O prazer de trabalhar

O que dá resultados e pereniza carreiras é o tesão tanto quanto a necessidade
 
Afinal, é possível uma pessoa motivar outra, ou as pessoas devem se automotivar? A motivação é uma porta que só se abre por dentro, ou alguém pode acionar o trinco por fora? Estas são questões sempre presentes quando o assunto é liderar equipes. Na dúvida, vamos perguntar aos especialistas. Que, por sinal, não são os profissionais da motivação. São os psicólogos.
 
E o que eles dizem é que as pessoas só são motivadas por duas grandes forças: a necessidade e o desejo. A necessidade de não sofrer e o desejo de ter prazer. O psicólogo Abraham Maslow, que é o teórico das necessidades, afirma que nós não fazemos nada se não estamos motivados, e que passamos pela vida procurando atender às demandas da sobrevivência. Ele também explicou que temos que atender às necessidades de sobrevivência física, emocional e intelectual, nessa ordem de prioridade. Maslow criou a famosa pirâmide que leva seu nome, e explicou a hierarquia de nossas necessidades, portanto, de nossas atividades.
 
Freud, quando abriu as portas do inconsciente para a humanidade, disse que nós somos movidos pelo instinto do prazer, ao que chamou de libido. Para ele, a grande motivação, que está por trás de tudo o que fazemos, é a perpetuação da espécie, e a libido cumpriria o papel de providenciar o desejo que garantiria esse processo. Freud explica que a vida precisa do sexo, e que sem prazer, nada feito. Já Jung, que foi amigo e seguidor de Freud, concordou com ele na essência, mas discordou no detalhe.
 
Disse que a libido é fundamental, sim, mas que não está presente apenas no sexo, e sim em tudo o que fazemos, seja no trabalho, no lazer, no estudo e em todo tipo de relações humanas. Então os dois brigaram feio e cada um tomou seu rumo, com Jung dizendo que, para Freud, tudo era sexo, e que ele não pensava em outra coisa. Na verdade, Jung também só pensava naquilo, mas não só no sexo da perpetuação da espécie, também no da perpetuação das idéias, da multiplicação do conhecimento, do crescimento da empresa, etc. etc. Afinal, tudo isso envolve um grande prazer. Ou não? A libido é, então, uma força motivadora que mira o prazer a acerta na perpetuação, e isso também vale para a carreira.
 
Jung e Freud abriram a discussão, mas quem matou a charada foi um psicanalista brasileiro chamado Roberto Freire (não é político) no título de um desses livros: Sem Tesão Não Há Solução.Para a época (década de 1960),a frase soou escandalosa, mas, a partir daí, a palavra tesão deixou de ter significado chulo. Hoje dizemos que temos tesão pelo trabalho, pela profissão ou pela empresa. E, sem tesão, não se cria nada. Se você lidera uma equipe, saiba que as pessoas precisam do trabalho, mas desejam a felicidade. O que multiplica resultados, faz crescer os lucros e pereniza as empresas é essa dupla de área, a necessidade e o prazer.
 
E, respondendo aos questionamentos do primeiro parágrafo, a pessoa tem que se motivar a ela mesma, sim, mas outra pessoa – seu líder – pode lhe dar os elementos que ela usará para construir essa motivação, e ter tesão para trabalhar. Sempre lembrando que pela necessidade, as pessoas trabalham simplesmente, e agregando o prazer, trabalham plenamente. Ah, há uma terceira coisa que motiva as pessoas: o sonho, que é a capacidade de imaginar um futuro melhor. Mas isso é outra história. Ou outro artigo.
 
Texto publicado sob licença da revista Você SA, Editora Abril.
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