O bom e belo

Fui visitar a Casa Cor deste ano logo na abertura, pois tenho especial atração por arquitetura e decoração. Penso até que se tivesse escolhido outra carreira, seria a de arquiteto. Pena que minha sensibilidade não é acompanhada pela destreza para o desenho. Visitando aqueles belos espaços fui me dando conta de que a atenção dos designers de interiores está, sim, voltada para decoração, no sentido estético, mas também para o conforto e a funcionalidade. A visão desses profissionais é mais abrangente do que possa parecer num primeiro momento. E sua importância também.
O equilíbrio entre a forma e a função é algo que me fascina, pois esse balanceamento tem o poder de tornar a vida muito melhor, mas prática, confortável e divertida. Mas, penso eu, infelizmente é mais comum que, ou se olhe um lado ou o outro, separadamente. E isso, infelizmente, é frequente, e vale para qualquer lugar, em qualquer situação.
Estou aqui falando de arquitetura de interiores, mas este é um tema muito mais abrangente. Um cirurgião plástico, por exemplo, é procurado para resolver questões estéticas, em geral desarmonias entre partes do corpo, como um nariz muito grande para aquele rosto, ou seios muito pequenos para aquele corpo.  Entretanto, os cirurgiões plásticos são enfáticos em afirmar que eles  não se preocupam apenas com a beleza de um nariz, e sim também com sua fisiologia. O resultado de seu trabalho tem que dar harmonia ao rosto mas também tem que preservar, e até melhorar, a boa respiração. Trata-se de um conjunto. Ponto para eles.
Steve Jobs é um ótimo exemplo quando o tema é beleza e funcionalidade. Ele foi afastado pelo conselho administrativo da empresa que ele mesmo havia criado por ser considerado “sonhador demais”, e passou alguns anos fazendo outras coisas, entre elas, produzindo desenhos animados de grande sucesso, como o Toy Story. Entretanto, com a empresa fazendo água por falta de inovações, Steve foi chamado de volta. E o que ele fez? Tratou de introduzir o conceito que recuperou a empresa e mudou o mundo: o design funcional. Para ele, design não era apenas estética. Era funcionalidade. Eis a razão do sucesso de seus aparelhinhos.
Na prática, o que o visionário Steve fez, foi inverter a ordem das criações. Antes os engenheiros desenvolviam um equipamento eletrônico e o entregavam aos designers, que tratavam de colocar tal engenhoca dentro de uma “caixa” para que então virasse um produto. Sua revolução foi fazer o inverso. Os designers passaram a criar produtos belos e funcionais, e cabia aos engenheiros colocar a eletrônica em seu interior. Deu tão certo que muitas outras empresas, não apenas no campo da microeletrônica, começaram a seguir essa filosofia.
Abusando nas comparações, assim como Jobs foi um inovador nos aparelhos eletrônicos, William Shakespeare foi um inovador nas palavras. O bardo inglês tinha coisas a dizer, e queria que as pessoas o entendessem, mas também que se encantassem, que se divertissem. Que suas mensagens fossem, ao mesmo tempo, consistentes e belas, verdadeiras e agradáveis.
As 37 peças e o grande número de sonetos de Shakespeare são dedicados a interpretar a essência do ser humano, mas também são exemplos de estilo, de estética, de beleza linguística. No imenso vocabulário empregado por ele, contam-se cerca de 17 mil palavras que não eram comuns no vocabulário britânico da época e, destas, cerca de 1.700 foram de sua própria criação. Quando não encontrava a palavra certa ele simplesmente a inventava, e tais palavras hoje integram o cotidiano da língua inglesa.
Graças a essa combinação extraordinária ele conseguiu traduzir o íntimo das pessoas, com suas paixões, desejos, medos, angústias, coragens e contradições, de tal forma que seus pensamentos são com frequência citados em teses acadêmicas, abertura de capítulos de livros, prefácios, discursos.
Este articulista também abusa do estoque de frases do famoso inglês que viveu no século 17. Então aqui vai mais uma: no ato 2, cena 4 de Rei Lear, Shakespeare afirma o seguinte:
“Não argumente com a necessidade. Mesmo os mais pobres mendigos têm dentro de suas humílimas posses algo supérfluo. Proíba-se a Natureza de ter mais que a Natureza, e a vida de um homem se igualará à de um bicho”.
Então é assim. Não se argumenta com a necessidade, ela existe e pronto. Tem vida própria, aparece quando quer e só vai embora quando saciada ou substituída por outra. Necessidade não se explica. Se sente e se atende. E nossas necessidades vão além do básico. Nossa casa, por exemplo, é nosso espaço de proteção, mas não só da chuva, também da monotonia e da feiura. Não queremos uma casa só para morar, também para viver. Um lugar onde estamos seguros e onde somos felizes. Minha casa tem que ser boa, mas que também seja bela, pensamos.
O supérfluo, na visão do bardo inglês que nasceu em Stratford-upon-Avon no dia 23 de abril de 1616 e morreu no mesmo dia 52 anos depois, é uma necessidade. Sem ele não vivemos, apenas sobrevivemos. Por isso precisamos de arte, poesia, música, arquitetura, moda. “ A gente não quer só comida” disseram os Titãs. “A gente quer comida, diversão e arte”.
A questão é: já que temos que fazer tanta coisa, como trabalhar, morar, locomover-nos, estudar, comprar produtos, frequentar locais, ir a supermercados, andar pela rua, porque não fazer tudo isso com um pouco mais de estilo? Por que temos que trabalhar em lugares feios, com paredes vazias, móveis protocolares, iluminação precária? Por que somos obrigados a andar por ruas que ostentam fios aparentes, paredes pichadas e calçadas irregulares?  Uma cidade civilizada é prática, segura e bonita. E isto vale para as lojas, as empresas, as escolas e os lares.
Bem antes da Casa Cor, de Jobs, de Shakespeare, da Vida simples e de todos nós, viveu, na Grécia dos filósofos, um jovem que seguia Sócrates em suas pregações peripatéticas pela cidade de Atenas. Seu nome era Platão. Desejoso de continuar a obra de seu mestre, Platão dedicou-se a criar uma escola, que recebeu o nome de Academia, onde se ensinava filosofia, matemática e se incentivava a atividade física.
A obra de Platão é de um valor incalculável, não só pelas mensagens explícitas, mas pelo poder incrível de influenciar outros pensadores, o que tem acontecido, ainda que seja imperceptível, na construção da civilização ocidental nos últimos 26 séculos. Pois foi Platão que colocou este assunto em pauta, quando afirmou que, se olharmos de perto, o bom e o belo são a mesma coisa. Ou, pelo menos, que um tende a se transformar no outro, quando forem, definitivamente, verdadeiros.
Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril. Todos os direitos reservados. Visite o site da revista: www.revistavidasimples.com.br

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