O manual de instruções

Recentemente eu comprei um computador novo. É o modelo que sempre quis (“sempre” significa o ultimo ano, pois antes disso queria outro que parecia ser o definitivo). Fiz questão de trazê-lo pessoalmente para casa e, claro, providenciar sua instalação por conta própria. O mouse e o teclado (maravilhas da tecnologia) são remotos, não têm fios, o que diminui o número de pontos a serem conectados à CPU.
 
Limpo a mesa, coloco a maquina nova em seu lugar definitivo, conecto na tomada, ligo o computador e ele funciona, anunciando sua vida com uma simpática musiquinha sintetizada eletronicamente. Tudo certo. Ou melhor, estaria tudo certo, não fosse por um detalhe: o teclado recusava-se a responder aos comandos! Eu digitava “p” ele entendia “q”. Teclava “x” ele escrevia “z”. Nós dois não estávamos falando a mesma língua! Mexe daqui, mexe dali, liga, desliga, refaz todas as conexões e…nada! Providência seguinte? Ligar para assistência técnica, mas não agora, pois já é noite e, o pior, sábado. Você conhece aquela frustração das crianças quando o brinquedo novo não funciona? Então você me entende…
 
O consultor técnico da revendedora atendeu rápido. Foi simpático, fez algumas perguntas sobre o modelo e, quando escutou a queixa perguntou candidamente: “o senhor configurou o teclado ao seu programa?”. Configurou? Como assim? “É necessário configurar”, continuou ele, “isso está bastante claro no manual”. O manual, é claro! E ele ainda indicou a página, pacientemente. Sentindo-me como um menino apanhado colando na prova, agradeci, desliguei e, humilhado, abri o manual. Conseqüência: problema resolvido depois de seguidas as instruções.
 
Na atualidade, os manuais têm menos serventia que antigamente por um motivo simples: a evolução da microeletrônica produziu máquinas que praticamente se instalam sozinhas; o famoso “plug and use”. Os painéis são autoexplicativos facilitando nossas vidas. Há lógica nas instalações, que é facilmente entendida, especialmente por quem tem menos de, digamos, quinze anos. Mas, em algumas situações, o manual é indispensável, e facilita muito nossas vidas (principalmente quando temos mais do que quinze anos). Muitas vezes, o manual nos salva, pois ele representa a biografia do ser eletrônico ou mecânico que está à nossa frente.
 
Essa história me remete a uma reflexão paralela: e o nosso próprio manual? E o cérebro, que é o computador mais espetacular jamais produzido, capaz de algoritmos inimagináveis e que, sabidamente, é muito mal utilizado pelo ser humano, não mereceria um manual de instruções? É claro que sim.
 
A psicologia clínica, por exemplo, tem o mérito de aumentar, nos pacientes, sua autopercepção, ou seja, você passa a entender melhor suas reações diante de determinadas situações impostas pela vida; ou começa a compreender as ligações que se existem entre as decisões tomadas racionalmente e suas conseqüências emocionais, e assim por diante. O objetivo final é aumentar seu autoconhecimento, fazer você ter consciência das relações entre causas e efeitos, ter domínio sobre os limites pessoais e sobre as potencialidades, às vezes adormecidas. Em outras palavras, cada um de nós pode, com auxilio da inteligência acumulada pela humanidade, escrever seu próprio manual, de uso exclusivo, cujo código de acesso, só a nós pertence.
 
Mas não é só no consultório do psicoterapeuta que aumentamos nosso autoconhecimento. A educação também tem esse mérito, e também a cultura, os livros, as revistas, especialmente as desenvolvimento humano, como a Vencer! Não há manuais prontos sobre você, João, Pedro ou Maria, mas há estudos sobre o ser humano, o genérico. E bons estudos; confiáveis, úteis, acessíveis.
 
Mãos (ou cérebro) à obra! Não pare de aumentar sua cultura sobre você mesmo. Mas lembre-se, você é, acima de tudo, um ser plural, e mutante… Jamais poderá parar de escrever seu manual, assim como você não para nunca de escrever sua própria história!
 
Texto publicado sob licença da revista Vencer.
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