O sapato e a flor

Em uma visita recente ao Sul do país, em companhia de minha mulher, aproveitei para visitar uma fábrica de sapatos. Uma das que sobreviveram à entrada dos chineses, que, aliás, hoje produzem mais da metade dos sapatos do mundo. Fomos recebidos pelo gerente, um homem grande e de ar circunspecto, que nos esperava para mostrar a fábrica. Senti que, por sua vontade, estaria mesmo é cuidando da produção.
 
Iniciamos o passeio pelo setor em que o couro é examinado antes de ser encaminhado à modelagem. Há uso de tecnologia, mas a idéia do sapato “feito a mão”, que passa a sensação do cuidado artesanal, do amor pelo ofício, estava presente naquele local. Havia operários de todas as idades e notavase claramente que os mais velhos tinham responsabilidade pelos jovens, especialmente por aqueles que estão em treinamento.
 
O gerente descrevia cada setor, chamava o responsável pelo nome e sempre dizia há quanto tempo ele trabalhava na fábrica. A média é altíssima, mais de duas décadas. Como em qualquer linha de produção, um setor depende do outro, por isso há perfeita sincronia. O responsável por uma área costuma visitar os outros. Quando um setor sente que está atrasado, ele mesmo levanta uma pequena bandeira vermelha, sinalizando que precisa de ajuda. Isso é visto de maneira natural.
 
Um painel na parede mostra quantos dias sem acidentes e, para o meu espanto, as metas de produção e faturamento, com comparações mensais em relação ao ano anterior. Lá, os operários estão tão informados quanto os diretores. À medida que caminhávamos, nosso olhar de apreciação foi amolecendo o taciturno gerente. Sentíamos claramente orgulho em sua voz.
 
Ao final da visita, ele pediu que esperássemos um minuto. Afastou-se em direção a um bem cuidado jardim e de lá voltou com uma rosa, que deu à minha mulher, dizendo: “O que queremos mesmo é plantar flores, por isso fabricamos sapatos”. Entendi, então, porque aquela fábrica não está preocupada com os chineses.
 
Texto publicado sob licença da revista Você s/a, Editora Abril.
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