O que passou, passou

Para seguir em frente com tranqüilidade é importante que os fatos do passado estejam bem resolvidos
 
Certamente não há ninguém que olhe para trás de vez em quando e, ao se lembrar de acontecimentos passados, fique impassível, sem algum forte sentimento. Há pelo menos três categorias de lembrança: as ruins, que gostaríamos de esquecer; as boas, que gostamos de lembrar; e as mal resolvidas (como as oportunidades perdidas, por exemplo), que insistem em martelar nossa cabeça. Especialmente para as ruins e para as mal resolvidas, que volta e meia nos atormentam, costumamos nos autoconsolar, afirmando que não se pode mudar o passado e não adianta chorar sobre o leite derramado. Queremos acreditar que o que passou, passou e nada podemos fazer para modificar os fatos passados. Não é verdade.
 
Se a mente fosse uma casa, o porão seria o sítio das memórias. Um lugar empoeirado, cheio de objetos envelhecidos, caixas, álbuns de fotografias, revistas velhas, letras de música. Ali estão também arquivos com gavetas e pastas suspensas. Alguns esquecidos, quase apagados, que quase nunca abrimos, e outros mais novos, que ainda são consultados com alguma regularidade. E há, é claro, aquela parte sombria do porão, aquela região menos iluminada que, só de pensar, já dá frio na espinha. O que existe nessa área você não lembra bem, faz tanto tempo que não vai até lá que é preferível fingir que nunca existiu. Enquanto isso, a sujeira por ali vai se acumulando.
 
Outras pessoas, com outros porões, são desorganizadas de uma outra forma. Existem aquelas em que não há nada catalogado ou encaixotado, as lembranças estão espalhadas pelo chão. O dono desse tipo de casa não permite que as memórias sejam guardadas, mas também não se dedica a escrever novas histórias. Ao contrário do primeiro porão, o local está claro, e a bagunça, bem mais visível.
 
Mas qual é a melhor maneira de organizar o que passou para seguir em frente? Encaixotar e jogar em um canto escondido não parece ser a melhor saída, e deixar as lembranças tão presentes que sufocam, muito menos. Há que se achar o equilíbrio, afinal, o que passou, passou… mas importa. Então vamos à faxina!
 
1. Rever os arquivos
 
Consultar os “porões da memória” e relembrar aquelas coisas não tão agradáveis pode ser uma prática necessária. Essencial, até. Mas para que remexer nesses troços velhos e desagradáveis? Segundo Sigmund Freud, o pai da psicanálise, a mente é como um iceberg que flutua na superfície de um oceano. Só vemos a ponta acima da água, mas embaixo está a região que contém pensamentos, desejos, sentimentos e lembranças para os quais não estamos conscientes. Por isso, a essa região submersa ele deu o nome de “inconsciente”. E era exatamente isso que mais interessava ao médico vienense, essa massa de paixões e pensamentos invisíveis, que ele acreditava estarem reprimidos ou bloqueados pela dor que causaria admiti-los. Freud percebeu que somos fortemente influenciados por esse inconsciente, muito mais que pelos pensamentos que dominamos de forma consciente.
 
Não tem outro jeito. Vamos ter que mexer nos arquivos, pois o que passou, muitas vezes não passou totalmente. Com os escaninhos limpos, aí sim passou, e nós vamos em frente em busca de novas experiências, vivendo a vida real, a liberdade do momento presente, e não um passado que aprisiona.
 
Para que o paciente mergulhasse até o fundo desses anseios escondidos, Freud passou a usar a técnica da associação livre, em que o paciente relaxava e, provocado pelo médico, dizia qualquer coisa que lhe aflorasse à mente, por mais trivial ou embaraçosa que pudesse parecer. Ele acreditava que esse método produzia uma corrente de pensamentos que botava o paciente em contato com seu inconsciente, recuperando e liberando lembranças dolorosas, geralmente da infância. Freud chamou sua técnica de psicanálise.
 
A importância de reviver essas experiências é a enorme influência que elas exercem em nossas vidas. Para o estudioso, esses “impulsos desconhecidos” se expressam de forma disfarçada em nossas escolhas pessoais, nossas convicções e nossos hábitos e até provocando comportamentos que prejudicam a outros e a nós mesmos. Por isso, para deixar um fato mal resolvido para trás é preciso, primeiramente, reviver esse fato e entender seu impacto. Senão, parece que o que passou não passou tanto assim.
 
2. Limpar os arquivos
 
Diferentes acontecimentos têm impactos diferentes sobre pessoas diferentes. Fatos que parecem insignificantes, como uma piada da turma do colégio ou um comentário aparentemente inofensivo da mãe ou do pai, podem magoar profundamente uma pessoa, mudar sua maneira de pensar ou de ver a vida. Todos passamos por situações que nos marcaram e que terminaram por gerar os famosos “traumas”, aquelas excitações fortes o bastante para romper a barreira de nosso escudo psicológico protetor. Coisas que ficam guardadas no porão, mas fazendo barulho.
 
Por exemplo, a perda de uma pessoa querida freqüentemente transforma-se em um trauma. Para a psicologia, o luto é um dos processos mais complicados para a mente humana. Primeiro, pelo afastamento definitivo de alguém que amamos. Segundo, porque nos lembra da nossa única e tenebrosa certeza: somos mortais e um dia também iremos morrer. O ser humano busca, durante o curso de sua vida, inúmeras maneiras de esquecer essa fatal realidade. O luto gera uma série de sentimentos ruins, pois, além da saudade e da melancolia, pode existir a culpa. De certa maneira, nos sentimos responsáveis pela morte, principalmente se não fizemos tudo o que era possível para aquela pessoa, se não dissemos tudo aquilo que queríamos ou se não a tratamos excepcionalmente bem.
 
A notícia boa é que uma experiência ruim nem sempre é transformada em trauma. Depende da estrutura mental e de como processamos o fato. A lucidez mantida durante uma situação traumática coloca essa lembrança no arquivo correto e impede que ele faça barulho mais tarde. A outra alternativa é recordar o fato com lucidez e colocar a casa em ordem. Nesse caso, o que passou poderá realmente ter passado.
 
3. Guardar os arquivos
 
Então tem jeito? Situações mal resolvidas no passado podem não ser fantasmas para sempre? É claro que tem jeito. Se faltou atitude positiva na época, ela pode ocorrer agora, especialmente tratando de redirecionar a energia para o presente, impedindo seu acúmulo no passado. “Quem vive de passado é museu”, dizia um amigo irreverente, mas pragmático.
 
Até as lembranças favoráveis devem ser tratadas com o devido cuidado. As conquistas e os objetivos que atingimos são importantes para gerar motivação – afinal, “se eu já consegui, posso conseguir de novo”. Com certeza as vitórias contribuíram para sua auto-estima e para seu desenvolvimento pessoal, mas veja bem: você não pode ser impulsionado só pelo passado. “Águas passadas não movem moinhos”, lembra-se?
 
Às vezes é difícil se libertar dos tempos bons e recomeçar. E que atire a primeira pedra quem nunca sentiu aquela velha e boa nostalgia ao concluir uma etapa da vida. Quem nunca suspirou: “Ah, no tempo da faculdade é que eu era feliz”? Ou então: “Quando eu era criança é que era bom”. Recordar, ter memórias, um vínculo histórico, é essencial para o equilíbrio, mas o que não é sadio é se tornar um “estacionado no passado”, alguém que não assume responsabilidades nunca, querendo permanecer na tranqüilidade da infância ou fugindo do comprometimento e da responsabilidade de maneira anacrônica, com medo de tirar o pé dos maravilhosos anos da juventude.
 
O que acontece é que, de repente, a pessoa percebe que não está acompanhando o curso natural das coisas. Ficou para trás, enquanto os amigos e colegas já estão encaminhados, prontos para uma nova etapa. A frustração de não ter evoluído, por estar perdido em um tempo que já tinha passado, pode levar a uma contínua estagnação e mais perda de tempo.
 
Você não precisa se desfazer completamente das memórias agradáveis, pode guardá-las na parte mais acessível do porão e consultá-las sempre que precisar de uma guinada em sua vida, de uma injeção de ânimo. Mas sempre com a finalidade de permitir que você viva melhor o tempo presente, o único que realmente importa.
 
Uma das mais belas cenas do cinema da década passada apareceu no filme A Sociedade dos Poetas Mortos, em que Robin Williams interpreta um professor de inglês em um colégio tradicional americano. Em sua primeira aula, ele leva os alunos até a sala dos troféus, onde também estão as fotografias das antigas turmas do colégio – todas pessoas já mortas ou muito velhas. O professor então estimula os alunos a chegarem muito perto das fotos para “escutarem” o que os colegas mais velhos têm a dizer, e então imita uma voz cavernosa, repetindo várias vezes a frase carpe diem, que, em latim, quer dizer “viva o presente”.
 
Sábio conselho, viver o presente. O passado pode ensinar, mas não pode ser vivido de novo. O futuro pode ser construído, mas só será vivido quando virar presente. Com o passado, fazemos as pazes e, se não o compreendemos bem, pelo menos o aceitamos. Entrar em harmonia com as lembranças, romper as amarras, permitir-se seguir em frente e, principalmente, permitir que o passado se vá – eis o conselho. E, para elucidar, o poema “Eu amo tudo o que foi”, do poeta português Fernando Pessoa:
 
Eu amo tudo o que foi
Tudo o que já não é
A dor que já não me dói
E o que deixou alegria
Eu amo tudo o que foi
E hoje já é outro dia!
 
Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril.
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