Inveja – um sentimento ambiguo

Se você é humano, às vezes sente inveja. É normal, mas cuidado para não errar na dose, nem criar um padrão para não virar um invejoso reconhecido, com direito à alcunha de “Seca Pimenteira”. A inveja é tema da psicologia e da literatura há muito tempo. Uma das maneiras encontradas para lidar com o assunto foi classificar a inveja em “categorias”, quem sabe para justificar alguns invejosos e condenar outros. Falamos em uma “inveja ruim”, destrutiva, que infelicita e destrói relações. Mas também dizemos que existe a “inveja boa”, aquela que é declarada sem medo de ferir, e que é uma espécie de admiração pelo outro.
 
Ainda assim, a inveja costuma ser colocada junto com outros sentimentos de qualidade discutível, como o ciúme, a raiva e o medo, na vala comum dos “sentimentos destrutivos”. Aqueles pequenos demônios interiores que nos acompanham pela vida sugando parte de nossa vitalidade, paralisando movimentos e dificultando as reações justas. Sofremos, por causa deles, uma espécie de “amarelão” emocional, que nos enfraquece e nos torna tristes figuras. Verdadeiros Jecas Tatus psicológicos.
 
Ser ou estar
 
Aliás, quando Monteiro Lobato criou o personagem Jeca Tatu, o fraco e indolente caipira, cuidou de dizer que “o Jeca não é doente, ele apenas está doente”. Usou essa maravilhosa propriedade da língua portuguesa que nos permite separar um estado permanente de outro transitório.
 
Também podemos aplicar esse recurso à inveja, pois há uma diferença entre estar com inveja e ser invejoso. Preste atenção à sutil diferença: quem está poderá deixar de estar, mas quem é provavelmente o será para sempre. É seu costume. Quem declara que está com inveja o faz como quem conta que está com cólicas. É algo que vai passar. Já o invejoso reconhecido nada precisa declarar, aliás, ele nunca tem nada a declarar. “Inveja eu? Deus que me livre” – e bate na madeira. O invejoso precisa negar sua condição, pois a inveja se evapora quando exposta ao ar. É como o éter. Quando declaramos abertamente que estamos com inveja de alguém, na verdade, declaramos nossa admiração por ele. O invejoso de verdade jamais faria isso. Aceitar admiração significa, para o invejoso, aceitar sua própria inferioridade. São raros os invejosos assumidos, entretanto, há alguns exemplos.
 
Jean-François era sobrinho de um grande compositor, e tudo o que ele mais queria era seguir os passos do tio, de quem se julgava herdeiro do dom e da fama. Mas não foi bem isso que aconteceu, pois o jovem nunca revelou nenhum talento para a música e, como viria a ser demonstrado ao longo de sua vida, para coisa alguma. Indisciplinado e inconstante, tentou a carreira militar, pensou que poderia ser padre, arriscou-se na música, mas acomodou-se na boemia. Acabou por notabilizar-se por uma postura cínica: a arte de viver sem preocupação moral. E, para quem quisesse ouvir, dizia sem rodeios que invejava, sim, a celebridade de seu tio Rameau.
 
Tal indivíduo ignóbil é o personagem central do romance O sobrinho de Rameau de Denis Diderot, o filosofo francês que, por mais de vinte anos, entre 1750 e 1772, dedicou-se a compilar dados para redigir a Enciclopédia, um conjunto de volumes que resumiria todo o conhecimento da época. Diderot foi, por isso, alvo de críticas dos que consideravam seu trabalho algo menor, e o acusavam de ser um mero compilador, e não escritor e filósofo, como ele se apresentava. Findo o trabalho enciclopédico, Diderot escreveu alguns romances, sendo O sobrinho dedicado a discorrer sobre o sentimento da inveja, e aponta-lo na direção de seus críticos. Jean-François é, provavelmente, o único personagem da literatura que assume sua condição de invejoso e se orgulha dela.
 
Não se encontra um equivalente de Jean-François no mundo real com muita freqüência, pois a inveja não costuma ser um sentimento candidamente exposto. Quem o tem, o esconde, quando não o nega, até para si mesmo. É muito mais simples que alguém admita seu ódio, sua repulsa, seu medo e até seus ciúmes, mas não sua inveja, pois quem a assume, confessa sua inferioridade. E, o problema é que sofre com isso.
 
Outro francês, Jean de La Bruyére, contemporâneo de Diderot, lembra que a inveja volta-se contra quem a sente, e não contra quem a provocou. Disse ele: “Temos pelos nobres e pelas pessoas de destaque um ciúme estéril, ou um ódio impotente que não nos vinga de seu esplendor e elevação, e só faz acrescentar à nossa própria miséria o peso insuportável da felicidade alheia”.
 
O humor e o ódio
 
Veríssimo, com seu humor fino, escreveu recentemente que sente inveja. Declarou que inveja quem pode comer de tudo, quem tem cabelo, quem fala em público com facilidade. E que inveja especialmente aqueles que dizem que estão “sem nada para ler”. Segundo ele, estes são dignos de inveja porque certamente não se angustiam com a sensação de que não terão tempo, em uma vida, de ler tudo o que existe disponível, o que, definitivamente, não é o caso dele. Essa declaração pública do escritor gaúcho é invejável, pois ela revela um espírito intelectualmente irrequieto e insaciável. É uma inveja de causar inveja.
Quem não aceitaria – usando a piada para dizer a verdade – que está com inveja do amigo que vai viajar de férias para uma praia paradisíaca, com seu novo carro conversível e uma namorada linda e divertida? “Vai chover o tempo todo”, poderia dizer você, brincando. Ao que ele responderia “melhor, ficaremos no bangalô”. Essa é a inveja do chiste, da graça, do bom humor, da amizade.
 
O perigo mora nos “invejosos de carteirinha”, aqueles capazes de secar uma samambaia. Esse tipo de pessoa simplesmente não tolera a felicidade genuína do outro porque não consegue, ele mesmo, ser feliz, e atribui isso a quem consegue, como se não houvesse felicidade de sobra para todos. Se o outro a tem, faltará para ele. Há algo disso na cultura ibérica, em que sucesso é ofensa pessoal, ao contrário da anglo-saxã, em que sucesso é sinônimo de heroísmo. Os ídolos americanos costumam ser gente rica, bela, realizada, criativa e feliz. Por aqui, os heróis são os sobreviventes.
 
O cinema às vezes o esse assunto, e o coloca assim: quando o personagem tem inveja, o filme é uma comédia; quando o personagem é um invejoso, é um drama. Os personagens do seriado Friends são caricaturas da condição humana. Sentem amor, raiva, solidariedade e egoísmo em proporções semelhantes. Não raro, um declara inveja pela conquista do outro, para em seguida se arrepender e se emocionar. E tudo termina em piada.
 
Já no filme Seven, o serial killer interpretado por Kevin Spacey pratica crimes horrendos mas sofisticados, deixando, para cada um, a marca de um dos sete pecados capitais. Para o fim da série, deixa a inveja, que representa o que ele sente pelo detetive interpretado por Brad Pitt, e, por isso, mata sua esposa. O efeito, sobre o espectador, é tremendo.
 
Menos violenta, porém não menor, é a inveja do compositor Salieri, tal como ele foi apresentado no fabuloso filme de Milos Formam, Amadeus. Até a chegada de Mozart à corte austríaca, o então compositor oficial, Antonio Salieri considerava-se um escolhido de Deus. Produzia peças que eram admiradas por todos e elogiadas pelo rei. O jovem Mozart, porém, acaba com essa certeza. Salieri é obrigado a reconhecer que não é o escolhido de Deus, então sofre porque não entende como pode um jovem devasso, indisciplinado e não religioso possuir aquele dom divino. Sua inveja o levou a arquitetar a destruição de Mozart. Esta foi uma inveja que rendeu um Oscar ao ator que interpretou Salieri.
 
Sobre a inveja, Bertrand Russel escreveu, em A conquista da felicidade: “De todas as características que são vulgares na natureza humana a inveja é a mais desgraçada. O invejoso não só deseja provocar o infortúnio e o provoca sempre que o pode fazer impunemente, como também se torna infeliz por causa da sua inveja. Em vez de sentir prazer com o que possui, sofre com o que os outros têm”.
 
Bem, pode ser que este artigo passe despercebido. Mas também pode ser que provoque alguma marola. Na dúvida, vou coloca um galhinho de arruda atrás da orelha direita. Nunca se sabe.
 
Como interpretar sua inveja
 
O que você faz quando sente inveja de alguém? Apenas sente e sofre com isso? Ou brinca com o que está acontecendo e então toma atitudes para diminuir a distância que o separa da condição invejável?
 
Podemos falar sobre a inveja a partir de dois referenciais: o pecado ou o sentimento. Há quem a considere um mal condenável, somente expiado pela confissão e pelo arrependimento e há quem a veja como algo inerente à condição humana, portanto existente em todos nós. Ficamos, então, entre Santo Agostinho e Freud. Confissões ou A interpretação dos sonhos. O confessionário ou o divã. Quem sabe ambos.
 
De minha parte, confesso que sinto inveja, mas declaro que não me atenho a sentir, pois também me dedico a interpretar esse sentimento que, se por um lado me deixa envergonhado, por outro me mobiliza e me faz mudar. Se não, não adiantaria confessar, pois continuaria a ser um pecado. Ou é a confissão e a análise ou não é nada.
 
Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril.
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