O elogio ao ócio

O título deste artigo é o mesmo de um livro de Bertrand Russel. Pode parecer estranho que um homem tão estudioso e produtivo como o filósofo inglês, que nos deixou uma análise primorosa de toda a civilização ocidental, se detenha a elogiar o ócio. Mas foi o que ele fez, acredite. Ele esclarece que as pessoas sempre buscaram vivenciar o ócio, não só por conforto, mas porque graças a ele, podiam dedicar-se às artes, à filosofia, à literatura e às invenções. Em outras palavras, a humanidade evoluiu em grande parte graças à tendência humana de dedicar-se à contemplação e não ao trabalho duro.
 
Entretanto, durante muito tempo, o ócio só foi possível para alguns privilegiados, graças ao trabalho braçal de uma grande massa de trabalhadores sem direitos. Na Grécia de Platão e Aristóteles havia mais escravos que cidadãos. Na Europa feudal os nobres e o clero eram sustentados por milhões de plebeus que entregavam a estes a principal parte de sua produção. Em plena Revolução Industrial, que pertence à História relativamente recente, os operários mal ganhavam para comprar comida, enquanto os donos do capital enriqueciam.
 
Felizmente a roda da vida não pára e hoje, graças à tecnologia e a racionalização do uso do tempo todos ganhamos a oportunidade dedicar boa parte de nossa vida ao ócio. Entretanto, vale lembrar que praticar o ócio não significa deitar na rede e ficar olhando a grama crescer. Ócio é o tempo fora do trabalho, dedicado ao prazer, sendo que este pode ser tremendamente produtivo, quando é encontrado na literatura, na música, no esporte, na gastronomia, na meditação, nas relações humanas que agregam valor.
 
E mais: quando retiramos prazer real do trabalho que realizamos, podemos dizer que dedicamos nossa vida inteira ao ócio. O sociólogo Italiano Domenico de Masi ganhou fama mundial defendendo o Ócio Criativo, que vem a ser o encontro do trabalho com o aprendizado e o prazer. Segundo ele, essa será a tendência das pessoas inteligentes e das sociedades evoluídas. Antes, tínhamos um lugar para trabalhar, chamado emprego, outro para aprender, chamado escola, e ainda outro para a diversão, que podia ser o bar, ou a praia. Hoje buscamos viver em um ambiente em que essas três necessidades do homem moderno são atendidas ao mesmo tempo. Bem vindo ao futuro!
 
A preocupação com a aparência, os cuidados com a saúde, o gosto pela moda, o interesse pela arte são manifestações modernas do ócio que dignificam as pessoas que se encontram em estágios de evolução compatíveis com o terceiro milênio. Com a vantagem que hoje podemos produzir o suficiente para nos permitir praticar o ócio como nos parece melhor, sem culpa nem remorso. Aliás, se culpa houver, que seja a de não se aproveitar o que de melhor a vida oferece, como as belezas das artes, a alegria das amizades, a excitação dos esportes, as maravilhas do amor. Digo, sem medo de ser considerado irresponsável: viva o ócio produtivo, sem o qual, a vida não só é chata, é, também, pequena. Além de ser curta demais!
 
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