O disciplinado e o disciplinador

Na vida de qualquer um de nós, há momentos em que a preguiça vence, o deixar para depois impera soberano e olhamos para o trabalho com enfado e desânimo, nutrindo uma esperança irracional de que o mesmo se resolva sozinho.
 
Nesses momentos, uma boa alternativa é dar um tempo e recorrer à literatura. Experimente o grande Fernando Pessoa. Sabe o que ele disse em seu poema chamado Trabalho?
 
“Não vieste à terra para perguntar
Se Deus, vida ou morte existem ou não.
 
Pega a ferramenta para trabalhar
Pondo na tarefa cada pulsação.
 
Ferramenta tens, não procures em vão –
Saúde, fé em ti, arte eficiente,
Capacidade, poder de expressão,
Coração sensível e força da mente.”
 
Em outras palavras: pare de se lamentar e inventar desculpas e procure resolver suas pendências. Você tem todas as condições necessárias, o que falta é apenas a decisão. A disciplina. Recentemente li um livro que afirma que a palavra disciplina é uma das mais impopulares do mundo. O autor brinca que no dicionário, a palavra disciplina vem depois de dentista e de diarréia.
 
Porém o conceito traduzido por essa palavra é o mais popular entre aqueles que entendem sua relação com o sucesso nas empreitadas da vida. Toda a hierarquia e toda a força do exército, por exemplo, estão baseadas na disciplina. E ter disciplina significa mandar e obedecer. Dentro do exército, o sargento manda e o soldado obedece. O capitão manda e o sargento obedece. E pronto.
 
E fora do exército? Bem, na sua vida você manda e você obedece. Se você não se habituar a mandar corretamente em você mesmo, e também a obedecer ao que foi decidido como o melhor a se fazer, aí então os outros vão começar a se meter na sua vida, querendo mandar em você.
 
Ter disciplina pessoal é apenas isso. Decidir o que deve ser feito, e fazer. E isso não pode depender da vontade daquele momento. Tem que depender da decisão que foi tomada. A vontade é emocional. A decisão é racional. E o comandante tem que ser o racional, pois ele é quem tem o discernimento sobre o que é bom e o que não é bom. O emocional só sabe diferenciar o agradável do desagradável, o que não serve como critério de decisão.
 
Devemos considerar que na vida interagem fenômenos complementares: o sentimento, o pensamento e a atitude. Os três são inseparáveis, no entanto, pode variar a ordem em que eles se apresentam. Vejamos as três possibilidades:
 
I. SENTIMENTO à PENSAMENTO à ATITUDE
 
II. PENSAMENTO à SENTIMENTO à ATITUDE
 
III. PENSAMENTO à ATITUDE à SENTIMENTO
 
No primeiro caso, você fica esperando a vontade chegar. Quando ela chega você pensa o que é que tem que fazer para atendê-la, então faz. Assim vivem as pessoas que não realizam muito na vida. Não fazem o que têm que fazer e depois dizem que não fizeram porque não estavam com vontade.
 
Dá pra fazer apenas o que se tem vontade o tempo todo? Não dá não. A não ser nas férias. O resto do tempo você tem que fazer o que tem que ser feito e pronto, caso contrário a sociedade coloca você na margem. E a questão é que a gente só tem mesmo vontade de fazer três coisas: comer, fazer sexo e descansar. É o que se chama de desejos primários. Dá pra viver assim? Seria até bom, mas não dá, não!
 
No segundo caso, você coloca o pensamento na frente, e se ele for consistente, tiver qualidade, será capaz de gerar sentimento. Esse sentimento chama-se motivação, que é o grande motor propulsor do trabalho e da realização. Por isso temos que ter qualidade de pensamento. É isso mesmo, você pode controlar os pensamentos que irão gerar sentimentos e atitudes.
 
Se você fica pensando em como determinado trabalho é chato, seu sentimento com relação a ele será sempre negativo. E você vai se recusar, inconscientemente a realizá-lo. Ao contrário, se você se concentrar no lado favorável, que sempre existe, gerará um sentimento positivo, que será colocado em prática.
 
A terceira opção é também poderosa. Pense no que é bom para você e faça. Não fique esperando a vontadinha chegar, porque talvez ela não chegue nunca. É bom para você fazer ginástica? Claro que sim. Então porque não faz? Porque está sem vontade, e fica arrumando desculpas (falta de tempo, companhia, etc.).
 
Você nunca terá realmente vontade de fazer ginástica, em função do componente animal primitivo de seu cérebro. No entanto, quando você vai para a academia, para a piscina, para a quadra ou para o parque, mesmo sem vontade de ir, o que acontece quando você chega lá e começa a se exercitar? A vontade chega, não chega? E você pensa: “puxa, como está bom aqui, e quase que eu não vim”.
 
Jamais esqueça isso: a ação pode e, muitas vezes, deve preceder a emoção. E isso vale para tudo. Fazer ginástica. Trabalhar. Estudar. Vale até para coçar a cabeça. Comece que a vontade chega.
 
A questão de ter disciplina na vida passa exatamente por esse aspecto. Pessoas disciplinadas são as que conseguem definir com clareza o que deve ser feito, e não abrem mão do decidido, sabendo que o resultado sempre será compensador.
 
A indisciplina dispersa energia. A disciplina condensa. E no mundo atual ninguém está em posição de desperdiçar energia, em hipótese alguma. Mas antes que você ache que estou sugerindo que você seja uma vaquinha de presépio e concorde com todas as ordens que receber, saiba que não é a isso que estou me referindo. Ser disciplinado significa obedecer às ordens que você mesmo se dá. Só que para isso, você tem que se dar as ordens certas, caso contrário o mundo começa a se meter na sua vida. Pense nisso. Mas não pense apenas um pouco. Pense muito. Muito mesmo.
 
Mas afinal, quem é o disciplinado e quem é o disciplinador? Podem ser duas pessoas diferentes, mas o ideal é quando há acúmulo de funções: você é os dois. Por isso tem sua vida nas mãos.
 
E lembrando Fernando Pessoa: “… coração sensível e força da mente”.
 
Texto publicado sob licença da revista Você s/a, Editora Abril.
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