O princípio dos limites da tolerância

Sobre a capacidade de se adaptar
 
No artigo anterior, abordei a importância de estarmos atentos aos detalhes. Usei como comparação a Lei do Mínimo, emprestada da biologia, que se refere à necessidade que os seres vivos têm de alguns elementos em quantidades muito pequenas, e mesmo assim, determinantes do sucesso da vida. Da mesma forma, as pequenas exigências profissionais são tão importantes quanto as grandes para o sucesso de uma carreira.
 
Complementando, outra inspiração da biologia pode ser aplicada à vida profissional, proposta pelo inglês V.E. Shelford e se refere à chamada “ecologia da tolerância”. Parte do princípio que alguns animais conseguem viver entre limites de tolerância muito amplos, enquanto outros apresentam pequena resistência às mudanças ambientais. Os seres humanos, no ambiente profissional também são assim. Alguns toleram as mudanças, cada vez mais constantes, e outros não.
 
Veja este exemplo: duas espécies de peixes e seu comportamento quanto às variações de temperatura. O peixe Trematomus vive no ártico, em águas geladas, e não suporta variações térmicas maiores de quatro graus centígrados. Ele se dá bem entre – 2º C e + 2º C. Fora dessa faixa, para mais ou para menos, ele morre. Já o peixe Cyprinodon, que habita lagos existentes em alguns desertos, cuja temperatura varia entre 10º C e 40º C, enfrenta essa variação sem alterar sua biologia e seu comportamento.
 
Em ecologia, utilizam-se os prefixos esteno-, que significa “estreito” e euri-, cujo sentido é “largo”, para designar esses dois tipos de indivíduos. O peixe do ártico é um “estenotérmico”, enquanto o do deserto é um “euritérmico”. Outras características ambientais também influem. O salmão, por exemplo, é um “eurialino”, porque suporta grandes variações de salinidade da água, e por isso consegue viver no mar e na água doce. Já um lambari é “estenoalino”, pois só consegue viver em água doce.
 
Também existem os estoídricos e euriídricos, estofágicos e eurifágicos, estenobáricos e euribáricos e assim por diante. Utilizando a metáfora biológica, podemos falar do estenoprofissional e do euriprofissional.
 
O mundo profissional moderno tem algumas exigências novas. Uma delas é a capacidade adaptativa. A economia e o mercado mudam muito rapidamente. Uma empresa que tem como foco a venda de softwares pode precisar adaptar-se rapidamente para vender soluções de informática. Uma livraria de repente começa vender CDs, assim como um restaurante sofisticado pode começar a oferecer pratos executivos no almoço.
 
Fusões, incorporações, internacionalizações são, da mesma forma, eventos que provocam necessidade de adaptação dos executivos das empresas envolvidas. Ter capacidade de adaptar-se, ou seja, de viver em ambientes com grandes variações comportamentais, em um mundo que também varia grandemente, é, hoje, uma qualidade desejável. Ou seja, o mercado deseja euriprofissionais.
 
O euriprofissional tolera variações de tendências de mercado, de dificuldades financeiras, de mudanças de liderança, de rumo, de core business. Assimila os golpes das altas do dólar e da queda de consumo. Assume o trabalho do assistente que foi dispensado com a mesma tranqüilidade que delega tarefas para equipes que foram ampliadas.
 
O mundo não quer mais o estenoprofissional, aquele incapaz de viver em condições adversas e que morre de medo de mudanças. Para ele, ousadia, risco, empreendedorismo são palavrões. Estudar serviu apenas para terminar a faculdade. Ascensão profissional é sinônimo de tempo de casa. Sua marca registrada é a acomodação. Pois é, a vida moderna pertence aos euris. Você é um deles? Se não, sempre há tempo para a mudar sua ecologia.
 
O euriprofissional não pára de estudar, de se desenvolver pessoal e tecnicamente. Não mede esforços em seu aprimoramento e está sempre atento às necessidades de seu negócio ou de seu emprego. Sugere medidas de contenção de despesas e ações de marketing agressivo com a mesma desenvoltura. Não se espanta nem com a dificuldade, nem com o sucesso. Apenas vive bem, transitando entre os extremos, que são a marca registrada de nosso tempo.
 
Texto publicado sob licença da revista Você s/a, Editora Abril.
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