Onde ela Errou (Carly Fiorina)

O que você pode aprender com a demissão de Carly Fiorina, a ex-executiva mais poderosa do mundo.
 
Podemos aprender com as pessoas de três maneiras diferentes: pelo que elas dizem, pelo que elas fazem e pelo que acontece com elas. Carly Fiorina, que durante seis anos foi considerada a mulher mais poderosa do mundo dos negócios, e foi demitida da presidência da HP no dia 8 de fevereiro, tem muito a ensinar, e das três maneiras. Em recente estada no Brasil, ela disse: “Para ter sucesso na carreira você tem de ser, ao mesmo tempo, humilde e autoconfiante, realista e otimista, sensível e firme. Além disso, você tem de ter dedicação integral ao seu trabalho, trabalhar duro e ter paixão pelo que faz, sempre sendo fiel aos seus princípios. A liderança requer doses iguais de caráter e capacidade”.
 
É de parar para ouvir uma mulher que, aos 43 anos, tornou-se CEO da décima primeira maior empresa dos Estados Unidos, que faturou, no ano passado, 79,9 bilhões de dólares. Principalmente quando examinamos sua biografia e descobrimos que ela se formou em história medieval e filosofia na Universidade Stanford, é mestre em administração pela Universidade de Maryland e em ciências pelo MIT, nos Estados Unidos. E que, antes, trabalhou na AT&T, na Lucent e na Cisco. Que tem um assento na Bolsa de Valores de Nova York, é membro da London Business School e da World Economic Foundation.
 
Há forte coerência entre o que ela diz e o modo como se preparou e conduz a carreira. O resultado é a trajetória brilhante e a imagem quase mitológica, que influencia mulheres executivas no mundo inteiro. E o número delas não pára de crescer: nas 150 melhores empresas para trabalhar, listadas no Guia EXAME-VOCÊ S/A — As Melhores Empresas para Você Trabalhar, 20% dos cargos executivos são ocupados por mulheres. Há seis anos eram apenas 12%. Muitas buscaram orientação, motivação e inspiração em exemplos como o de Carly. E, nos últimos acontecimentos, será que há mensagens igualmente pedagógicas? Por que Carly Fiorina caiu do olimpo empresarial para um limbo do qual, segundo dizem, ela só sairá caso se encaminhe para a política, o que já parecia ser seu desejo? Nessa análise, há uma pergunta que não quer calar: o quanto pesou, em sua demissão, o fato de ela ser mulher? Um homem, em seu lugar, teria provocado o mesmo grau de desconfiança entre os acionistas? Estão abertas as apostas.
 
As opiniões são divididas
 
A professora Sheila Wellington, da Universidade de Nova York, disse ao New York Times: “Ela era uma líder muito rígida, severa em suas críticas e inflexível em seus julgamentos, e as mulheres ainda não estão autorizadas a apresentar tais características”. À mesma matéria, o professor Benson Rosen, da Universidade da Carolina do Norte, nos EUA, declarou: “Não há sexismo nessa equação”. Pode ser, mas é possível encontrar uma explicação que considera o gênero sem envolver preconceito. Robert Wong, sócio da consultoria Korn/Ferry, usa a psicologia, e diz ter observado que, quando atingem altos postos em um mundo predominantemente masculino, as mulheres tendem a exagerar nos traços de autoridade, o que dificulta suas relações e embota suas decisões.
 
Outra lição: observando uma pesquisa conduzida pela professora Betânia Tanure, da Fundação Dom Cabral, de Belo Horizonte, descobrimos que, das posições de primeira linha ocupadas por mulheres no Brasil, 55% estão em RH, 20% em marketing, 10% em finanças e apenas 3% na área operacional. Como este último é um dos setores que mais conduzem à cadeira de CEO, isso ajuda a explicar por que há tão poucas mulheres no comando geral das empresas. A área em que elas constroem sua carreira influencia o acesso ao topo das companhias. A experiência de Carly no setor operacional era pequena e sua saída confirma a regra acima, o que serve de aviso às executivas que miram as alturas.
 
Entretanto, o fato mais relevante desdenha questões de gênero: o resultado prometido por Carly e esperado pelos acionistas simplesmente não foi atingido. As ações da HP despencaram 55% durante sua gestão e a ousada estratégia de incorporar a Compaq, gastando mais de 20 bilhões de dólares, não resultou em recuperação, como era sua aposta. É claro que o setor passou por um período de desvalorização, mas nenhuma companhia apresentou queda tão significativa.
 
Em 1949 a francesa Simone de Beauvoir terminou sua obra O Segundo Sexo e afirmou: “Não se nasce mulher: torna-se mulher”. Em livros mais recentes, ela reconheceu que o mesmo pensamento vale para os homens. E para o que fazemos. Ninguém nasce presidente de empresa, como ninguém vem ao mundo pronto para o sucesso ou para o fracasso. Os caminhos são construídos ao caminhar, e eles nos dão o direito ao tropeço e à retomada. Ainda ouviremos mais de Carly Fiorina.
 
Mulheres no Poder
 
– No Brasil, as mulheres ocupam 20% dos cargos de diretoria e gerência.
– Nos EUA, esse número chega a 50%, mas apenas 7 mulheres são CEOs, no ranking das 500 maiores empresas
 
Texto publicado sob licença da revista Você SA, Editora Abril.
Todos os direitos reservados.

 
Visite o site da revista: www.vocesa.com.br