Meu lugar sagrado

Saímos de Londres no final da tarde, seguindo para o oeste, em um carro alugado. Dirigir na Inglaterra é fácil e difícil. É fácil porque as estradas são ótimas, a sinalização é competente e o trânsito é civilizado. E é difícil porque precisamos recondicionar os movimentos para dirigir do lado direito do carro e do lado esquerdo da estrada. Lá, o errado é o certo. O pior é trocar a marcha com a mão esquerda, já que praticamente não se encontram carros automáticos na terra da Rainha – acham muito americano, esse conforto.

 

A bordo, eu e meu filho, em nossa semana anual de colocar as coisas em ordem e a conversa em dia. A seu pedido, optamos por uma viagem easy ride, o que não significa viajar sem destino, e sim ir definindo o destino durante a própria viagem – explicou ele. Em cada etapa se planeja a etapa seguinte, e dessa maneira se pode ter a segurança da viagem programada e o excitante sabor da aventura. Ao anoitecer chegamos a Salisburry, uma pequena vila distante cerca de 80 milhas de Londres, onde havíamos reservado pela Internet um quarto para passar a noite no Grasmere House, um hotelzinho de duzentos anos.

 

No dia seguinte visitaríamos Stonehenge, um lugar considerado sagrado. Estávamos excitados com essa expedição, provavelmente por motivos diferentes. Para mim era a oportunidade para vivenciar o mistério que cerca esse conjunto de pedras colocadas em círculo há mais de quarenta séculos. Para o Rodrigo significava conhecer o lugar sagrado dos celtas. Os jovens gostam dos celtas e são atraídos por lugares sagrados. E de nada adiantava lembrar que Stonehenge é pelo menos dois mil anos mais antiga que a cultura celta. O que importa é a mística do local.

 

Acordamos cedo, tomamos o café-da-manhã inglês, composto por ovo frito, salsicha, bacon e feijão doce, servido por um simpático garçom húngaro, e rapidamente estávamos na estrada com destino certo: o passado. Conversávamos animados sobre história, sobre a diversidade de culturas e sobre as surpresas da vida quando, como que do nada, lá estava, bem à nossa frente, o círculo de pedras mais famoso do mundo. Stonehenge fica à margem direita de uma estrada movimentada, e não há como não vê-la, imponente, irradiando sua energia milenar.

 

Finalmente estávamos na mística Stonehenge mas, claro, estávamos também na organizada Inglaterra, portanto, era necessário encontrar o local adequado para estacionar o carro, ler as recomendações e chegar ao circuito pelo qual pode-se caminhar contornando o monumento. Primeira lição de um lugar sagrado: ele deve ser respeitado.

 

Não sei se é possível explicar a sensação de estar em um lugar como esse. Você é naturalmente levado à contemplação. Quer ficar quieto, apenas observando aquelas pedras que são testemunhas de 45 séculos. O mundo evoluiu, fez arte, ciência, guerras, descobrimentos, enquanto as pedras simplesmente ficaram em seu lugar, repousando em seu nicho, como que querendo mostrar que há, sim, valores permanentes. Pode não ser fácil descrever um lugar sagrado, mas percebe-se claramente quando se está em um.

 

Observei as pessoas ao meu redor e verifiquei comportamentos de todos os tipos. Havia os que, nitidamente, realizavam contidas orações, alguns meditando isolados, e havia os deslumbrados, os japoneses fotografando, os aposentados passando tempo, alguns hippies tardios e até um druida moderno com cartazes anunciando a chegada de uma nova era. Locais sagrados são assim, atraem tribos diversas, todas em busca de algo – que pode ser paz, quietude, cultura, curiosidade ou até, quem sabe, sentido para a vida.

 

O sentimento do sagrado deriva do próprio local ou ele deriva uso que se fez desse local?

 

Os locais considerados sagrados exercem uma influência sobre as pessoas, normalmente descrita como um sentimento de paz interior. Eu senti isso em Stonehenge, como já senti em outros locais que tive a oportunidade de conhecer. E nunca procurei –importante esclarecer – teorizar sobre a origem desse sentimento, pois isso poderia estragar a magia da experiência. Não importa o quanto aquele local tem de energia própria e quanto de programação psicológica eu estava providenciando para mim mesmo.

 

Lugares sagrados são aqueles que, de alguma forma, colocam o homem em uma dimensão diferente daquela em que ele trava sua luta diária de sobrevivência. É uma espécie de recarregador de baterias, considerando que a energia que precisamos para viver não vem apenas dos carboidratos, mas também de fontes existenciais. O Homem é o único ser que padece da lógica que o leva a questionar a razão de sua própria existência.

 

Para que estamos aqui, afinal? Seriamos meros entrepostos de gens, destinados a participar do processo de sobrevivência de nossa espécie, e pronto? Não, ninguém gosta de aceitar essa premissa de natureza tão simples. A consciência deu ao Homem duas missões: a de se diferenciar na Natureza e de justificar sua própria existência através de suas ações. Tarefa difícil, essa de ser gente. Não é nada fácil explicar para si mesmo o sentido da vida e dar conta do recado de não ser mero participante da cadeia alimentar, entre o vegetal produtor e a bactéria decompositora.

 

Por isso os locais sagrados são importantes, porque eles nos conectam com aquilo que gostamos de chamar dimensão superior, de divino, ou simplesmente de Deus.  Na verdade, todos nós já temos essa dimensão divina no peito, mas sentimos que ela precisa ser plugada, de tempos em tempos, em uma tomada de energia divina externa a nós mesmos. Algo maior que o humano, que materializamos em forma de orações, cultos, ritos e locais sagrados.

 

Os templos e outros tipos de locais sagrados são, na verdade, obras do homem, mas gostamos de atribuir à sua edificação uma ordem superior, e a seu local algum fato transcendental. Todas as religiões observam os locais de nascimento, de morte ou de pregação de seus profetas. Eles funcionam como portais para a dimensão superior que nos aguarda, e com a qual gostamos de nos conectar desde já com a finalidade de orientar nossa vida terrena.

 

Portanto, locais sagrados são bons, úteis e necessários, e mesmo quem não curte a idéia da eternidade, não consegue se livrar da necessidade de paz interior. O que vai variar imensamente entre as pessoas é a qualidade desse local. Locais sagrados são, comumente, relacionados a locais de práticas religiosas, como igrejas e templos, mas essa ligação, ainda que comum, não é determinante nem definitiva. Em outras palavras, locais religiosos são sempre sagrados, mas locais sagrados não precisam ser necessariamente religiosos.

 

Que religião se professa em Stonehenge? Ora, nem sabemos se sua primeira utilidade foi ser um local de cultos. Pode ter sido um local de cura, de estudo ou de decisões políticas. A única coisa que sabemos é que se trata de um local que foi considerado especial ao longo de muito tempo. Pesquisas arqueológicas mostram que sua primeira edificação data de 3100 anos a.C., e que teve muitas outras épocas de reforma, reconstrução e modificação.

 

E sabemos também que o nascer do sol no dia 21 de junho, o solstício de verão, cria, com a projeção de sua luz, uma avenida central no círculo de pedra. Essa observação dava ao homem a dimensão do tempo, lembrava a finitude da vida, marcava os ciclos de sua existência e o aproximava do divino. E, claro, poderia estar ligada apenas à marcação dos ciclos agrícolas. Transcendental ou pragmático, não importa, um local sagrado é sempre necessário.

 

Os locais sagrados são sempre locais de peregrinação e busca coletiva?

 

Local sagrado é aquele que nos conecta com uma dimensão maior do que a da prática cotidiana. Por isso os templos são também obras de arte, em que a arquitetura, a escultura e a pintura estão presentes, às vezes em doses espetaculares (basta entrar em uma igreja medieval), ou locais onde se pratica a música, seja o canto gregoriano ou pop evangélico moderno. A arte precisa estar presente porque ela é uma espécie de símbolo da possibilidade do Homem. O artista é o preposto de Deus tanto quanto o sacerdote. Mas, cuidado, pois há arte sagrada no cotidiano também, e só quem consegue perceber isso muda o patamar de sua vida prática. Nossos locais pessoais podem ser transformados em locais sagrados, e este foi o assunto que dominou a conversa com meu filho depois da visita a Stonehenge. Afinal – ponderamos – não é todo dia que se pode ir a um lugar como aquele para recarregar as baterias; então precisamos de outras fontes mais próximas. E elas existem, estão em nosso país, nossa cidade, em nosso bairro. Aliás, os locais sagrados são principalmente aqueles que nós mesmos construímos e neles colocamos nossa melhor parte.

 

Minha casa é um local sagrado, bem como meu trabalho, o parque onde passeio, a livraria que gosto de freqüentar, a academia onde cuido da saúde. Locais sagrados são aqueles em que trabalhamos, estudamos, produzimos, conversamos, amamos. Se esses lugares não forem sagrados, dificilmente o serão os templos e os sítios históricos.

 

Sagrada é a vida que vale a pena, que não compactua com o destrutivo, que não se contenta com o mínimo, que busca o excelente, que distribui compaixão, afeto livre, amor verdadeiro. Lugar sagrado é o próprio corpo, que merece cuidado; é a mente, que precisa do conhecimento; é a emoção, que precisa do belo. Lugar sagrado é o espaço ao nosso redor, que conquistamos com nossa própria energia, e que será tão maior quanto for nossa intensidade de viver. E Stonehenge é sagrado, sim, porque me ajudou a perceber tudo isso.

 

Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril.
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