Nada é difícil! (É você que não sabe fazer)

Ainda hoje estão claras em minha cabeça as palavras do professor Haroldo, considerado fera em matemática no colégio Bom Jesus. E fera nos dois sentidos!
 
– Hoje vamos aprender equação de segundo grau. Prestem atenção: uma equação, na variável x, é denominada do 2º grau quando pode ser escrita ou reduzida à seguinte fórmula!
 
E, virando-se para o quadro negro, Haroldão escreveu, com a naturalidade de quem fala o próprio nome, a preciosidade: a . x2 + b . x + c = 0.
 
E então acrescentou, com certo ar de enfado: “- a, b e c são números reais quaisquer. A única restrição é que “a” tem que ser diferente de zero!”
 
A primeira sensação que eu tive, foi a de que nunca, absolutamente nunca, jamais, iria compreender, quanto mais aprender, aquele conjunto de letras, que tinham que virar números, e que tinham que fazer sentido, e ainda terminar em zero.
 
E eu que achava que equação era apenas aquela, que agora eu sabia que se chamava “de primeiro grau” . Mal eu sabia que o pior ainda estava por vir. Funções aritméticas, derivadas, funções trigonométricas, análises combinatórias, integrais triplas, calculo diferencial e integral…
 
Difícil? Claro que não! Era eu que não sabia fazer. Depois que aprendi, ficou fácil. Tão fácil que eu passei até a dar aulas particulares e defender alguns trocos.
 
Essa história é tão óbvia que parece boba (ou seria o contrário?). No entanto esse sentimento de impotência diante do desconhecido nos persegue pela vida toda. O maior gerador de medo é o imponderável. A sensação de não saber e de não conseguir fazer pode ser totalmente paralisante.
 
Observe os dois gráficos a seguir:
 
Considerando que D representa o grau de dificuldade, e H a habilidade que temos para enfrentar as dificuldades, estamos diante de duas situações parecidas, porém bastante diferentes.
 
No gráfico 1, temos uma grande desproporção entre a dificuldade e a habilidade. Eqüivale a termos que fazer um trabalho para o qual absolutamente não estamos preparados. Ou enfrentar uma prova para a qual não estudamos. Ou ainda, fazer algo que exige um tempo de que não dispomos. Ou o mais grave, termos muita conta para pagar, e pouco dinheiro.
 
Em qualquer situação, a desproporção entre D e H, irá se manifestar sempre da mesma forma: stress. As pessoas imaginam que o stress está ligado ao ambiente, como o tamanho da cidade, por exemplo. Negativo. O stress está ligado à desproporção do gráfico 1. Não importa se você mora em São Paulo ou em São Borja. No Rio de Janeiro ou no Rio das Ostras.
 
Já o gráfico 2 continua apresentando uma desproporção, porém não como no primeiro. D ainda é maior que H, mas a diferença não é tão grande. Você não sabe fazer aquilo, mas nada que você não possa aprender em, digamos, 24 horas. É difícil agora, mas estou certo que posso resolver, se tiver o tempo mínimo necessário para me preparar.
 
No dia a dia da empresa, a situação 1 é muito rara. O comum é a situação 2. No entanto, o nível de stress anda alto. Porque, se tudo pode ser resolvido, bastando para tanto o tempo e a serenidade necessários e suficientes para os ajustes? Justamente porque tempo e serenidade são dois artigos meio raros no mercado atualmente.
 
Existem duas maneiras de resolver o impasse: diminuir a dificuldade ou aumentar a habilidade. Diminuir dificuldades parece cada vez mais impossível. O mais comum é acontecer o contrário. Só nos resta aumentar as habilidades. E do que precisamos? Deixa ver se eu adivinho: tempo e serenidade!
 
Tempo é um fenômeno totalmente abstrato, por mais que tenhamos inventado o relógio para medi-lo. Tempo é relativo em sua duração e absoluto em sua finitude. Passou, acabou. Não volta mais. Disponibilidade de tempo é puramente emocional. Temos facilidade em encontrar tempo para o que nos dá prazer, e dificuldade extrema para as atividades desprazerosas. Tempo para o aprimoramento pessoal? Como assim? Nem entendi!
 
E serenidade pra que? Pra perceber que podemos aprender. Mudar. Melhorar. Crescer. Aprimorar-nos. A questão crucial está na confusão entre os gráficos. O 2 é o mais comum. Mas o sentimento mais freqüente é o gerado pelo gráfico 1. Você está no 2 e pensa que está no um. Terrível, não? Seria cômico se não fosse trágico.
 
A maioria das dificuldades podem ser enfrentadas desde que administremos o tempo e tenhamos a serenidade que o momento exige. Só que, para isso, é necessária alguma maturidade. E a loucura coletiva cuja gênese está na velocidade das mudanças do mundo globalizado em que vivemos, dificulta tudo.
 
As competências em alta no mundo corporativo estão em franco processo de mudança. Se antes era fundamental a habilidade com matemática financeira, hoje é importante a capacidade de comunicação. Contas o computador faz. Aceitar ou exercer liderança recebem cotação alta. Conhecimentos de informática e Internet não são mais nem questionados. São obrigações básicas. Perde-se o emprego, menos por carências técnicas, e mais por deficiências pessoais.
 
As mudanças comportamentais da humanidade, notadamente no ambiente profissional, podem ser absorvidas pela capacidade de superar barreiras puramente culturais, sejam elas geradas pelo tempo ou pelo espaço. É a tal conectividade. Plugalidade. Estar permanentemente plugado em seu momento. Observando a dança das ondas comportamentais. A mudança das necessidades e das competências.
 
A percepção global é uma qualidade preciosa. Todos os sentidos devem estar atentos. Até aqueles para os quais não dispomos de órgãos específicos, como a intuição. E sabe você qual o requisito básico para a intuição? Serenidade! Ou você consegue confiar na intuição de alguém nervoso?!
 
Você está enfrentando problemas? Todos estamos. Mude de gráfico. O primeiro é apenas sensação. Você está mesmo é no segundo. Não há nenhuma dificuldade que não possa ser enfrentada, desde que desenvolvamos a habilidade para tanto. E nossa capacidade de aumentar habilidade é ilimitada.
 
Nada é difícil. É você que (ainda) não sabe fazer!
 
Texto publicado sob licença da revista T&D.
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