O terroir de cada um

Quando menino eu costuma perguntar aos adultos qual seria o melhor lugar do mundo. Eu sempre achava que havia lugares melhores, mais ricos, justos, sofisticados e felizes. Era uma variante infantil da metáfora da grama do vizinho.
Ao conhecer uma pessoa que tinha viajado, principalmente para longe, grudava nela até saber como era aquele local distante e diferente. Ficava imaginando se seria melhor morar lá do que aqui, e sonhava com a oportunidade de estudar fora, quem sabe trabalhar em outro país, de preferência numa daquelas cidades que também são símbolos de sonhos, como Nova York ou Paris.
 
 
A roda da vida rodou e eu tive a chance, fui conhecer o mundo. Visitei países, conheci cidades, estudei no exterior, fiz cursos e participei de congressos em vários lugares do planeta. Conheço todos os estados brasileiros e estive até em lugares quase improváveis como a simpática Puerto Maldonado, no Peru, e o reconfortante oásis Ein Gedi, em Israel. Isso sem falar que morei um tempo no Rio de Janeiro e em Florianópolis; nada mau para um curitibano que, alias, há mais de uma década está radicado em São Paulo. A muitos desses lugares eu voltaria, a outros não, e ainda sinto aquela curiosidade inquieta da infância que, acredito, nunca irá desaparecer.
 
 
Quando me percebo pensando nisso, lembro-me de um professor que tive no colegial, e que foi, para mim, um mentor do pensamento e da imaginação. Ele lecionava geografia, e um dia, percebendo meu interesse, convidou-me a conhecer sua coleção de cartões postais. Trouxe um pequeno baú ao colégio, e, quando o abriu, deixou sair, como borboletas, milhares de cartões que recebia de todas as partes do mundo, de colegas com quem se correspondia.
 
 
Lembra dos cartões postais que as pessoas mandavam quando viajavam, às vezes escrevendo algo como “Estive em Fortaleza e lembrei de você”? Eram desses. Mas, para mim, aquela caixa de madeira era um atlas das belezas do planeta e uma enciclopédia da diversidade humana. Havia cartões com paisagens, outros que ilustravam a arquitetura local, e ainda tinha aqueles que mostravam pessoas, como aborígenes australianos, loiras californianas e encapotados islandeses.
 
 
E, mais uma vez, repeti ao professor minha dúvida existência sobre qual seria o melhor lugar do mundo. Lembro bem de sua resposta calma: “O melhor lugar do mundo é aquele que você sente que pertence a ele”.
Demorei para entender, confesso, mas com o tempo foi caindo a ficha. Aquele professor não sabia, mas estava me dando a chance de pensar, muito tempo depois, que a missão de cada pessoa é deixar este mundo melhor e, com isso, transformar-se em uma pessoa melhor. Encontrar o melhor lugar para viver, ganhar a vida, criar filhos, evoluir, ser feliz, tem que ter a ver com essa missão. Isto significa pertencer a um lugar.
Se você se muda de cidade em busca de uma oportunidade de carreira, na verdade está falando da oportunidade de colaborar com esse local e de ser protegido por ele como contrapartida. Está se referindo à chance de ali encontrar um emprego, prestar um serviço, abrir um negócio. Ou seja, exercer seu talento. O melhor lugar do mundo é onde você pode usar esse talento, seguir sua vocação, ter seu esforço reconhecido, seu valor apreciado.
Eu conheço pessoas felizes e realizadas em todos os lugares, que, aliás, são os mesmos locais em que eu também encontrei pessoas insatisfeitas e amarguradas. Isso me deixa pensando que, antes de encontrar o melhor lugar do mundo, você deve encontrar-se a si mesmo, caso contrário, você sempre estará no lugar errado.
 
 
A pessoa é que pertence ao lugar
 
 
Em francês, terra é terre, solo é sol e terreno é territoire. Mas os franceses têm mais uma palavra relacionada: o terroir. Se você estiver com tempo, paciência e disposição para ouvir uma explicação que mistura linguística, história, geografia, ciência e filosofia, pergunte a um francês, de preferência um amante de vinhos (e qual não é?) o que, exatamente, é um terroir.
Já fiz essa experiência. Um me disse algo como: “Terroir é a terra viva, a biodinâmica em ação. É o encontro de todos os componentes do solo com todos os efeitos do clima. É onde os microrganismos agem com os compostos químicos potencializados pela temperatura e pela energia do sol, produzindo vida, cuja manifestação mais nobre é a videira”.Entãotá.
Outro foi além: “Terroir é o encontro sinérgico do solo com o clima e com o homem. O solo é a vida, o sol é a energia e o homem é guardião, sem o qual o terreno não seria um terroir, pois perderia a capacidade de produzir algo excepcional”. Fico com a impressão de que a França inteira é um terroir que produz filósofos-poetas, muitas vezes mal-humorados, mas sempre encantadores.
 
Têm razão, meus amigos gauleses. Terroir costuma ser definido pelos especialistas como sendo um território onde a geografia, a geologia e o clima interagem favoravelmente com a genética de determinada variedade de planta, dando como resultado um produto de qualidade excepcional. Um terroir é sempre um terreno, mas um terreno nem sempre é um terroir.
 
 
Geralmente referido à produção de vinhos, o conceito também se aplica a outros produtos agrícolas, como o café, o chá e o chocolate. O que é produzido em um terroir ganha o direito de tem uma Denominação de Origem Controlada, o que aumenta seu valor e, como consequência, seu preço. Sem esquecer, como disse meu amigo, a presença do guardião dessa dádiva, o homem.
 
 
Em geral muito pequenos, é na Borgonha que os lotes de videira exteriorizam melhor o espírito de um terroir. A Domaine de Romanée-Conti, para ir logo ao melhor exemplo, é uma propriedade pequena, com menos de 2 hectares. Trata-se de um terreno com cem metros de frente e um pouco mais de fundos. Qualquer chácara de final de semana em São Paulo tem mais que isto, só que aquele terreninho produz um dos mais admirados e desejados vinhos do mundo. Não são mais do que 500 ou 600 garrafas produzidas por ano, o que aumenta seu valor pela raridade.
 
 
Os lotes vizinhos também produzem excelentes grand crus, mas só o terroir do Romanée-Conti tem aquele solo calcário, aquela drenagem e aquela inclinação que lhe dá a insolação absolutamente perfeita. Essa combinação única faz a fama daquele lugar desde o século XV. Só quem provou uma taça desse néctar, e se for dotado da sensibilidade necessária, pode entender o verdadeiro significado de um terroir.
Só que, como disse meu interlocutor francês, o homem é o guardião do terroir, e como tal, passa a fazer parte dele. Em geral são pessoas que, além do conhecimento e da dedicação, são dotadas de tamanha paixão, que faz com que misturem sua vida com a vida daquele local. Então um terroir é uma terra com paixão. Sem esse ingrediente, será apenas um terreno.
 
 
O homem e sua circunstância
 
 
Há pessoas que parecem estar sempre no lugar errado. São as que ainda não encontraram o lugar a que pertencem ou as que simplesmente não entenderam nada. Quando, depois de anos, encontrei o Aldemir, meu amigo de juventude, morando na serra gaúcha feliz da vida eu lhe perguntei porque havia se mudado, afastando-se da próspera construtora que possuía em Joinville, ele me disse com um sorriso: “Aqui encontrei o meu terroir”, fazendo jogo com o fato de estar na região vinícola do sul.
Sua afirmação me levou a considerar que meu terroir é São Paulo, o lugar onde me senti mais útil na vida, que melhor me compreendeu e aceitou. Onde meu talento valeu. Quando estou fora, sinto falta de São Paulo, de seu agito e energia, e até do transito e da poluição, que não canso de criticar, claro. É uma cidade explosiva, mas é meu lugar, e eu procuro colaborar com ele, melhora-lo como posso.
 
 
A relação do homem com seu lugar é lendário. O sertanejo do nordeste resiste a sair do local seco e inóspito, assim como o sofrido beduíno saariano e o estressado executivo nova-iorquino. Quando alguém muda, das duas uma: ou se encontra no lugar que encontra ou volta às origens.
O Ortega y Gasset sentenciou: “O homem é o homem e sua circunstância”, e com isso quis dizer que ninguém é considerado independente do ambiente em que está inserido e sobre o qual exerce sua influência. Não importa se você é um empresário, médico, cozinheiro ou dona de casa, quem olha para você olha ao mesmo tempo para o que você faz com o que está seu redor.
 
 
Outra visão interessante sobre o assunto vem da interação dos pensamentos de dois geólogos, o alemão Fredrich Ratzel e o francês Vidal de la Blanche. Enquanto o primeiro disse, com justa razão, que “o homem é o fruto do meio”, o segundo rebateu alegando que o “o meio é fruto do homem”, com igual precisão. É verdade, pois ao mesmo tempo em que recebemos toda a influência do ambiente, temos o poder de influencia-lo e, dessa forma, modifica-lo.
 
 
O homem precisa encontrar seu terroir, mesmo que, como para o nômade, o terroir seja o caminho. O que não dá é para não pertencer, não interagir, não conviver e não melhorar. Se o lugar onde você está tem tudo isso, então tem poesia. E não é mais apenas um lugar. É seu terroir.
 
 
Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril.
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