O mundo do mais

Em uma viagem de estudos a Paris, minha mulher, ao perceber que um casal que entrara por último no avião sentaria separado, imediatamente ofereceu-se para trocar de lugar. No final de seu curso, eu fui encontrar com ela, então voltamos juntos ao Brasil, e a situação se inverteu, só que com um final não tão feliz. A própria aeromoça perguntou ao rapaz que sentaria do meu lado se ele se incomodaria de trocar de lugar, e ele disse algo como “cheguei primeiro, escolhi este lugar e não vou sair daqui”, sem se dar conta que o novo lugar proposto era melhor. Sim pessoas diferentes têm posturas diferentes.
 
Realmente, nas viagens aprendemos muito. E não só sobre a cultura do local visitado, mas também sobre o ser humano, observando seu comportamento. Por estarem em um lugar desconhecido, as pessoas não se comportam como o fazem em sua rotina, e é aí que revelam sua verdadeira personalidade. Diante do novo, a reação é, ao mesmo tempo, de curiosidade e de alerta. Como conseqüência, é desencadeado o processo de aprendizado e o mecanismo de defesa. Resta saber o que vem antes.
 
Há o viajante que se encanta e há o que se assusta, e suas reações são opostas. A postura do primeiro é de intenção, a do segundo é de atenção. Um entra no ambiente novo com respeito, o outro parece querer delimitar seu novo território. O primeiro é sutil, observa, aprende, cuida, pede, agradece. O segundo é espaçoso, barulhento, exige, reclama, desdenha, se exaspera. São pessoas que, apesar de estarem no mesmo planeta, habitam mundos diferentes.
 
Nas empresas também é assim, especialmente nos momentos de mudança, crise ou novos desafios, que são uma espécie de viagens a novos continentes. As reações não são as mesmas, e assim nós vamos aprendendo sobre o ser humano e separando o joio do trigo.
 
As duas dimensões
 
Desde sempre, mas principalmente depois que comecei a escrever, tenho me dedicado a observar comportamentos, e faço isso nas viagens, mas não só nelas, também no cotidiano do trabalho, das ruas, dos condomínios. Pessoas, famílias, empresas, todos são entidades comportamentais que revelam seu caráter pelo que fazem e, mais importante, de como fazem o que fazem.
 
Acabei por criar, para meu próprio uso, a ideia de que nosso planeta não é composto por apenas um mundo, mas por vários, que compartilham o mesmo espaço, em diferentes dimensões. Gosto, por exemplo, de usar a expressão Mundo do Mais e Mundo do Menos para diferenciar as pessoas, não por sua raça ou posição social, nem por sua cultura ou por seu dinheiro, e sim por sua postura e pela qualidade do que fazem, e também pelo tamanho de sua generosidade.
 
O Mundo do Mais é o mundo que tem uma propriedade que dignifica o ser humano, e essa é, exatamente, a marca da excelência, do compartilhamento, da generosidade. O Mundo do Menos é mesquinho, isolacionista, egoísta, pequeno. Conheço pessoas do Mundo do Mais e do Mundo do Menos em todas as classes e profissões, e elas são facilmente reconhecíveis.
 
Pessoas do Mundo do Mais costumam ter uma expressão mais leve, sempre pronta para demonstrar ao outro sua disponibilidade. Certamente você conhece pessoas disponíveis e pessoas não disponíveis. Se você estiver em dificuldade, em qualquer lugar a qualquer hora, você sabe com quem pode contar? Pense um pouco. Certamente você fará uma lista mental das pessoas que não hesitariam em largar o que estão fazendo para socorrer um amigo, e das que é melhor nem pensar em chamar, pois além da frustração irão provocar mal estar.
 
Estar disponível é ser generoso, contributivo, confiável. Ter disposição para dar de si para quem não tem e está precisando mais do que ele. O habitante do Mundo do Mais não compartilha o que está sobrando, reparte o que tem, sua melhor parte. Tira de si para dar ao outro, e por isso às vezes é acusado de ser bobo ou imprevidente. Não é, acredite. Ele age assim porque é de sua natureza, assim como também é de sua essência acreditar na fartura, na abundância. Pessoalmente não me lembro de ter sentido falta de algo que dei ou que reparti. Ao contrário, dar abre espaço para coisas novas, para a renovação.
 
Arte ou obrigação
 
O Mundo do Mais já era citado por Aristóteles, na antiga Grécia, só que ele usava a expressão ágathon, que significa algo como “amor à excelência”, à idéia de fazer bem feito, de acreditar no valor da qualidade, da busca da perfeição. Os habitantes do Mundo do Mais não se contentam com apenas fazer, querem fazer o melhor possível, em uma escala sempre crescente.
 
Santo Agostinho também fez sua tabela, e separava as pessoas pela consistência do que elas se propunham a fazer e por sua disponibilidade em colaborar. Segundo ele, haveria sapateiros do Mundo do Mais, ocupados em produzir os melhores sapatos, e os sapateiros do Mundo do Menos, que se satisfaziam em fazer sapatos ordinários, e enganavam seus clientes, sem se preocupar com o conforto e a satisfação deles. Como havia poucos sapateiros, eles teriam trabalho de qualquer maneira.
 
Esta é a diferença entre esses dois mundos. O Mundo do Mais está preocupado com produzir valor, o Mundo do Menos em produzir vantagem. O Mundo do Mais faz pela arte, o Mundo do Menos pela obrigação. Há sapateiros, padeiros, vendedores, médicos, diretores, garçons, vizinhos, viajantes, colegas, maridos e esposas do Mundo do Mais e do Mundo do Menos. O Mundo do Menos está preso em uma armadilha que ele próprio criou, pois quanto mais mesquinho é, menos gera valor o que o obriga a ser ainda mais econômico em sua maneira de produzir e em sua disposição de doar-se. Já o Mundo do Mais é obcecado pelo valor e pela abundância, e atrai para seu território pessoas que buscam o melhor e contribuem com o melhor.
 
Eis aí um bom mapa de viagem. Não importa se estamos indo para outro continente ou para outro bairro, ou sequer importa se estamos saindo do lugar. Sempre podemos escolher ir ao Mundo do Mais ou ao Mundo do Menos. Ir ao Mundo do Mais não é viagem longa, mas é uma viagem grande. O visto no passaporte é conferido pela generosidade e o cartão de fidelidade acumula milhas de grandiosidade. E, como tudo na vida, o destino é uma questão de preferência. Boa viagem!
 
Texto publicado sob licença da revista Conexão Direta com Você, da Nextel.
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