Milo Frank é um grande especialista em técnicas de comunicação, além de ter chegado à vice-presidência da rede de televisão CBS, onde era encarregado de direção de elencos. O Milo sabe o que diz. Pois bem, ele escreveu um livro curtinho chamado simplesmente “Como apresentar as suas idéias em trinta segundos – ou menos”, e fez um enorme sucesso.
Ele defende a idéia de que uma mensagem que não possa ser transmitida em trinta segundos, provavelmente não conseguirá ser transmitida em tempo nenhum.
Esse é o tempo de atenção garantida do ser humano, depois começamos a desviar o pensamento para assuntos que lhe proporcionam prazer, como sexo ou dinheiro. Os tempos de trinta segundos de uma conversa devem ser alimentados com lógica e emoção para garantir a atenção dos próximos trinta. Funcionamos como um telefone público que precisa receber créditos (as antigas fichas) a cada trinta segundos, ou a comunicação se perde. Caiu a ficha?
Esse é o motivo pelo qual as propagandas de televisão têm exatamente trinta segundos, e elas sempre conseguem passar a mensagem completa, aquela que tem por finalidade despertar nossa vontade de conhecer mais sobre o produto. Muitas vezes, quando a propaganda volta, nós prestamos atenção como se fosse a continuação e não apenas sua repetição.
A comunicação televisiva utiliza o conceito do sound bite, algo como “mordida sonora”, que é um tempo de um minuto e meio, formado por três tempos de trinta segundos. Uma entrevista que vai ao ar durante o jornal da TV é editada para ter esse tempo, no máximo. Nos primeiros trinta segundos o repórter diz o que está acontecendo e faz a pergunta. Em trinta segundos o entrevistado responde. Nos últimos trinta o repórter faz um comentário e o fechamento. Comunicação garantida!
Diz o Milo Frank: “a mensagem de trinta segundos é sempre aplicável, em qualquer situação ou lugar. É uma ferramenta básica. Quando a dominamos ela se torna uma segunda natureza para nós. Cria uma nova atitude mental. Transforma nosso modo de pensar e lidar com outras pessoas no dia-a-dia. Comece a prestar atenção em sua comunicação e você se sentirá instintivamente preparado para respeitar o princípio dos trinta segundos”.
Isso é que é ir direto ao ponto!
 
A ditadura do tempo
– Vamos deixar os entretantos, e partir logo para os finalmentes!
Essa frase transforma os advérbios “entretanto” e “finalmente” em substantivos e os coloca no plural. Não, não é um desrespeito pela língua portuguesa; é uma licença de nosso idioma a um dos autores clássicos da literatura de folhetim, o imortal Dias Gomes.
O grande criador de personagens para novelas de televisão, em um de seus momentos mais ricos, deu corpo e voz a um tal Odorico Paraguaçu, prefeito populista e corrupto de uma cidade fictícia no litoral baiano, chamada Sucupira. Odorico entrou para a história da dramaturgia especialmente pelas frases, que, carregadas de humor traduziam o pensamento do brasileiro oprimido pela ditadura militar.
A frase acima é a mais famosa, por ser universal e não estar ligada apenas àquele momento de nossa história, e por isso mesmo jamais perdeu força. Odorico levava todo mundo na “lábia”, enrolava a todos com sua habilidade para usar e criar palavras. Só pedia os “finalmentes” quando interessava a ele mesmo chegar a uma conclusão e terminar a conversa.
Hoje vivemos um outro tempo, tanto no Brasil quanto no mundo. Felizmente acabou a ditadura. Mas há outra. Vivemos o tempo da ditadura do tempo e do resultado. Aproveitar bem o tempo e chegar a resultados satisfatórios interessa a todos. Odorico continua atual!
Mesmo que eu não deseje terminar a conversa, quero chegar a conclusões, até para que a conversa tome um rumo mais interessante. E muitas vezes precisamos de conclusões intermediárias para a construção de uma grande conclusão final.
Queremos entender o rumo da mensagem, caso contrário abrimos mão dela e nos conectamos a outra, afinal, mensagens é o que não falta na atualidade. Participamos de uma competição pela atenção de nosso interlocutor. Você consegue manter uma conversa em um bar, com tantas tentações ao redor? Pessoas circulando, música, barulho. Só se aprender a ir direto ao ponto, utilizar mensagens curtas, respeitar os trinta segundos. Dessa forma irá dando “mordidas” na atenção de seus amigos.
 
Comunicação elegante
Essa história do bar vale para o ambiente de trabalho, para a rua, a casa e qualquer outro lugar. Comunicação eficiente esbanja assertividade. E não pense que ser assertivo, lidar com o objetivo da mensagem, significa colocar em risco a elegância do falar. O grande William Shakespeare, ao contrário do que pensa o senso comum, era objetivo. Seus livros, escritos em forma de peças teatrais são curtos. A maioria deles foi publicada no formato “livro de bolso”, e pertence ao que existe de melhor e de mais belo na transmissão de idéias.
Shakespeare sabia ir direto ao ponto sem perder a elegância. Ele contou histórias fantásticas. Nelas revela todas as faces do ser humano, o mais complexo dos seres, e o faz de maneira objetiva, sem, no entanto, desconsiderar a poesia e a beleza.
O prólogo de sua peça mais famosa, Romeu e Julieta, é um exemplo da arte de ir direto ao ponto, respeitando a beleza da linguagem. Logo no início ficamos sabendo o que acontece, onde, como, quando, com quem, porque e, por fim, fica a promessa dos detalhes, que tanto nos encantam há séculos. Lembre-se que são os mesmos elementos com os quais este artigo começou, e que integram o poder da comunicação, indo direto ao ponto, que é o que interessa a todos. Diz Shakespeare:
“Duas casas, duas famílias com a mesma dignidade na aprazível Verona, onde se desenrola esta história, que parte de antigas rixas e chega a um novo motim, quando sangue civil mancha mãos civis.
Pois, da prole dessas duas casas, inimigas fatais, um casal de amantes traídos pelo destino toma sua própria vida. Seus desventurados gestos, dignos de nossa pena, resultam em que, com sua morte, enterra-se também a luta de seus pais.
A terrível história de seu amor, marcado pela morte, e a permanência do ódio de seus pais, que tão somente teve um basta com o trágico fim de seus filhos, constituem o que se passa a narrar agora neste palco, por duas horas. Esta peça, se ouvida com paciência, tentará, como nosso esforço, prover-lhe todos os detalhes.”
E, como disse a própria Julieta para sua ama, que saíra em busca de Romeu:
– Diz-me logo, minha ama, não me faças esperar. Diz-me logo onde está o meu amor!
 
Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril.
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