O Eterno retorno

UM PASSADO PELA FRENTE – A FORÇA DOS HÁBITOS
 
No centro de Boston, precisamente na área de Back Bay, um bairro tradicional que preserva o urbanismo projetado no século 19, um prédio futurista se destaca pela altura e pelo design, com sua fachada totalmente espelhada. Trata-se do John Hancock Tower, imponente em seus 60 andares e 241 metros. Como todas as edificações modernas construídas em uma região histórica, o Hancock, como é chamado carinhosamente pelos bostonians, foi protagonista de uma polêmica acalorada. Havia os que o apoiavam em nome da modernização da cidade, e os que o combatiam, defendendo a tradição da área, representada principalmente por sua vistosa arquitetura vitoriana.
 
A solução encontrada pelo arquiteto Henry Cobb, para contentar a todos, foi conceber um prédio invisível, que não ofendesse o bairro classudo da cidade mais importante da Nova Inglaterra. Mais do que isso, o prédio iria ressaltar a arquitetura local, pois esta seria refletida, portanto replicada. O efeito obtido é impressionante, e tem o mérito de agradar apoiadores e opositores, acalmando os ânimos destes tão combativos americanos do nordeste. Só como lembrança, foi por aqui que começou o movimento da independência americana no final do século 18. De quebra, o Hancock oferece, a quem nele entra, uma experiência surreal. Como os prédios do outro lado das quatro ruas (ele ocupa um quarteirão inteiro) estão nitidamente refletidos em sua superfície espelhada, têm-se a impressão de estar entrando em dois lugares ao mesmo tempo.
 
Você pode escolher a face e viajar no tempo. Pode entrar no Stephen Brown Building, construído em 1922, ou no Hotel Copley Plaza, de 1912 , ou, quem sabe na Trinity Church, que ficou pronta em 1877. Cruzar as portas desse prédio é entrar, ao mesmo tempo, no futuro e no passado. É claro que se trata apenas de um efeito visual interessante, uma curiosidade arquitetônica. Mas, quando o conheci, não pude evitar um pensamento, digamos, psicanalítico: não importa o que façamos, parece que estamos sempre visitando nosso passado. Quer conhecer seu futuro sem consultar uma pitonisa? Simples, reveja sua vida pregressa e observe quantos fatos se repetiram em sua historia, resultados dos modelos recorrentes de comportamento. E existe uma imensa possibilidade que eles venham a se repetir novamente, pois são consequência de um modelo mental consolidado e cristalizado pelo tempo. Sim, no futuro faremos coisas iguais às que já fizemos no passado.
 
Estamos todos entrando, permanentemente, em nosso Hancock particular. Modelos se repetem Ninguém está imune a repetir modelos. Um bom exemplo é meu amigo Saulo. Certa vez, no espaço sagrado de uma mesa de bar, queixou-se de não ter sorte com as mulheres. Logo o Saulo, sempre visto com beldades estonteantes.  “Todas elas acabam fazendo a mesma coisa” – argumentou – “No final são possessivas, egoístas e se queixam que eu não lhes dou atenção suficiente”. Que injustiça… pobre rapaz. Nem preciso dizer que o resto da noite foi uma sessão de terapia, uma verdadeira catarse em que ele expurgou as mágoas sobre o sexo oposto e se posicionou com vítima eterna das impiedosas mulheres.
 
Felizmente ele conservou a lucidez suficiente – apesar das cervejas – para ouvir e raciocinar. O argumento que eu e os outros amigos usamos foi simples: uma vez que a reação de todas as mulheres com quem ele se relacionou, no final era o mesmo, será que não se tratava apenas do mesmo tipo de resposta a uma atitude repetitiva que ele tinha ou deixava de ter? Comportamento repetitivos costumam gerar reações equivalentes das pessoas afetadas por eles. Não é possível obter resultados diferentes fazendo a mesma coisa, isto está claro. E o padrão de comportamento depende, sim, do padrão de pensamento. Eu outras palavras, eu me comporto como me comporto porque penso como penso. E se eu não mudar este padrão continuarei a ter a mesma reação por parte das pessoas. O problema é que esse pensamento a que me refiro não apenas aquele conjunto de ideias, dúvidas e convicções que temos e sabemos que temos. O pensamento total é muito maior do que isso, pois inclui o inconsciente, o lado oculto de nossa mente, o bastidor do teatro. É aí que está a sala de comando.
 
O conjunto de imagens, experiências, crenças, medos e tantos outros componentes mentais formam o que se convencionou simplificar na expressão “modelo mental”, que é próprio de cada um. Sim, a imagem que fazemos do mundo ao nosso redor, incluindo todos os acontecimentos e as pessoas com quem interagimos é uma exclusividade de cada um de nós. Ninguém vê ou entende o mundo como eu ou como você. A realidade, para mim, é como eu a concebo. É a isto que chamamos de modelo mental, uma abstração pessoal da realidade. Pessoal e intransferível. Além de me dar uma visão do mundo, esse modelo consolidado em minha cabeça define meus padrões comportamentais. Todos temos crenças e hábitos que estruturam nosso comportamento e que insistem em permanecer por muito tempo, ainda que, às vezes, tenhamos uma vontade racional de modifica-los.
 
Racional, mas não internalizada o suficiente para provocar o shift necessário. Por isso meu amigo Saulo sofria com as mulheres, e tinha certeza absoluta que continuaria sofrendo pela eternidade. “Nenhuma presta” – resmungava. Ele simplesmente não conseguia realizar que o comportamento delas era uma resposta a seu próprio comportamento e, por extensão, ao seu modelo mental. Não sei como anda sua vida afetiva, faz tempo que não o vejo, mas se esta melhorou, foi porque ele mudou, não tenho dúvidas quanto a isso. Acho difícil que ele tenha conseguido engrenar uma relação saudável faltando aos encontros, desaparecendo por dias, não se interessando pela vida da pretensa namorada. Sendo, afinal, a antítese perfeita do homem romântico. Fora do desenho animado, um ogro desses não encontra sequer uma ogra para chamar de sua.
 
Amor ao destino Nietzsche foi um homem de saúde frágil, por isso procurava morar em regiões de clima ameno, onde podia passear, pensar e escrever. E foi, provavelmente, em uma caminhada na região de Sils Maria, perto de St. Moritz, na Suíça, observando as camadas repetitivas em uma formação rochosa que ele teve a inspiração para elaborar o conceito do Eterno Retorno, uma de suas ideias mais complexas e mal compreendidas até hoje. O alemão pergunta, com sua costumeira acidez, o que você sentiria se de repente fosse visitado por um demônio que lhe dissesse que tudo o que você fez nesta vida, todas as conquistas e derrotas, sofrimentos e prazeres, comportamentos cotidianos e atos esporádicos, tudo, absolutamente tudo, seria repetido, e repetido de novo, indefinidamente. E você estaria condenado a viver para sempre a vida que escolheu viver. Qual seria seu sentimento diante desse destino? O que ele queria dizer era que você tem que assumir a responsabilidade por sua vida como se ela fosse se repetir indefinidamente.
 
Ele não concordava com o conceito platônico de que existe um mundo ideal chamado mundo das ideias, onde podemos nos refugiar, e sim só o mundo real, em que vivemos. Nem aceitava o dogma da vida eterna defendida pela igreja, que coloca esta vida apenas como uma passagem rápida. “Só temos esta vida para viver”, dizia ele.  “e não temos tempo para o arrependimento”. A ideia de viver a vida como se ela fosse ser repetida indefinidamente aumenta nossa responsabilidade por aquilo que aqui fazemos. Não podemos nos arrepender, não temos esse direito, e, para tanto, temos que cuidar com o que fazemos. Só há um jeito de termos amor por nosso destino – amor fati nietzschiano – e esse jeito é viver nossa vida com intensidade e responsabilidade. Comporte-se como se seus atos fossem virar lei universais e serem repetidos por todas as pessoas. Esta é a síntese do imperativo categórico de Kant, e é o princípio do comportamento ético que se deseja para os membros de uma sociedade. Adaptando essa ideia fantástica do outro alemão para o nível pessoal, poderíamos dizer: comporte-se como se seu comportamento fosse ser repetido indefinidas vezes. Se me der conta de que o que faço hoje é exatamente o que farei amanhã tratarei cuidar mais de minhas atitudes. Pode não parecer, mas é exatamente isso que acontece. Nossa forte tendência para repetir modelos deveria ser uma força suficiente para nos levar a uma reflexão lúcida sobre o que fazemos, pois um ato repetido vira um hábito, e o hábito vira destino. E quem pretende amar seu destino não pode não cuidar dele.
 
Criamos padrões e os repetimos, nos acostumamos a eles. E não só nós, também aqueles com quem convivemos. As pessoas entendem como funcionamos a passam a lidar conosco considerando nossos padrões. Assim, a mulher que sabe que o marido fica mais cordato quando está relaxado propõe a compra do sofá novo depois de uma sessão de massagem. O adolescente que está acostumado a ver a mãe nervosa na hora do almoço entrega o boletim com notas vermelhas só no final da tarde. Isso sem falar nos comportamentos de consumo observados pelas empresas. O jornalista investigativo Charles Duhigg explora bem esse tema em seu livro The Power of Habit: Why We Do What We Do in Life and Business  (O poder dos hábitos: porque fazemos o que fazemos na vida e nos negócios), e alerta para o fato de que estamos sendo observados permanentemente por tecnologias derivadas de várias ciências, como a psicologia social, a antropologia e até a neurociência, com a finalidade de nos tornarmos clientes fiéis a produtos e marcas. Ou seja, a continuarmos sendo o que sempre fomos. A sermos no futuro o que temos sido até agora.
O comportamento define a tendência, a tendência reforça o comportamento. Sim, repetimos padrões. Cerca da metade do que fazemos no dia a dia deriva de nossos hábitos e não de intenções deliberadas. Até aqui tudo bem, pois os hábitos economizam energia e nos liberam para outras tarefas. OK, mas, porque, afinal, repetimos comportamentos destrutivos, que nos causam mal, prejudicam nossa saúde e nossas relações? Essa é a grande pergunta. A porta do Hancock está sempre aberta, e não há nada de mal em atravessa-la, desde que a repetição do que fazemos nos faça felizes. O que não dá é voltar sempre para aquele passado que só nos fez sofrer.
 
Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril. Todos os direitos reservados. Visite o site da revista: www.revistavidasimples.com.br