O equilíbrio

 
“O corpo atinge o equilíbrio quando seu centro da gravidade está ligado ao centro de gravidade da Terra através de uma linha imaginária que passa por dentro de seu polígono de sustentação.”
 
Sempre gostei de Física. Não perdia uma aula. Mais do que a própria Biologia, a Física me ajudava a entender a vida, e, com o tempo, fui percebendo que os chamados fenômenos biológicos nada mais são do que fenômenos físico-químicos. E, mais, à medida que fui me interessando pelo comportamento humano, me dei o conta que até nesse tema a Física ajuda a esclarecer algumas coisas, como, por exemplo, pela frase que abre este texto.
 
Ela quer dizer o seguinte: para você conseguir ficar em pé, seu centro de gravidade, um ponto que está aproximadamente na altura do umbigo, no centro do corpo, deve comunicar-se com o centro de nosso planeta através de uma linha que passa na área existente entre seus dois pés – o chamado polígono de sustentação. Se você inclinar o corpo e a linha sair fora desse espaço, você vai cair, meu amigo. A não ser que você volte à posição original, ou, o que é mais provável, que você avance um pé e aumente o tamanho da área.
 
Em outras palavras, sabe o que você fez, para recuperar o equilíbrio perdido? Deu um passo para frente. Ou seja, andou. Locomoveu-se. Saiu da posição em que estava. Quer dizer que andar para frente, caminhar, é um exercício sequencial de perdas e recuperações do equilíbrio. Podemos também fazer a leitura de quem quem quer estar permanentemente equilibrado, seguro, não vai sair do lugar. Simples assim. Essa é a metáfora.
 
Pense em um bebê, de bochechas bem redondas e olhos esbugalhados tentando sair da condição de quadrupedezinho que engatinha pela casa, para o estado de bípede, capaz de caminhar com os dois pés, como ele vê seus pais fazendo. Percebe o tamanho da aventura? Com as mãos e os joelhos no chão são quatro os pontos de apoio, que formam um imenso polígono de sustentação. Deixar o corpinho ereto e caminhar apenas sobre os pés equivale a sair do chão e caminhar em uma corda bamba. Mas o bebê enfrenta o desafio. Cai algumas vezes, levanta e continua na aventura. Acho que você não se lembra, caro leitor, mas você também enfrentou esse desafio, que foi apenas um entre tantos que a vida oferece, e impõe.
 
É preciso sair do lugar
 
Lembro dessa história cada vez que vejo alguém dizendo que tudo o que queria era uma vida mais equilibrada. Ok, entendo, neste caso, equilíbrio tem o sentido de tranquilidade, segurança, paz. Não há quem não queira isso, principalmente quando se sente pressionado pela vida estressante do dia a dia no trabalho, no trânsito, nos problemas do cotidiano doméstico. Eu também quero. Só que, sem enfrentar alguns “desequilíbrios” de vez em quando não se anda pra frente, em todos os sentidos da vida. Acomodação gera estagnação.
 
Estou escrevendo sobre isso porque tenho acompanhando a vida de algumas pessoas queridas que estão em um momento de suas vidas em que precisarão dar um passo pra frente. Perceberam que não há a menor chance de permanecerem como estão, pois o mundo já se mexeu, nada é como era antes, e é preciso acompanhar essa dinâmica. A vida cobra movimento.
 
“Estou ciente que para conseguir coisas diferentes não vou poder continuar fazendo o que fiz até agora”, comentou comigo uma dessas pessoas. “Mas como é difícil…”, concluiu, com um certo ar de desolação. Verdade, não é fácil fazer mudanças.
 
E o que mais espanta é que aquilo que sempre fizemos foi bom durante muito tempo, e agora parece que não serve mais. E isso se aplica para todas as áreas, sendo que no trabalho é mais evidente. Os médicos de atualmente atendem a pacientes que chegam ao consultório super informados, já com suposições de diagnóstico. Os professores lidam com alunos que questionam as teorias apresentadas, porque já navegaram na Internet ou, simplesmente, porque não vêm sentido naquilo. Donos de restaurante já aprenderam que não podem mais apenas servir refeições, e sim proporcionar experiências. E por aí vai. A lista de mudanças comportamentais e novas competências só faz crescer.
 
Já foi a época em que a pessoa concluía seus estudos, se posicionava profissionalmente e daí pra frente era só trabalhar. Pouca coisa mudaria em seu trabalho e no mundo ao seu redor. Havia estabilidade, constância. Equilíbrio. Não é mais assim, e o equilíbrio possível não passa de uma ilusão. Até nas relações humanas que, para continuarem a ser boas como antes é preciso que se renovem sempre, com direito a surpresinhas, quebras de rotina, aventuras conjuntas. Interessante. Então, para ser o que sempre foi é preciso fazer diferente. Louco, não?
 
Uma expressão moderna é a tal “zona de conforto” que, nas empresas, principalmente, se tenta combater como uma praga contagiosa. Faz sentido, pois para inovar, ser criativo, abrir novas possibilidade é necessário fazer diferente, o que equivale a sair da tal zona. O problema é que todos temos uma forte inclinação para o conforto. Quem não gosta, não é mesmo? Essa expressão sempre me lembra minha poltrona preferida, com um bom livro nas mãos e um copo de refresco alcançado com um pequeno movimento do braço.
 
Mas não é a isso que a “zona de conforto” refere, e sim ao ato de acomodar-se e fazer coisas apenas dentro do conjunto de hábitos, o que é muito mais fácil, confortável. Só que veja bem, os hábitos e as rotinas não são ruins, ao contrário, na medida que aumentam a eficiência, o que significa fazer o mesmo, ou quem sabe mais, gastando menos energia. O único problema do hábito é que ele é inimigo da novidade, e, sem esta, não tem avanço, e surge a estagnação. É preciso encontrar a média, criar hábitos produtivos mas abrir espaço para o diferente, para a ousadia saudável, aquela que surpreende, às vezes erra, claudica, tropeça, cai de joelhos, mas que tem o poder de criar o novo.
 
A tendência à desordem
 
Outro princípio de que gosto muito, e que também faz parte do repertório da Física, é a Entropia. Em grego, significa transformação, mas foi aplicada pela primeira vez pelo físico alemão Rudolf Clausius em 1850, para explicar algo que acabou sendo chamado de a Segunda Lei da Termodinâmica. O que essa lei diz é que dois sistemas físicos colocados em contato tendem a equilibrar suas temperaturas. Lembre de como a colher esquenta quando esquecida dentro da panela em que você está preparando o molho para o macarrão.
 
O que é mais interessante é que a Entropia explica que tudo no Universo tende naturalmente à desordem. Isso mesmo, desordem. Em Física, isso significa que as partículas da matéria tendem a ocupar todos os espaços disponíveis, e, à medida que isso acontece diluem a energia que contém. Como consequência haverá menos energia disponível para que algum trabalho seja realizado. De acordo com a Entropia, o Universo está se expandindo, e, no final, tudo vai ficar tão espalhado que nada mais existirá. Esse seria o nosso destino. Mas não se preocupe, caro leitor, pois nem a matemática ainda é capaz de pronunciar o número de anos em que isso acontecerá. Temos tempo.
 
O legal, no entendimento da Entropia, é que quando deixamos de colocar energia, a tendência é a desordem, o caos. Em outras palavras, não dá para parar de gerar algum movimento. Quem fica parado assiste à desorganização de seus sistemas. Preste atenção a coisas simples. Se você parar de arrumar seu quarto, colocando as coisas em ordem, organizando o armário, juntando as roupas, tirando o pó, com o tempo ele vai ficar inabitável, mesmo que você não seja um bagunceiro típico. É que o simples uso de seus pertences provoca a desordem, que é preciso arrumar depois, colocando certa energia nisso. Manter a ordem dá trabalho, não é mesmo?
 
Pois o mesmo vale para tudo na vida. Quem para de investir no casamento, na carreira, na saúde, tende à desordem em todas essas áreas. Então é assim: quem busca o equilíbrio confortável e permanente, acaba por assistir ao movimento natural dos fatos e das coisas, e vê o caos se instalar à sua volta. Não tem jeito, é necessário mexer-se um pouco, sair do lugar, combater o medo e a indolência, que são nossos companheiros ancestrais, e que tinham a finalidade de nos proteger dos perigos e da falta de alimento. Só que o tempo passou, e é preciso continuar andando pra frente.
 
Nosso colunista Eugenio Mussak conta que cada texto que escreve provoca um desequilíbrio temporário em seus pensamentos. 

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