Lições de um francês

A França é uma nação de história longa como os passes do Zidane. Os franceses influíram no pensamento e no comportamento das pessoas no mundo inteiro, em muitas áreas, agora, último reduto, também no futebol. Do guerreiro imaginário Asterix ao atacante de músculo e osso Thierry Henry, passando por Voltaire, Luiz XIV, Robespierre, Napoleão, Flaubert, Charles de Gaulle, Jean-Paul Sartre, Coco Chanel, Yves Montant. É… eles tocam bem a bola.
 
Quando o Henry, com a conivência do Roberto Carlos e de quase todo o time brasileiro, nos despachou de volta para casa naquele sábado que queremos esquecer, fiquei pensando sobre a reação que as pessoas têm quando bate o desespero, a tristeza ou a decepção, que era o caso naquela hora. Bem, concluí, podemos tentar uma bebida forte para distrair os neurônios, ou quem sabe ficar recolhido esperando a nuvem passar sozinha, ou ainda, atitude menos comum, lançar mão de algo diferente, como uma leitura que não tenha nenhum parentesco com o fato que detonou a zica.
 
Eu resolvi ler, mas, ô destino, acabei com um livro do Jean-Jacques Rousseau nas mãos. Apesar da francofobia momentânea, viajei um pouco pelas idéias desse filosofo educador, e foi ótimo, porque ele me lembrou que o ser humano aprende naturalmente, e não por imposição, mas, para isso, precisa de uma qualidade essencial ao aprendizado: a humildade. Sim, a humildade que é o antônimo da soberba, da arrogância, e não a que é contrária ao orgulho de confiar em si mesmo, de pertencer a um grupo e ser fiel a ele ou, ainda, de vestir a camisa da pátria.
 
Acho que nesse capítulo encontramos vários dos erros de nossa seleção. A soberba como subproduto da fama; a teimosia em manter um esquema que não funcionava, apostando na virada espontânea que acabou não acontecendo; a falta de noção de que o fenômeno só continua fenômeno produzindo coisas fenomenais. E, principalmente, a falta de humildade para aprender sempre.
 
Se o Parreira tivesse aprendido alguma coisa ao longo da copa do mundo, não teria cometido os erros de insistir no quadrado mágico que não funcionava, manter o Ronaldinho Gaúcho na posição em que ele não rende, confiar as alas ao Roberto Carlos e ao Cafu em vez de usar o Cicinho e o Gilberto, colocar o Robinho quando o jogo já estava, na prática, decidido, e por aí vai.
 
Durante anos falaremos da seleção de 2006, esperando que ela não se repita e que o futebol brasileiro volte a brilhar. E é bom que seja assim, pois temos que aprender com os erros que cometemos (melhor seria com os erros dos outros). E é bom também porque poderemos usar os acontecimentos desta copa para ilustrar fatos de nossa vida pessoal ou profissional.
 
Quando você estiver planejando ou reavaliando sua carreira, lembre-se desta copa do mundo, e utilize algumas lições que sempre serão úteis, independente da fase de vida em que você se encontra. Principalmente, considere que:
 
– Sonhos são necessários, mas eles precisam ser acompanhados pela estratégia. A Alemanha sonhou e se preparou. Um exemplo: o goleiro Lehmann recebia de um assistente um bilhete com a estatística dos chutes do jogador argentino que cobraria aquele pênalti. A tática do jogo foi antecedida pela estratégia do campeonato, que começou anos antes.
 
– A estratégia não é uma lei pétrea que não pode ser mudada. Ao contrário, durante sua execução, deve ser adaptada à realidade e moldada quantas vezes for necessário. O Felipão mudou várias vezes, e afastou jogadores consagrados em Portugal, como o goleiro Victor Baía e o próprio Figo, porque eles não se adaptavam às mudanças propostas. Figo voltou quando entendeu o novo comando.
 
– Talento é bom e toda empresa quer, mas ele só será valorizado se for constante, estiver em evolução e for colocado a serviço do grupo. Foi o caso do Zidane que, mesmo em vias de se aposentar, parecia um jogador iniciante lutando para conquistar uma vaga na equipe principal.
 
– Autoconfiança é uma boa qualidade, mas o sentimento de já ganhou diminui a percepção aos pequenos detalhes que acabam fazendo a grande diferença. Neste caso, o melhor exemplo é a própria seleção do Parreira, que contava com os melhores jogadores do mundo, certos de seu favoritismo. Alimentados pela imprensa mundial, transformaram seus egos em seus algozes.
 
– E, finalmente, lembre-se que o sucesso do passado não garante o sucesso do futuro, e que a única alternativa para que ele se repita, é investir muito trabalho no presente. A França aprendeu isso em 2002, quando não passou das eliminatórias, tendo sido o campeão em 98. Agora chegou a nossa vez.
 
Pois é, o esporte esta aí para cumprir sua missão que é, além de distrair, servir de exemplo, como naquela propaganda que relaciona o Wanderley Cordeiro com a persistência e o Torben Grael com a organização. No caso da seleção brasileira, o aprendizado será com a importância de continuar aprendendo, sem jamais achar que já se sabe tudo, e, portanto, se pode tudo.
 
O último paradigma da gestão é a Aprendizagem Organizacional. Na Sociedade do Conhecimento, a competitividade de uma empresa ou de um profissional é diretamente proporcional à sua capacidade de aprender continuadamente e jamais achar que é inatingível. Peter Senge alertou sobre isso em seu livro A quinta disciplina. Rousseau já tinha levantado a bola em O Emilio. E agora vem o Thierry Henry e estufa rede do Dida enquanto o Roberto Carlos amarra a chuteira. Não dá mais pra parar um instante sequer e ficar olhando para os próprios pés. O jogo está rápido demais.
 
Texto publicado sob licença da revista Você s/a, Editora Abril.
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