Minha vida provisória

“Rapaz, mudança com hospedagem provisória não é mole. Sei que não preciso te dar sugestões, mas a regra deve ser a de não reclamar de nada e vibrar com a oportunidade de uma experiência que só esses acasos proporcionam. Senão vira um inferno.”
As palavras acima me foram ditas, ipsis verbis, por meu amigo Reinaldo, querendo me aconselhar, solidário, quando contei a ele o momento por que estou passando. E muito me ajudaram. Acontece que comprei um apartamento na planta e ele ficou pronto. Trata-se de uma espécie de “apartamento dos sonhos” – todo mundo tem uma imagem assim na cabeça.
Acontece que, para receber as chaves, eu tinha que pagar uma parcela de valor mais alto, que só seria possível vendendo meu apartamento velho. Tudo bem, isso já estava previsto, e foi o que fiz. Nada a se queixar.
Feitos o negócio e as devidas transferências de dinheiro, lá fomos nós, eu e a Lu, faceiros, receber a tão almejada chave. Dia histórico. Após as assinaturas (muitas) de toda a papelada, finalmente, com um sorriso simpático, a moça da incorporadora nos entregou as tão esperadas chaves.
Saímos da construtora direto para o prédio. Estava difícil segurar a ansiedade, queríamos sentir nosso novo espaço, pisar nosso novo chão. E fizemos tudo direitinho, caprichamos para entrar com o pé direito, agradecemos à vida por mais essa conquista, sonhamos com os olhos bem abertos como viveríamos lá, onde ficariam nossas coisas, em que paredes penduraríamos quais quadros, em que canto eu gostaria de me refugiar para ler e escrever. Tudo certo. Ou quase.
Não posso dizer que eu não sabia que o apartamento ainda precisaria do acabamento do proprietário. O que eu não sabia era o tamanho da empreitada. A construtora deixa para que o dono do apartamento o termine, pois há coisas que não são consideradas obra, e sim decoração. Até aí, tudo bem. Só que isso inclui o piso, o teto, a iluminação e por aí vai. Em resumo: tínhamos o apartamento dos sonhos, mas ainda não podíamos morar nele. E tínhamos prazo para entregar o outro.
Por sorte temos o João, o inspirado e competente arquiteto de interiores que virou nosso amigo. “Deixa conosco”, disse ele com firmeza, referindo-se também à sua equipe de empreiteiros, marceneiros, eletricistas, e tantos outros profissionais tão raros hoje em dia. “Em três meses está tudo pronto.” Três meses? Tudo isso? Como tenho que entregar o apartamento em um mês, isso me deixa “sem teto” por pelo menos dois. Nossa vida provisória estava começando.
“Nada grave”, pensei. “Afinal, dois ou três meses passam rápido, a gente aluga um apartamento para essa temporada. Ou um flat.” Doce ilusão. Primeiro porque quase não há imóveis para locação por períodos curtos, e os que existem são caros ou inadequados. Um flat parece uma ideia boa, mas, além de também ser muito caro, é um lugar pequeno, bom para alguns dias e, o pior, não aceitam a presença de nossas inseparáveis cachorrinhas. Assunto encerrado.
Felizmente temos amigos. Esta sim é uma verdadeira riqueza. Então meu amigo Flávio falou com seu amigo Thomas, que concordou, gentilmente, em me alugar (ele diz que não sou seu inquilino e sim seu hóspede) um apartamento de sua propriedade por um período curto. E cá estou eu, escrevendo este texto em um espaço provisório, longe de meus livros e CDs, que foram para o depósito, mas tentando, o tempo todo, lembrar-me dos conselhos do Reinaldo, o sábio: “Não se queixe e aproveite a oportunidade. Senão vira um inferno”.
O contrário do provisório
O contrário do provisório seria o permanente. O problema é que a permanência não passa de uma ilusão. “A única coisa permanente na vida é a mudança”, disse Heráclito. Tinha razão, o grego, pois a velocidade com que os elos que formam a corrente de nossa vida se sucedem é desesperadora. Até o que parece não mudar se transforma, o que significa melhorar, piorar ou simplesmente mudar.
E há um agravante: nosso cérebro não está preparado para aceitar isso, pelo menos não passivamente. Resistimos um pouco. E isso acontece porque somos dotados do famoso instinto de sobrevivência, que relaciona preservação com estabilidade. Quanto mais quietinho ficar o bicho, menor a chance de ser visto e atacado. Na selva, o movimento só tem uma motivação, a busca do alimento. Não fosse por isso, os animais seriam sedentários.
E, ainda que nossa arrogância humana relute em aceitar, carregamos alguns modelos de nossos ancestrais, o que nos aproxima de qualquer bichinho. Entre outras coisas, preferimos a estabilidade para economizar energia e levar mais tempo para sair atrás da presa. É a equação da preservação energética, uma das estratégicas mais básicas da sobrevivência.
Por isso gostamos do lugar estável, a casa, a caverna contemporânea, uma toca moderna. Mesmo aqueles que amam viagens (entre os quais me incluo) adoram ter um lugar seguro para voltar quando estiverem cansados. Não é raro ouvir de alguém que a melhor parte da viagem é a volta para casa. Eu não chego a tanto, mas concordo que é um dos momentos agradáveis de qualquer viagem.
Por isso, a vida provisória nos incomoda. E o que é provisório não é só um apartamento locado por curta temporada enquanto o novo não fica pronto. Estou falando de outras sensações pouco prazerosas, como aquela que sentíamos quando não éramos considerados crescidos o suficiente para sair à noite ou viajar com os amigos no fim de semana. “Espere crescer, você tem avida pela frente”, diziam nossos pais. Ou o estresse do trabalho insano de elaboração da tese de mestrado antes de sua qualificação. E por aí vai. A vidaé cheia de tempos que têm começo, meio e fim. Nossa vida é uma sucessão de estados provisórios. Não há o definitivo. O definitivo é o fim.
 
 
Isto vai passar
 
 
Este é um dos grandes ensinamentos que estou retirando desta temporada. Já vai passar. Mas, enquanto não passa, que tal aproveitá-la? Essa talvez seja outra grande lição. Estou morando, provisoriamente, em um bairro de São Paulo que eu não conhecia. Já tinha passado por aqui, mas nunca tive familiaridade com ele nem tinha intenção consciente de visitá-lo. Mas veja que surpresa: o bairro é pra lá de agradável. As ruas são arborizadas e seguras, as pessoas das redondezas são simpáticas, já comi em vários pequenos restaurantes que podem ser alcançados, todos, a pé, a Lu gostou do salão aqui em frente, descobri um pequeno estúdio de pilates que estou adorando frequentar, as cachorrinhas voltaram cheirosas do pet shop onde foram tomar banho.
Surpresa. A vida provisória não está sendo ruim. Está certo, o apartamento, por ser temporário, não tem, nem poderia ter, tudo do jeito a que estávamos acostumados. Além disso, quando o apartamento novo ficar finalmente pronto, como queremos, a glória será maior ainda.
Pensando em tudo isso, não pude deixar de lembrar uma passagem que li em algum livro. Era a história de um rei que vivia ansioso e insatisfeito. Um dia, um de seus conselheiros lhe deu um anel que trazia, embaixo da pedra, uma mensagem. Entretanto, a recomendação era que ela fosse lida apenas em duas circunstâncias: quando tudo parecesse perdido ou quando tudo parecesse perfeito.
Tempos depois, aquele reino entrou em guerra com outro. A situação não estava boa, a munição e os mantimentos estavam acabando e o rei percebeu que estava perdendo a guerra. Em um momento limite, ele estava escondido das tropas inimigas em um pequeno bosque e tinha certeza de que seria feito prisioneiro e, talvez, executado. Naquele instante de desespero, ele se lembrou do anel, girou a pedra e leu a mensagem: “Isto vai passar”.
Para sua surpresa, os soldados inimigos não o viram, ele se salvou. Depois conseguiu reagrupar seu exército, obteve um aliado forte, voltou à luta e recuperou o reino, ficando muito mais poderoso do que era antes. No meio da grande festa da vitória, entre danças, comidas e risadas, ele se lembrou de novo do anel. Dessa vez girou a pedra no outro sentido e leu a mensagem: “Isto também vai passar”. Afinal, permanente é o nome que o provisório usa para passar despercebido.
 
Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril. Todos os direitos reservados. Visite o site da revista: www.revistavidasimples.com.br

 

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