Meu esporte, meu trabalho

Assistindo aos jogos da Copa do Mundo, quem trabalha com desenvolvimento de pessoas para corporações, não resiste à tentação de comparar o esporte com o trabalho. Nos dois campos valem coisas como espírito de equipe, táticas de confronto, preparo pessoal, comunicação, superação de adversidades, motivação, ente outras qualidades humanas.
 
É comum nos círculos da psicologia organizacional (psicologia aplicada ao comportamento das pessoas em empresas) a comparação dos estilos de trabalho com o comportamento dos atletas e das modalidades desportivas.
 
Há, por exemplo, uma classificação meio genérica e simplista, mas interessante, que classifica as pessoas em quatro “tipos psicológicos”: colérico, sanguíneo, melancólico, e fleumático. O colérico costuma ser uma pessoa ativa, dinâmica, líder, o sanguíneo é muito animado, sociável e dotado de grande energia, o melancólico é identificado como uma pessoa mais tímida e estável, enquanto o fleumático é extremamente calmo, paciente e muito confiável.
 
No futebol, costuma-se dizer que o atacante ideal é colérico, o meio campo é sanguíneo, o zagueiro é melancólico e o goleiro fleumático. É claro que isso é teórico, e que na prática às vezes não acontece bem assim, mas que tem lógica, isso tem. Você consegue imaginar um goleiro agitado e irritadiço, e um centro avante calminho e paciente? Você colocaria o Denílson ou o Roberto Carlos no gol, e o Marcos ou o Dida lá na frente encarando zagueiros? Não dá, não é mesmo?
 
Na formação de equipes competitivas nas empresas é a mesma coisa. O homem de vendas é colérico, o de marketing é sanguíneo, o da produção é melancólico e o de finanças é fleumático. Se inverter, não vai dar certo.
 
Muito curiosa também é a comparação da personalidade dos esportes com a das empresas, das equipes e dos executivos. Em uma palestra recente para formandos em Administração, eu apresentei a seguinte questão: analisando a personalidade de alguns esportes, você tem mais admiração pela criatividade do futebol, pelo planejamento do golfe, pelo risco do automobilismo, pela determinação da natação ou pelo charme do pólo?
 
Ao submeter a turma a esse teste, tive duas surpresas. Primeiro porque ganhou, com 55% das preferências, a determinação, qualidade indispensável aos nadadores, que dedicam horas e horas a um treino monótono, passado a maior parte do tempo com a cabeça dentro da água, contando azulejos e braçadas. Isso me animou muito, pois tratava-se de um grupo muito jovem, e os jovens em geral são afoitos. No entanto, a maior parte do grupo foi capaz de reconhecer a importância da determinação, da persistência, da perseguição dos objetivos, que são qualidades dos verdadeiros construtores de carreiras e de empresas. Essa foi a surpresa boa.
 
Por outro lado, fiquei preocupado quando a criatividade do futebol ganhou disparado do planejamento do golfe. Criatividade superando o planejamento. Será que é certo?
 
O golfe é um esporte que você não consegue começar mal e terminar bem. Tem que colocar a bolinha em 18 buracos, e dispõe, para isso, de um determinado número de tacadas, de acordo com sua categoria. 72 tacadas e pronto. No máximo, você recebe uma margem de mais oito, para não mudar a categoria para baixo (o handicap, que representa se grau de técnica).
 
Isso significa uma média de quatro tacadas por buraco. E se eu gastei cinco logo no primeiro? Ora, a conseqüência é que algum outro você vai ter que colocar em apenas três. Portanto é melhor gastar menos tacadas logo no começo, para ficar com margem para o final, quando o grau de dificuldade é maior. Que lógica interessante, não é mesmo? Parece a da vida cotidiana, profissional, empresarial.
 
E cada buraco tem que ser analisado. Qual o taco? Madeira ou ferro? Como é que está o vento? Mudou do buraco anterior para este? Possivelmente sim, porque a mudança da topografia provoca alteração nos ventos. E a grama? Puxa, ela foi aparada desde o último jogo. E como é que foi passada a máquina? De cima para baixo, ou de baixo para cima, neste morrinho em particular? É claro que isso interessa. Afinal como é que está a pontinha de cada folha de grama?
 
O golfe não admite improvisos. Exige planejamento. Jamais vence o pior. É o melhor em treino e em planejamento que leva vantagem. Termina bem quem começa bem. Quem começa mal, termina mal, necessariamente.
 
Já o futebol é o único esporte em que pode vencer o mais fraco. Sempre é possível virar o jogo. Podemos estar perdendo, mas continuamos acreditando em um golpe de sorte de última hora. Um momento de inspiração de um artilheiro genial, que estava dormindo até os quarenta minutos do segundo tempo, e de repente enfia duas bolas, faz dois gols e vira o jogo, deixando o adversário com cara de tacho.
 
Há muito questionamento sobre a validade do planejamento ortodoxo no futebol. Sempre que se tenta ensaiar muito as jogadas, termina-se por engessar a criatividade dos jogadores. Craques de futebol têm que ser soltos, livres, imprevisíveis. Não dá pra planejar, a não ser que se combine tudo com o time adversário também. Desta vez nós ganhamos e vocês perdem, tá?
 
E não é que é assim que o brasileiro conduz também sua própria vida? Mínimo de planejamento. Muito de jogo de cintura. O Brasil tá crescendo, eu estou indo junto, e de repente chega minha vez. Tenho uma repentina inspiração, dou um chapéu em alguém, fico cara a cara com a oportunidade e não erro o lance. Faço meu gol de placa, ganho um monte de dinheiro com uma jogada, pago as dívidas, fico rico, e corro pra torcida, que me aplaude admirada e emocionada, dizendo “eu sempre acreditei em você!”.
 
Você não acha que seria interessante a junção da personalidade do golfe e do futebol? Como seriamos nós, se pudéssemos continuar com nossa criatividade, nosso improviso, nosso jogo de cintura, mas acrescentássemos a essas características, capacidade de planejamento, de lógica, de estrutura administrativa?
 
Que tal começar a pensar nisso. Jamais abandonar o futebol, o mais belo entre os esportes, mas acrescentar algo do golfe. Não nos campos. Mas na vida. No dia a dia. No trabalho. Na profissão. Exercitar cada vez mais todos os sentidos. Ouvir o passado. Sentir o presente. Olhar para o futuro. Treinar para ser melhor.
 
E, claro, vamos continuar torcendo com todo o coração por nosso sonhado penta. E não só sonhado, mas também planejado. Que o diga o Felipão (o fleumático que ás vezes é colérico).
 
Texto publicado sob licença da revista Você s/a, Editora Abril.
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