O executivo que não acredita na empresa

Nesta época de grande competitividade, o assunto “competência” tem sido um dos temas mais presentes nos palcos corporativos. Resultados, capacitação e remuneração são alguns dos capítulos da administração de empresas que têm utilizado os conceitos de competência cada vez mais. Precisamos de competência para atingir os resultados propostos e esperados. Investimos em educação corporativa através de programas totalmente voltados para o desenvolvimento de competências. Remuneração por competências, bem ou mal, certo ou errado, integra o cardápio do RH moderno. Competência virou vocábulo obrigatório.
 
Vários conceitos e equações nos explicam à exaustão o que é competência e como atingi-la, mas é comum que se cometa um delito elementar: o erro de focar a competência apenas no profissional, esquecendo da participação da organização no processo de competir. A competência individual só será útil se for acomodada no ambiente oferecido pela empresa. Nenhuma competência pessoal sobrevive à falta de estrutura, à cultura organizacional pouco clara e ao clima ruim.
 
E é nesse capítulo que entra uma questão das mais relevantes: a de compartilhar crenças. Acreditar é o primeiro passo para realizar. Nesse sentido, a crença é pré-requisito da competência. Desejar que um colaborador execute adequadamente suas tarefas, e que seja criativo e empreendedor, começa pelo comprometimento do mesmo, o que, por sua vez deriva da admiração, do respeito e da confiança, e isso significa acreditar na empresa, em seus projetos e em seus valores.
 
Este artigo procura relacionar competência com comprometimento com a empresa, e vai abusar, despudoradamente, da imagem criada pelo escritor baiano João Ubaldo Ribeiro em seu conto que tem o título curioso de “O santo que não acreditava em Deus”, recentemente adaptado para o cinema por Cacá Diegues, com o nome “Deus é brasileiro”. Trata-se de uma estória surrealista, em que Deus é apresentado como um CEO que se encontra cansado, precisando de férias. Para tanto, precisa deixar um santo (um executivo) em seu lugar, tomando conta do mundo.
 
Como tinha conhecimento das obras de um tal Quinca das Mulas, e sabedor de sua vida santificada (competente), resolveu fazer contato com o mesmo em forma humana. O diálogo travado entre os dois é hilário, pois ao se apresentar em sua verdadeira identidade, o todo poderoso acabou recebendo a informação de que Quinca simplesmente não acreditava em Deus. E continuou não acreditando, mesmo após alguns “milagres de exibição” executados pelo criador.
 
Quinca era competente como santo, mas se recusava a colocar sua competência a serviço de Deus, por não acreditar em sua existência. Sua competência devia-se à suas convicções humanitárias e não divinas.
 
Nas organizações, o executivo pode ser competente por convicções profissionais de caráter pessoal, mas se não aliar estas às convicções derivadas dos valores da empresa não estará potencializando sua competência. O executivo que não acredita na empresa tem duas alternativas: ou passa a acreditar nela ou muda de empresa. E é possível, sim, passar a acreditar após um exercício de aumento de percepção sobre a cultura empresarial e sobre o valor e a importância de sua missão. Às vezes o que falta é informação. Cultura empresarial não é um conjunto de frases de efeito em quadrinhos que enfeitam as paredes dos gabinetes das gerências. É um valor intangível que tem que estar na mente e no coração de todos os colaboradores, de todos os níveis.
 
Os competentes gostam de saber a que causa estão servindo. A desinformação gera descrença, que se transforma em acomodação, e a competência pessoal é desperdiçada. Fala-se muito da importância da pessoa acreditar nela mesma, colocando aí seus objetivos e seus potenciais, e é igualmente importante a crença na causa e nos potenciais da empresa em que trabalhamos. O executivo que não acredita na empresa não consegue ser competente de verdade.
 
No conto do João Ubaldo, Deus desiste de usar Quinca em seus projetos. Isso não diminuiu a capacidade de produzir do candidato a santo, mas ele perdeu a oportunidade da promoção. E isso tudo por não acreditar na empresa…
 
Texto publicado sob licença da revista Você s/a, Editora Abril.
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