Máquina do tempo pessoal

A idéia da maquina do tempo é bastante antiga, e está ligada menos à curiosidade de conhecer o futuro, e mais ao desejo de voltar ao passado com a finalidade de modificá-lo e, com isso, interferir no presente. Quase todas as pessoas que dizem que gostariam de voltar no tempo, seria para fazer alguma coisa que não fizeram ou para não fazer algo que se arrependeram de ter feito.
 
Pois então temos uma boa notícia. Nesse sentido, a máquina do tempo já existe, é barata e acessível a todos nós: é a nossa própria consciência. A percepção saudável da realidade permite que façamos uma conexão lúcida entre as experiências presentes e o significado do passado. Alterações na experiência presente (de um indivíduo ou de uma sociedade) alteram o significado do passado. O passado não deve ser compreendido apenas em seus próprios termos, mas também ele deve ser compreendido em termos das percepções do presente.
 
À medida que amadurece, o homem vai modificando a maneira de ver o mundo, pois sua escala de valores sofre modificações naturais. O que parecia ter imensa importância aos dezessete anos, aos trinta e dois pode parecer ridículo. Obedecendo ao mesmo raciocínio, quando terminamos o colégio não temos preocupações que passamos a ter quando terminamos a faculdade. Nada mais lógico, pois a idade muda os centros de interesse e, com eles, a importância dos fatos que constroem a realidade que nos cerca.
 
Fatos vividos e não totalmente resolvidos emocionalmente costumam acumular-se em nosso inconsciente em forma de recalques, que se manifestam e interferem em nosso comportamento sem que tenhamos consciência disso, até porque eles habitam, como já foi dito, a região inconsciente da mente. É o passado interferindo no presente. São velhos valores, totalmente desatualizados, invalidados, mas presentes em forma de lembranças inconscientes. Está na hora de acionar a máquina do tempo.
 
Como assim? Ora, abrindo espaço para o exercício do autoconhecimento. A maioria dos erros que cometemos em nossa vida deriva da falta de percepção de nossos alcances e de nossos limites. Aumentar o conhecimento de nós mesmos permite o desenvolvimento de duas qualidades imprescindíveis ao bom funcionamento de nossa vida: a autoestima e a autoconfiança.
 
O inconsciente é uma parte do aparelho psíquico regido por leis próprias de funcionamento. Não dispõe, por exemplo, das noções de tempo. Não sabe o que é passado e presente. E é justamente no inconsciente que encontramos os conteúdos reprimidos, que não têm acesso ao consciente por censuras internas. Conteúdos anteriormente conscientes, quando reprimidos por força de algum fato externo, sedimentam-se no inconsciente e podem virar recalques, provocando limitações por toda a vida.
 
Como falta a noção de tempo, o passado vira presente e nos aprisiona pelos sentimentos que já deveriam ter deixado de existir, uma vez que os nossos valores, e os do mundo, mudaram. Costumamos dizer que temos que estar nos atualizando permanentemente, e levamos isso ao pé da letra, mas apenas no mundo profissional, intelectual, tecnológico. Deveríamos também atualizar nossa percepção de nós mesmos, e não apenas do mundo que nos rodeia.
 
Visitar o passado só tem essa vantagem, a de limpar os escaninhos. Chamamos esse procedimento de análise, que tanto pode ser com o auxílio de outra pessoa, um profissional de psicologia, que às vezes é indispensável, mas também com a prática da auto-análise, através da interiorização, sem medos, sem pudores e, principalmente, sem autocomiseração, ou seja, sem pena de nós mesmos. É um exercício fascinante. “Conhece-se a ti mesmo” era a frase predileta de Sócrates. Acredite, ele sabia o que dizia!
 
Texto publicado sob licença da revista Você s/a, Editora Abril.
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