Os detalhes no dia a dia

O olhar humano é capaz de varrer rapidamente uma cena com relativa complexidade e ver todos os elementos, mas isso não significa que estes serão percebidos, muito menos registrados. Antes, o cérebro tem que processar os componentes daquele espaço e, para isso, precisa de ajuda, e quem vem em socorro são dois facilitadores da percepção: o significado ou o detalhe.

Na primeira cena, o que valeu foi o significado. As chaves significavam muito naquele momento. Você as estava procurando e já tinha criado uma imagem mental, um clone virtual do objeto desejado. Ao ver as chaves no mundo real criou-se uma conexão imediata com a imagem mental e o ato se realizou. Ver o que se está procurando é fácil, faz parte do protocolo. Se você não estivesse procurando as chaves provavelmente não iria vê-las ao lançar um olhar apressado sobre a mesa. Ela faria parte da paisagem. Seria mimética, por ser cinza em uma superfície cinzenta. Mas, como as estava procurando, as percebeu rapidamente.

Na segunda cena não havia interesse por um objeto em particular, por isso, o que valeu foi o contraponto, o detalhe, o diferente. Se, depois, alguém lhe perguntasse como era a mesa daquele escritório em que você entrou inadvertidamente, você diria algo como: “Não lembro bem, era comum, mas tinha uma flor vermelha num canto”. Sim, nosso cérebro processa primeiro o que é diferente. A flor é diferente do resto. Os demais objetos são Wallys na multidão. Percebemos o detalhe e lembramos do detalhe.

Este é apenas um exemplo do poder do detalhe na análise que fazemos do mundo ao nosso redor, incluindo o comportamento das pessoas com quem convivemos. Em geral as pessoas são lembradas pelos pequenos atos, e não pelos grandes, pelo simples fato de que realizamos poucos grandes e muitos pequenos atos em nosso cotidiano. Claro, algo grande, como um ato de heroísmo, uma grande ideia, um trabalho excepcional irão marcar e criar memória. Mas, no dia a dia das relações, vamos construindo nossa imagem, que ficará impressa na retina e na mente das pessoas, a partir de nossos pequenos comportamentos. Para o bem ou para o mal.

O lugar do detalhe

Em geral o detalhe se manifesta onde não o esperávamos. Lembro de um episódio marcante durante os trabalhos de adequação do apartamento que havíamos comprado na planta e que finalmente ficara pronto. Era o apartamento dos sonhos. Por isso chamamos o João Rigo, o decorador que já conhecíamos, que tinha reformado nossa morada anterior, e que se tornara um grande amigo. O João é genial.

Entre plantas, operários, visitas a lojas, escolhas, orçamentos apertados, se passaram seis meses antes que o apartamento ficasse habitável e pudéssemos, finalmente, ocupa-lo. A quantidade de detalhes era assustadora. Lembro de uma ocasião especial. Reparei que o João dava uma importância capital ao lavabo, o banheiro das visitas, um dos cômodos menos utilizados da casa, ainda que tenhamos muitos amigos. As cerâmicas, os metais, a cor das paredes, o tamanho do espelho, a colocação do toalheiro, do papel higiênico, do sabonete. Tudo passava pelo escrutínio de nosso arquiteto de interiores.

Quando um pingo de tinta foi encontrado sobre a cerâmica do chão, o pintor foi imediatamente chamado às falas. Foi quando lhe perguntei porque tamanha preocupação com tal banheiro de uso esporádico. Não seria este um espaço secundário? Não deveríamos estar gastando mais energia com a decoração da sala, por exemplo? Sua resposta foi tão esclarecedora quanto devastadora.

– Pense um pouco – explicou ele – você recebe uma visita para o jantar. De repente seu convidado pede para ir ao banheiro e você lhe indica a porta do lavabo. Ele entra, fecha a porta, fica sozinho e faz o que, além de usar as instalações? Fica reparando nos detalhes…

Reparando nos detalhes… Não mais esqueci tal lição. Por estar em um breve momento de reclusão em um pequeno espaço, a pessoa realmente se dedica a observar, e fatalmente vai reparar na qualidade do sabonete, na existência ou não de algum mimo, como um hidratante para as mãos, um enfeite ocasional, uma flor natural em vez de uma de plástico inodoro. E o João ainda me deu um golpe fatal. Para fechar o assunto, disse:

– Eugenio, tua reputação depende do lavabo – e virou-se para os operários brandindo ordens explícitas, a maioria referente a pequenos detalhes da obra.

Claro, João tem na observação dos detalhes seu ofício. É o tipo da pessoa que tem um olho clinico para os detalhes. Mas, mesmo sem saber, todos somos, em maior ou menor medida. Depois do episodio do lavabo, acho que comecei eu mesmo a prestar mais atenção aos detalhes dos banheiros dos restaurantes, à decoração dos quartos de hotéis, à organização dos escritórios e salas de reunião, e até à limpeza dos taxis. Quando percebemos seu valor, começamos a ficar exigentes com os detalhes.

O detalhe nas relações

O mesmo se dá com o comportamento das pessoas. Minha amiga Priscila, de repente, se percebeu apaixonada. Quando nos encontramos e ela me contava sobre seu namorado, com o qual tinha acabado de almoçar, o som de seu smartphone anunciou uma mensagem. Ela pegou o aparelho na bolsa, e seu rosto se iluminou mais ainda enquanto ela lia o texto. Era do namorado, dizendo o quanto fora agradável ter almoçado com ela, e afirmando que sua tarde seria muito melhor por causa disso.

– Como não estar apaixonada? – disse ela com um sorriso de menina.

O detalhe do recadinho por WatsApp teve um efeito maior do que o próprio almoço. O detalhe seduz, surpreende, alegra, faz sorrir. O detalhe é o quadro colorido na parede branca, é a rosa branca no buquê vermelho, o bilhete que o acompanha. É a frase alegre no discurso sério, é o Leminski dizendo “Isso de querer ser exatamente aquilo 
que a gente é 
ainda vai nos levar além” no meio de uma discussão chata sobre o existencialismo sartreano.

Aliás, é na boa literatura que nos fartamos de detalhes encantadores. Lendo um conto de Machado, no momento em que o personagem olha para o mar, o escritor assim relata: “Ao passar pela Glória, Camilo olha para o mar e estende os olhos para fora até onde a água e o céu se dão um abraço infinito…”.

Vamos concordar. Olhar o horizonte no mar é uma coisa. Reparar no ponto onde o céu e o mar se dão um abraço infinito é outra coisa. Dá vontade de estar lá. Aliás, estamos lá. Um conto do Machado de Assis nos coloca na cena, somos protagonistas de suas histórias, sentimos a respiração dos personagens. Por causa dos detalhes da descrição.

Preocupar-se com os detalhes não é ser petulante nem querer ser diferente. É manifestar respeito por tudo aquilo que parece invisível aos olhos e às almas menos sensíveis. Quando o Roberto escreveu que “Detalhes tão pequenos de nós dois são coisas muito grandes pra esquecer”, ele não estava apenas fazendo a apologia de um romance, mas chamando atenção para o singular, o fato que faz a diferença, o “não default”, o inimigo do lugar comum. Um namoro que não cultiva detalhes é só uma amizade. Um romance sem “nossa música”, sem “aquele lugar”, sem uma flor seca guardada como marcador de livro não passa de uma relação ocasional, sem sabor, sem futuro, sem detalhes.

A Lu, especialista em detalhes, alimenta nossa relação com pequenos mimos. Sim, as gentilezas são os detalhes do relacionamento cotidiano. Se não existirem, até dá para viver, talvez sua ausência não seja notada. Mas sua presença, acredite, faz toda a diferença. Quando me traz um copo de leite enquanto trabalho, ou quando escreve I LOVE YOU em suas pálpebras, me olha firme, e fecha os olhos para que possa ler tal mensagem inusitada, ela está lançando mão do mais poderoso antidoto à monotonia e declamando o mais sublime poema da vida cotidiana: o detalhe.

Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril. Todos os direitos reservados. Visite o site da revista: www.revistavidasimples.com.br

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