O Maestro e o Tubarão

Certo dia, um amigo me disse: “Preciso de um favor. Você tem que me emprestar tua casa”. Favores são comuns entre amigos, mas aquele pedido era inesperado. Eu já havia emprestado dinheiro, carro, livros e até roupas, mas nunca ninguém havia me pedido emprestada a casa em que eu morava. Mas, como dizem, para tudo tem uma primeira vez. Nos anos 1980, eu morava em uma casa sem luxos, mas muito espaçosa e confortável, em um bairro aprazível de Curitiba. Seus ambientes eram amplos e tinha uma boa área de lazer, onde as crianças podiam brincar, mas em que os adultos também gostavam de estar. No centro, uma lareira que aquecia praticamente todo o lugar no inverno rigoroso da capital do Paraná. Na época, meus amigos Paulo e Fernando eram sócios em uma empresa de eventos e shows, e haviam conseguido uma proeza e tanto: trazer o grande maestro argentino Astor Piazzolla para uma apresentação única no Teatro Guaíra. A Curitiba daqueles anos já tinha ares de metrópole, mas ainda se comportava de maneira provin ciana. A vida cultural procurava se fi rmar através de iniciativas isoladas no Teatro Paiol, no Teatro da Classe e no Guairinha, que é o nome carinhoso que os curitibanos dão ao auditório Salvador de Ferrante, um dos três que compõem o complexo do Teatro Guaíra. Com seus 496 lugares, foi inaugurado em 1954, duas décadas antes da conclusão da imponente obra. O auditório maior – o Guairão – tinha sido aberto ao público recentemente e os grandes espetáculos ainda aconteciam de modo esporádico. Trazer Piazzolla havia sido um ato de ousadia e uma grande conquista para os dois jovens empreendedores. Os 2167 ingressos foram vendidos rapidamente e não faltaram patrocínios para viabilizar a vinda do grande músico argentino que havia reinventado o tango. Piazzolla e sua pequena orquestra eram pessoas simples, sem as grandes exigências comuns às estrelas dessa grandeza. Apenas um pedido desconcertou os promotores curitibanos: após o show, Piazzola queria jantar na casa de uma família da cidade, e não em um restaurante, por mais recomendado que fosse.

E esse era o favor que meus amigos me pediram. Que eu cedesse minha casa para que um jantar fosse servido a um dos maiores expoentes da história da música argentina, latino-americana e mundial. Eles contratariam um buffet, levariam garçons, convidariam algumas pessoas entre os intelectuais curitibanos e assim atenderiam ao pedido do maestro. A mim só caberia comparecer, como convidado, à minha própria casa. Concordei com o pedido. É claro que fui ao espetáculo, onde quase chorei ouvindo o bandoneón de Piazzolla derramar os acordes de suas composições do chamado Nuevo Tango, o estilo que havia elevado a música portenha, nascida nos cabarés de Buenos Aires, cheia de drama, paixão, sensualidade e agressividade, à condição da música clássica, grave e sofi sticada. Como passei parte da infância na Argentina, aqueles acordes pareciam familiares e saudosos. Quando cheguei em casa tive que apresentar documento ao segurança, que verifi cou se meu nome estava na lista. Nunca pensei que passaria por tal situação bizarra, mas não

me importei. Logo depois chegaria Piazzolla. Afável, simples, com seu indefectível bigode, parecia menos estrela que os membros de sua trupe. Simpático e atencioso, queria conhecer os donos da casa, interessou-se pelos quadros e pelos livros, afagou o Kanak, nosso cocker spaniel, que retribuiu com uma lambida. Quando viu que havia uma mesa de sinuca foi logo querendo jogar.  O cardápio incluía vinho branco, e esse foi seu único descontentamento. Não haveria, por acaso, uma garrafa de vinho tinto? Claro que sim, maestro, a melhor que eu tiver… E foi nessa ocasião, com uma taça de Bordeaux intocado nas mãos, que eu tive a oportunidade de conversar a sós com Piazzolla. — Maestro, adorei sua apresentação. Uma das melhores noites musicais de minha vida. Mas fiquei intrigado com uma música em especial — comentei, meio tímido. — E qual seria? — pergun tou Piaz zolla, levantando os olhos. — Acho que se chama Escualo. Ele então sorriu. Seu rosto se iluminou de forma que me fez perceber que eu havia me referido a algo  importante. Escualo não tem o rigor clássico de Libertango, a música que melhor representa a mudança de status do tango, nem o lirismo triste de Adios Nonino, composto para homenagear o pai do autor, recém-falecido, e que Piazzolla considera sua melhor obra, a ponto de afirmar que, quando a compunha estava acompanhado por anjos. Escualo é uma música grave, um pouco angustiante, que transmite a sensação, proposital, de que há um perigo iminente. Escualo, em espanhol, significa tubarão. Foi quando descobri que Piazzolla, o grande maestro de reconhecimento mundial, um homem afável, de aparência comum, era aficionado por um esporte para poucos: ele gostava de caçar tubarões. Em suas viagens pelo mundo costumava alugar barcos especiais, contratar tripulações especializadas e arriscar-se mar adentro em busca do tal terror dos mares. Depois da luta entre o homem e o grande peixe, este, vencido, era devolvido à água. Quando lhe perguntei por que fazia isso, sua resposta foi profunda como o mar: “Um homem tem que enfrentar seus tubarões”. Ninguém precisa caçar tubarões, como Piazzolla. Mas não era disso que ele falava. Os tubarões a que ele se referia eram metafóricos, significavam nossos desafios, dilemas e dramas. Esses monstros dos mares da alma que nos espreitam e ameaçam e que protelamos enfrentar. Na época eu estava sendo ameaçado por dois desses tubarões, e me faltava coragem para encará-los. Eu tinha que resolver se continuaria com meu trabalho e com meu casamento. Mas, em vez de decidir e agir, eu me limitava a observar as barbatanas desenhando um círculo ao meu redor, sem me dar conta que o círculo estava ficando menor.  Sim, querido maestro, você tem razão. Um homem precisa enfrentar seus tubarões, senão será devorado por eles. Até hoje, quando me sinto acuado por uma decisão difícil, me lembro de você, seu bandoneón e sua sabedoria. E trato de enfrentar meu tubarão de frente.

EUGENIO MUSSAK enfrenta todos os meses o desafio de escrever para vida simples, desde que ela existe.

Todos os direitos reservados a Revista Vida Simples.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *