O verbo cuidar

Ultimamente tenho prestado muita atenção à palavra cuidar. Tenho encontrado referências a ela em muitos livros bons e isso me estimulou a analisar o quanto ela foi determinante para que coisas boas acontecessem, além de perceber que o descaso com ela acabou cobrando um preço muito alto. Estou falando da vida de muitas pessoas, de empresas e de mim mesmo.  Conclui que cuidar é um verbo que deveria ser bem mais conjugado do que freqüentemente o fazemos. Possuir é bom, mas é o cuidar que garante a posse.

 

Lembrando um pouco da gramática, cuidar é um verbo transitivo, ou seja, não se esgota em si mesmo. Precisa estar ligado a um objeto. E é transitivo indireto porque pede um objeto indireto, pois, quem cuida, cuida de alguma coisa. Essa é uma boa lembrança, pois nos leva a pensar: “Afinal de que mesmo eu ando cuidando ultimamente?”.  Há três esferas do cuidar que merecem imensa atenção: cuidar da carreira, das relações e de nós mesmos.

 

Cuidar da carreira significa estar em permanente processo de aprimoramento, olhando para frente, se não você não tem uma carreira, tem apenas um trabalho.  Sem esquecer que inovação, responsabilidade e ética são componentes que merecem toda atenção, sempre. Representam o intelecto, a personalidade e o caráter. Carreiras bem cuidadas não dão sobressaltos, não oferecem surpresas. Carreiras bem cuidadas mostram a coerência entre os cuidados e os resultados, e estes são representados por promoções, novas oportunidades, crescimento profissional.

 

Ao cuidar das relações percebemos que elas têm círculos concêntricos, e todos merecem atenção. Comece pela pessoa que está ao seu lado, seu companheiro ou companheira, que deve estar acima de todos. Você sabe que tem um companheiro quando tem certeza que essa pessoa estará ao seu lado se tudo o mais falhar em sua vida. Cuide dela, é um bem que não tem preço. Há, depois, os círculos da família, dos amigos, dos colegas e de seu networking. Todos importantes, em momentos diferentes. Pessoas precisam de atenção, gostam de quem se lembra de seu aniversário, de quem liga às vezes sem outro motivo a não ser para perguntar “Como está você?”. Gosto daquela passagem da música Amigos para sempre, que foi cantada nas Olimpíadas de Barcelona em 1992, que diz “Amigos são como as estrelas. Nem sempre as vemos, mas sabemos que estão aí”.

 

E, não menos importante, cuide de você mesmo, de sua saúde, de sua vida espiritual, de sua aparência, de seu conhecimento técnico, de sua cultura geral, de suas roupas, livros, CDs, casa, carro. As pessoas que cuidam de suas coisas são reconhecidas, merecem mais respeito, inspiram mais confiança. Cuide dos recursos que estão à sua disposição para trabalhar, viver, aprender, locomover-se, divertir-se. Só quem cuida, tem quando precisa.

 

Cuidando dos recursos no seu trabalho

 

Falando em recursos, vivemos um tempo em que cuidar bem deles é sinal de inteligência, pois sabemos que eles – não importa quais sejam –são limitados. O planeta que o diga! Gerenciar os recursos no trabalho não só merece atenção mas, o mais importante, pode receber inovação. Sim, é possível inovar no dia a dia nas organizações, e não apenas nos grandes lançamentos propostos pelo departamento de P&D.

 

Quando o Taylor, no início do século passado, propôs aumentar a produtividade nas fábricas, diminuindo o tempo de produção ao mesmo tempo em que reduzia o esforço dos operários, estava, na prática inovando a gestão dos recursos de produção. Essa inovação foi tão significativa que acabou por dar à luz uma nova ciência, chamada Administração. Na prática, o que ele propôs não foi que as pessoas fizessem coisas novas, e sim que fizessem de um modo diferente.

Gerenciar recursos com cuidado pode significar a diferença entre o sucesso ou o insucesso de uma empreitada qualquer. Não é só o resultado que conta, e sim sua relação com os recursos utilizados para alcançá-lo, e podemos estar falando de dinheiro, equipamentos, pessoas, tempo. “Mais uma vitória como esta e estaremos derrotados”, disse o general romano Scipio Africanus aos comandantes de seu exército, que lhe haviam trazido a notícia de mais uma batalha vencida contra os exércitos do cartaginês Aníbal. Eles estavam felizes e orgulhosos e não entenderam bem a resposta de seu líder, que parecia não valorizar o trabalho deles.

 

É que havia uma diferença de percepção entre o general e seus homens. Eles olhavam para cada uma das batalhas, e ele tinha uma visão abrangente da guerra, no caso a Segunda Guerra Púnica. Ele tinha que cuidar do exercito para vencer a guerra, e a batalha que havia sido ganha tinha mobilizado cerca de dez por cento de todos os soldados de infantaria, com baixas consideráveis. O inimigo fora derrotado, mas o preço pago por essa vitória havia sido alto demais. Este é apenas um exemplo da preocupação que deve haver entre os recursos empregados e os resultados obtidos.

 

De lá para cá, claro, tratamos de sofisticar os modelos, e a administração não só confirmou seu status de ciência, como acabou sendo a grande invenção do século, pois foi sua aplicação que permitiu que todas as outras invenções ganhassem vida. Só que temos que considerar algo importantíssimo: ainda que a administração lide com fatos, números, índices, e sempre procure a exatidão, consideramos que ela pertence à área das ciências humanas, e não das ciências exatas. E é assim porque o fator humano é fundamental para que os modelos de gestão tragam o resultado esperado.

 

O guru Ram Charam, por exemplo, costuma dizer que “O elo perdido entre a estratégia e o resultado é a atitude” e, ao dizer isso, coloca o fator humano no jogo da gestão. Sim, de nada adianta a melhor estratégia do mundo se as pessoas que a executarem não estiverem comprometidas com o resultado, não cuidarem dos recursos necessários à sua implementação e não prestarem atenção aos detalhes. Não esqueça que estratégia é técnica, atitude é vontade. E que um não vive sem outro. Cuide de ambos, e, claro, cuide-se.

 

Texto publicado sob licença da revista Conexão Direta com Você, da Nextel.
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