Metacompetência na Educação corporativa

Não apenas na educação corporativa, mas na educação em geral, educar para a competência passou a ser um centro de preocupação permanente. Educar para a competência, o que é diferente de educar pela competência, apesar de que o “para” depende do “pela”.
 
Quando examinamos a história do Brasil, percebemos que a educação inicialmente foi confundida com catequese. A idéia jesuítica era educar para a virtude e não para a competência. Quando a educação assumiu, finalmente, caráter de massa e passou a ser responsabilidade do estado, já estávamos no século XX, e a preocupação foi a de formar mão de obra qualificada para o trabalho na industria que, como no resto do mundo, começava a surgir por aqui. Neste caso não se tratava de desenvolver competência, e sim obediência.
 
Com o advento do vestibular, os modelos escolares voltaram-se rapidamente para treinar jovens para passar por essa prova da melhor maneira possível, uma vez que ela assumiu caráter de “rito de passagem” ou “divisor das águas” na vida escolar. Passar no vestibular passou a representar ascensão social, o que justifica a preocupação dos jovens, de seus pais, e de toda a sociedade. Ligando esse fato com a questão da competência, lembramos que a competência para se sair bem no vestibular não é a mesma necessária para se sair bem na vida.
 
Até que, finalmente, na década de noventa, dentro da grande discussão mundial sobre a reforma escolar e revisão dos modelos educacionais, passamos a entender a importância da inclusão de metodologias que desenvolvam competências. Bons exemplos disso são os quatro aprenderes da UNESCO, resultantes dos estudos da comissão liderada pelo Jacques Delors e o surgimento do ENEM – Exame Nacional do Ensino Médio, cuja finalidade principal era o de influir nos vestibulares, avaliando menos o conhecimento e mais as habilidades e competências do jovem para viver no mundo contemporâneo, em uma sociedade complexa e mutante.
 
A educação corporativa é um fenômeno moderno, aparentemente distante dessa evolução lenta da educação convencional, mas muitas vezes apresenta, sim, seus vícios, o que é percebido com clareza em empresas que ainda confundem educar com treinar. Ainda que continue a ser importante, o treinamento ocupa um espaço próprio, cujo objetivo é o de desenvolver uma habilidade específica, enquanto a educação é mais ambiciosa, quer ensinar pensamento crítico. Mesmo assim, a educação corporativa é a atividade educacional mais próxima do ideal de educar para a competência, o que está de acordo com o pragmatismo da empresa, que precisa de resultados para continuar existindo.
 
Mas o tempo passa, e já estamos diante de um novo paradigma: a metacompetência. Por definição, metacompetência é o que está “além da competência” (metá, do grego, significa “o que vem depois”, “o que está além”, “o que transcende”). Metacompetência é percebida como um comportamento em que qualificações técnicas (que respondem pela competência) são potencializadas pelo capital humano dos profissionais.
 
Ser metacompetente significa ser uma pessoa com qualidades humanas bem lapidadas, exercendo uma função com competência. Essa é a mudança significativa: desviar o foco de “formar profissionais” para “formar pessoas capazes de exercer profissões”.
 
Aspectos comportamentais negativos são o principal motivo das demissões e das dificuldades da empresa em alcançar os resultados desejados. Não há planejamento estratégico perfeito que resista a um clima organizacional tenso e inamistoso. Engenheiros, administradores, técnicos, médicos, químicos, professores, jornalistas, todos com excelentes performances escolares, sucumbem profissionalmente por dificuldades de sociabilização, comunicação, empatia, comprometimento, criatividade, responsabilidade.
 
Pode a empresa, através de sua educação corporativa inferir em aspectos de personalidade de seus colaboradores? É claro que pode! A psicologia positiva, nova tendência que aproxima a psicologia clássica de modelos educacionais modernos responde por essa prática. Psicologia e pedagogia de mãos dadas. Freud e Piaget finalmente juntos! Sejamos metacompetentes, a competitividade do mundo moderno exige mais do que “simples competência”, para que possamos nos manter no jogo.
 
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