O erro de Cristiano

Digamos que você esteja indo participar de uma seleção para um emprego, e a parte mais importante da seleção é a entrevista que será conduzida por seu provável futuro chefe. Você é uma pessoa bem formada, com um currículo escolar irretocável e acaba de terminar seu MBA numa escola respeitável. Tudo parece conspirar a seu favor, inclusive o fato de você já ter sido pré-selecionado.
 
Mas nada disso faz você ficar calmo. As pessoas experientes com que você conversou, os artigos que você leu nas revistas especializadas, e os conselhos que você ainda lembra de seus professores apontam todos para a mesma questão: a entrevista é a parte mais importante do processo seletivo, porque é quando são avaliadas as qualidades humanas do candidato, e, atualmente, essas qualidades são mais valorizadas do que as técnicas. A idéia é que a empresa pode completar a capacitação técnica, enquanto as qualidades humanas, como a personalidade e o caráter, devem vir prontas.
 
Então você se põe a fazer uma lista das características pessoais que a empresa provavelmente vai valorizar, e pensa em treinar a maneira de demonstrar que você as possui. Entre as principais você coloca:
 
1. Demonstrar segurança nas respostas, pois a empresa deseja pessoas que sejam seguras e confiantes ao tratar com situações novas e desconhecidas;
 
2. Olhar o entrevistador nos olhos, pois quem olha para todos os lados aparenta nervosismo e medo;
 
3. Deixar claro que você é uma pessoa ambiciosa, mas que considera que os desejos da empresa são a prioridade e que o trabalho da equipe deve ser respeitado;
 
4. Esclarecer que você é capaz de assumir responsabilidades e que é um empreendedor nato, interessado em propor novas alternativas para o sucesso da empresa;
 
5. Ser sociável, interessado, claro e objetivo nas respostas, demonstrando capacidade de estabelecer relações, conviver com grupos e com situações de conflito;
 
6. E, acima de tudo, ser você mesmo e não tentar se fazer passar por uma pessoa perfeita, pois o entrevistador é capaz de perceber se você está tentando ser quem não é de verdade.
 
Mas, espere um pouco. Isso quer dizer que eu tenho que ser tudo isso, e não apenas tentar ser? Mas como posso eu estar pronto, com todas as qualidades que a empresa deseja de mim antes mesmo de começar a trabalhar e entender com mais clareza os desejos impostos pela cultura organizacional?
 
Essa é um pergunta espetacular, e que não ter resposta adequada. Afinal, eu tenho que ser o que sou, ou ser o que a empresa quer que eu seja? Será que eu só terei sucesso se houver uma feliz coincidência entre o que eu sou e o que os outros querem que eu seja? Afinal, o que vale mais: minha personalidade ou minha capacidade de adaptação? Quem é que se dá melhor hoje na selva corporativa: o personalíssimo crocodilo ou o adaptabilíssimo camaleão?
 
Neste momento eu me lembro de três personagens de uma peça de teatro francês ambientado no século XVII (*): Roxana, Cristiano e Cyrano. Roxana era uma mulher belíssima, a mais cobiçada do lugar. Cristiano era um rapagão sarado, bonito e desejado pelas mulheres. Só tinha um problema: quando abria a boca não saía nada. Cyrano, por sua vez, era exatamente o contrário: um poeta nato, dotado de um humor agradável e de uma grande cultura, que encantava a todas as pessoas, mas ostentava no rosto um nariz maior que sua cultura, o que transformava sua figura em algo meio grotesco meio cômico.
 
Ambos estavam apaixonados por Roxana, e Cyrano, em um gesto de altruísmo, e acreditando que era mais fácil corrigir a burrice do Cristiano do que sua própria feiúra resolveu ajudar o amigo. Escrevia as falas que Cristiano teria que dizer para conquistar a bela. Em algumas situações colocava-se na sombra de alguma árvore, declamando poemas enquanto o amigo apenas gesticulava em baixo da janela da desejada moçoila.
 
O fim dessa história é bem conhecido. Ë claro que Roxana não se deixou enganar por muito tempo. Acabou descobrindo que o autor de tão belas frases não era o guapo Cristiano, mas sim o feio e narigudo Cyrano, que, surpreso, acabou percebendo que tinha, sim, alguma chance com a amada, pois ela estava interessada mais por sensibilidade e sinceridade do que por estampa e superficialidade.
 
O erro de Cristiano não foi, absolutamente, ter aceitado a ajuda do amigo. Seu erro foi não ter aprendido com ele a ser melhor. Tentou ser o que não era, e não melhorar o que sempre foi. Ninguém precisa nascer poeta, bem como ninguém nasce empreendedor, comunicativo, responsável, líder, flexível, colaborativo, ambicioso. Ou quem sabe todos nós já nascemos com essas características, tão desejadas no mercado de trabalho, e que se encontram ocultas e latentes, precisando apenas da percepção de sua existência e de algum esforço para desenvolvê-las.
 
Se você é o Cristiano, e a empresa sua Roxana, não tente ser igual aos seus ídolos, aos seus professores ou aos articulistas da revistas especializadas. Seja você mesmo, sim, mas deixe claro para você e para seu entrevistador que você está aprendendo sempre, e não apenas repetindo ladainhas pré-escritas. Lembre de Cyrano, que acabou se dando bem, mesmo com sua imperfeição. E que imperfeição!
 
(*) A referência é relativa à obra “Cyrano de Bergerac” de Edmond Rostand.
 
Texto publicado sob licença da revista Você s/a, Editora Abril.
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