O belo, o verdadeiro, o bom e o útil

É muito provável que você nunca tenha parado para pensar sobre a origem de seu próprio pensamento. A isso dedicam-se aquelas pessoas chamadas filósofos. Pois bem, o que justifica a filosofia, é que quando compreendemos o porque e o como de nosso pensamento, passamos a pensar melhor, de maneira mais controlada, lúcida e eficiente.
 
Quer um exemplo? Repare que todos os seus pensamentos estão relacionados com apenas quatro grandes áreas, constituídas por extremos, entre os quais vivemos: o belo e o feio, o verdadeiro e o falso, o bom e o mau, o útil e o inútil. Sem perceber, você está empenhado em perseguir o belo, o verdadeiro, o bom e o útil, ao mesmo tempo em que procura afastar-se de seus opostos.
 
O belo é representado pela arte, pela musica, pela moda, pelos cuidados com o corpo. A estética torna a vida mais agradável, mais calma e mais feliz. É tão forte em nossas vidas que está relacionado até com a perpetuação da espécie, pois a atração física começa pela percepção da beleza, e termina no ato sexual. O verdadeiro significa a busca das verdades em todas áreas. Por isso estudamos, construímos conhecimento e até estabelecemos regras que garantam a manutenção e a soberania da verdade. Punimos a falsidade com o desprezo ou com a lei.
 
O bom está relacionado com a construção da moral, da ética e da compaixão. A busca desses valores é uma das marcas registradas da espécie humana, e uma das mais controversas, pois a história mostra que o homem às vezes é mau ao tentar impor o valor do bom. Basta lembrar da inquisição ou de qualquer outro tipo de fundamentalismo religioso. E, finalmente, o útil. Esse é um valor mais moderno, e cada vez mais valorizado. Tudo o que tem um propósito prático e imediato, tende a ser valorizado, e em caso contrário, descartado.
 
Uma vida ideal seria aquela que contempla essas quatro áreas. A busca de uma delas não deveria ofender as demais, ou pelo menos atingi-las o mínimo possível. A história da humanidade costuma mudar a relação entre esses valores. Na Grécia antiga, por exemplo, a seqüência ideal era: o belo, o verdadeiro, o bom e o útil. A revolução francesa propôs uma inversão: o bom, o verdadeiro, o belo e o útil. Outras épocas tiveram seus próprios modelos. E na atualidade?
 
É claro que você já adivinhou: vivemos o império do útil, seguido do belo, do bom e deixamos o verdadeiro para o final (que o digam os balanços de certas companhias). Parece que a regra moderna é essa. Se for útil não precisa ser verdadeiro. Se for belo não precisa ser bom. É claro que não tem como dar certo desse jeito. Apenas como alerta aos governantes de nosso país, aos gerentes de nossas empresas e a nós mesmos como responsáveis por nossas próprias vidas individuais, a história mostra: o desequilibro entre essas quatro partes é o que provoca a decadência. Roma que o diga. A América que se cuide!
 
E, se você pensa que se trata de mais uma novidade, saiba que essa maneira abrangente de comandar o pensamento, controlar o comportamento e construir a vida não tem nada de novo. É a filosofia de um homem que viveu entre 429 e 347 a.C., e criou em Atenas a Academia, considerada a primeira universidade do mundo, que funcionou durante 800 anos, e foi a mais perfeita que já existiu. Esse homem chamava-se Platão.
 
Texto publicado sob licença da revista Você s/a, Editora Abril.
Todos os direitos reservados.

 
Visite o site da revista: www.vocesa.com.br