Mais vale um passáro na mão…

Imagine a seguinte cena: Alberto completa sua formação universitária em uma cidade de interior e consegue emprego em uma empresa local – uma fábrica de conservas de administração familiar, onde ocupa o cargo de gerente industrial. Sente-se seguro em seu emprego, mas sabe que ali seu futuro é limitado. Até que, um dia, um colega de faculdade que havia se mudado para São Paulo o convida para trabalhar em uma multinacional do setor de alimentos, que oferece a seus executivos um excelente plano de carreira, além de um bom salário inicial, benefícios e um invejável programa de educação continuada.
 
Alberto sente-se atraído principalmente pela possibilidade de continuar aprendendo e de construir uma carreira internacional. Mas nem tudo são rosas: ele precisará passar por um período de experiência. Ele se sente preparado mas receoso, pois sabe que há outros candidatos e que alguns poderão ter um perfil mais adequado ao cargo. Sua autoconfiança o estimula a tentar, mas, para fazer o estágio precisará largar o emprego atual. Se ele for e passar, tudo bem, mas se não passar ficará sem nenhum dos dois empregos, estará em uma cidade grande, desconhecida, com poucas reservas financeiras e com um mercado de trabalho incerto, em função de sua especialização profissional. O que fazer?
 
Esta história pode parecer melodramática, mas é um exemplo de situação que acontece com freqüência e que coloca as pessoas na delicada posição de trocar o certo pelo incerto. Se Alberto for e se der bem, será classificado como ousado, mas se ele se der mal, será chamado de imprudente. E sempre haverá alguém para lhe dizer que mais vale um pássaro na mão do que dois voando. Será?
 
O dilema da segurança
 
As necessidades humanas formam uma hierarquia, em que uma depende da outra. A primeira está ligada às demandas fisiológicas, como a nutrição, o sono, a eliminação de excreções, o calor corporal. A segunda necessidade é o sentimento de segurança, e é por isso que construímos casas e formamos grupos humanos em que um indivíduo se sente protegido ao mesmo tempo que protege seu semelhante. Só após resolver essas necessidades de sobrevivência física, o homem passa a se preocupar com outras, como as necessidades emocionais e intelectuais.
 
A segurança é, portanto, uma necessidade basal, a partir da qual construímos uma plataforma que sustenta nosso crescimento. Mas há nesse esquema um paradoxo, pois, para sentir-se totalmente seguro, o ser humano não poderia se expor aos perigos das aventuras, e ele precisa destas para evoluir. É uma situação em que, para se ganhar uma coisa, é necessário perder outra, e ninguém gosta de perder, especialmente o que foi conquistado a duras penas.
 
Mas o ser humano não tem só necessidades, tem também desejos. A segurança é uma necessidade imperativa, a aventura é um desejo forte. A segurança é um passarinho na mão, a aventura são os dois passarinhos voando. No fundo, no fundo, o que gostaríamos é de alcançar os dois voadores sem largar aquele que já está em nossa mão. Mas a vida não é assim, e o dilema proposto pelo ditado popular deixa isso claro. Para tentar agarrar os dois passarinhos que voam você precisará se livrar daquele que já é seu, e deve fazê-lo antes. Ou seja, por algum tempo ficará sem nenhum passarinho e, pior, com alguma chance de não conseguir capturar os dois que estão voando.
 
É o dilema do Alberto. Se ele conseguir o emprego na grande empresa, estará realizando um sonho profissional, mas se não conseguir terá que enfrentar o pesadelo do desemprego e da insegurança. Por outro lado, se não tentar, carregará pela vida o sentimento de frustração.
 
Essas encruzilhadas se repetem ao longo de nossas vidas com freqüência, ainda que em graus menores de complexidade, mas sempre gerando ansiedade. Escolhas pressupõem renúncias. Ganhos significam perdas. Um exemplo simples: escolher um sabor de sorvete significa abrir mão de pelo menos outros vinte sabores. É claro que este exemplo é insignificante, e não deixa seqüelas em nossas emoções. Mas é, em escala reduzida, o que acontece quando optamos por uma profissão, decidimos casar, escolhemos a cidade para morar e assim por diante.
 
Quase sempre, após uma decisão desse porte, experimentamos duas sensações: alívio pelo fim da indecisão e apreensão pela responsabilidade. Bate aquela insegurançazinha que dói no peito e dá vontade de pedir um colo. A cada decisão que tomamos na vida, sentimos falta daquele passarinho manso que tínhamos na mão quando éramos crianças e nossos pais resolviam tudo por nós.
 
A dualidade da aventura
 
Sim, a segurança é um conforto, e todos gostamos de conforto. Mas ele é a entressafra da aventura, e não o contrário. Nenhum sábio se refere à vida como um conforto, e sim como uma aventura. A fabulosa aventura de se viver. A vida está mais para incerta e insegura do que para dogmática e confortável. Um dos livros do guru indiano Osho chama-se Coragem, O Prazer de Viver Perigo-samente. Justamente ele, que é um símbolo da paz e da serenidade, prega o prazer de viver perigosamente? Sim, todas as pessoas que ousam pensar diferente são consideradas perigosas por muitos, especialmente aqueles que preferem o passarinho manso seguro na mão.
 
Certa vez, às pessoas que desejavam ser seus discípulos, o sábio indiano disse: “Não estou aqui para dar a vocês nenhum dogma, nem para fazer promessas para o futuro. Estou aqui para deixá-los alertas e conscientes – isto é, para ficarem aqui e agora com toda a insegurança que existe na vida, com toda a incerteza que existe na vida, com todo o perigo que existe na vida”.
 
Osho surpreendia aos que buscavam nele uma salvação para suas inseguranças. Continuou: “Sei que vocês estão aqui em busca de certezas, de alguma doutrina, de algum ‘ismo’, de alguém em quem confiar. Vocês estão aqui por causa do medo que sentem. Estão procurando uma espécie de prisão bonita, de forma que possam viver sem nenhuma consciência”. Aumentando ainda mais a surpresa dos ouvintes despreparados, continuou: “Pois eu gostaria de fazer com que vocês se sentissem ainda mais inseguros, mais incertos – porque assim é a vida. Quando há mais insegurança e mais perigo, o único jeito de reagir a isso é apelar para a consciência”.
 
E era isso que o guru buscava: aumentar a consciência das pessoas, ainda que, para isso, tivesse que chocá-las. Concluiu: “Não chame a vida de incerteza – chame de assombro. Não chame de insegurança – chame de liberdade”.
 
Há pessoas que enxergam nas oportunidades da vida assombro e liberdade, e vão em frente. Outros sentem incertezas e inseguranças, e resolvem esperar. Aliás, todos nós somos assim, dependendo da fase da vida em que estamos. Largar a segurança (um passarinho na mão) para lançar-se em uma aventura (os dois passarinhos voando) pode parecer interessante, mas depende de um fator importante: o preparo. Se você está, conscientemente, preparado, vá em frente, se não, espere um pouco mais. A aventura não forma com a segurança um dilema, e sim uma dualidade, ou seja: ambas são válidas e necessárias, mas há o momento para cada uma.
 
O sonho de liberdade
 
O filme 2 Filhos de Francisco, de Breno Silveira, conta a aventura da dupla sertaneja Zezé di Camargo e Luciano. Podemos apreciar o filme por sua estética artística ou por sua mensagem. Neste segundo caso, há que se observar três componentes: o sonho, a estratégia e o talento.
 
O sonho de um pai, humilde lavrador goiano, que imaginava seus dois filhos mais velhos como famosos cantores. Partindo do sonho, criou estratégias, como comprar-lhes instrumentos musicais, levá-los para cantar em rádios locais e entregá-los a um empresário mambembe para uma tentativa de excursão artística. O melhor momento de estratégia desse homem simples foi comprar fichas telefônicas e pedir aos amigos que telefonassem para as rádios locais pedindo a música composta por seu filho, chamando, assim, a atenção da gravadora que resolveu lançar o disco tão solicitado pelos ouvintes.
 
E é claro que nada aconteceria sem o talento, e este, como o filme mostra, é mais transpiração e menos inspiração. Sonho e estratégia sem talento não se sustentam. Sonho e talento sem estratégia não se instalam. Estratégia e talento sem sonho não são uma possibilidade real – tudo depende do sonho.
 
E assim é a vida, com suas maravilhosas possibilidades. Segurança e aventura são dois componentes do humano, duas faces da mesma moeda, dois momentos de uma mesma vida. O sonho da liberdade só se realiza quando abrimos a mão para agarrá-lo, o que nos deixa suspensos no ar por algum tempo, como um trapezista. Só que este não flutua no vazio porque é um inconseqüente, e sim porque é um especialista. Preparou-se duramente para tal aventura.
 
Um pássaro na mão só é melhor que dois voando quando não acreditamos na possibilidade de alcançá-los. Para que acreditemos temos que construir essa crença e, para tanto, precisamos sonhar, pensar em estratégias e exercitar nossos talentos. Se não, é melhor segurar bem o passarinho que já temos na mão.
 
Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril.
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