Paciência tem limite

Saber esperar o curso natural das coisas é, sem dúvida, uma virtude que todos devemos cultivar. Mas isso não significa ficar passivo diante de situações de desrespeito
 
Após uma hora e meia sentado na sala de espera do consultório de um médico, deixei de lado a revista velha que estava folheando pela quarta vez, levantei-me e, antes de sair, falei para a secretária: “Vou embora. Diga ao médico que a paciência do paciente acabou”.
 
É possível que ele estivesse atrasado por conta de alguma situação própria da profissão, como uma emergência ou uma dificuldade diagnóstica. Mas esse, certamente, não era o caso. Era óbvia, pela confusão reinante no consultório, a despreocupação administrativa, o que foi denunciado pela expressão de pouco
 
caso da recepcionista que parecia estar acostumada com aquele ambiente, ao qual as pessoas se submetem por falta de alternativa. Minha opção foi procurar outro médico, com quem aconteceu o que deve ser o lógico e o normal: fui atendido na hora em que minha consulta estava marcada!
 
Mas este texto não é sobre profissionais que respeitam ou não respeitam o tempo de seus clientes. É sobre a paciência, que é tida como “a mãe de todas as virtudes”, e sobre os limites que a ela atribui a lógica, que é “a soberana entre todas as qualidades”.
 
A paciência
 
Em primeiro lugar, quero deixar claro que reconheço a importância e o valor da paciência. Pessoas impacientes são as que desprezam o curso natural das coisas e esquecem que há um ritmo próprio regendo o que se move no mundo – e tudo se move. Não podemos desejar que a Terra gire em seu eixo em menos que 24 horas, nem que uma parreira dê uvas antes da terceira poda, muito menos que um neném nasça em quatro meses e fale em 20 semanas.
 
As pessoas dotadas da paciência sábia costumam ser menos ansiosas e têm muito mais chance de alcançar o que desejam. Há belas histórias que ilustram esse fato, como a daqueles vizinhos que plantavam, cada um, seu pomar. Um deles cuidava muito de suas mudas, enquanto o outro sequer regava as suas. O primeiro, indignado, chamou sua atenção:
 
– Não quero me meter, vizinho. Mas, sem água, suas árvores não crescerão, e poderão morrer.
 
O homem, então, explicou:
 
– Estou provocando o aprofundamento das raízes. Se eu regar muito, as raízes ficarão superficiais, pois haverá água em abundância. Como não há, as raízes buscam beber da própria terra, e assim ficarão mais longas, profundas e firmes, o que é ótimo para a árvore.
 
– Pode ser – retrucou o primeiro – Mas, assim, demorará para que as árvores cresçam e formem seu pomar.
 
– Eu sei – respondeu o vizinho. – Eu tenho paciência.
 
Anos depois os dois pomares estavam formados. Aquele que levou mais tempo para ficar pronto dava mais frutos, pois as árvores sorviam mais nutrientes por meio de suas longas raízes. Além disso, quando um vendaval passou pela região, o único pomar que não teve nenhuma árvore arrancada do solo foi o do homem paciente. Santa virtude, a paciência!
 
O limite
 
Tudo bem, não dá para discordar do valor e da importância da paciência. Há belas metáforas – como a dos pomares – e até perfeitas construções filosóficas defendendo sua aplicação. Entretanto, vale lembrar que essa maravilhosa virtude perde força quando se confronta com seus inimigos naturais: o desrespeito, a preguiça e a procrastinação. Neste caso, deve entrar em campo a prudência, pedindo reforços para a indignação.
 
É muito difícil manter-se paciente diante do nítido “corpo mole” do funcionário que atende de má vontade no balcão de um órgão público, esquecendo totalmente que você é a razão da existência de seu emprego. Ou de crianças que correm entre as mesas do restaurante sem que seus pais lhes imponham limites, tirando a paz dos demais clientes. Ou ainda do sujeito que está na sua frente na fila de check-in do aeroporto, atende ao celular e começa a falar como se o outro fosse escutá-lo sem o auxílio do aparelho. Tolerar essas situações não é uma demonstração de paciência, e sim de submissão.
 
Sem falar nos fatos verdadeiramente exasperantes, como a insistência dos serviços de telemarketing, a profusão de spams, o trânsito cada vez mais confuso, a péssima pavimentação das ruas, as novelas sem fim, a qualidade de certos serviços e, claro, os políticos corruptos. Nesses casos, paciência não será paciência, mas conformismo.
 
O senador romano Marco Túlio Cícero entrou para a história pela sua oratória. Entre todos os seus discursos, o mais famoso é o que inicia falando sobre o limite da paciência: “Quosque tandem abutere, Catilina, patientia nostra?” – “Até quando, Catilina, abusarás de nossa paciência?”.
 
Cícero dirigia suas palavras a Lúcio Sérgio Catilina, outro político, que havia sido derrotado nas eleições. Inconformado com a derrota, Catilina estava liderando um movimento que visava enfraquecer o Senado e derrubar a República. Cícero organizou seus argumentos contra essa conspiração em quatro discursos, que foram publicados com o nome da Catilinárias, legando às gerações futuras um dos mais belos conjuntos de argumentos lógicos contra a infâmia.
 
A frase de Cícero tem sido repetida incontáveis vezes há mais de 2 mil anos. Cada vez que o poder que alguém se atribui oprime seu semelhante, a paciência deve dar lugar à indignação. E a primeira manifestação desta pode ser exatamente essa pergunta: “Até quando abusarás de minha paciência?” No lugar de Catilina, estamos autorizados a colocar o nome que couber para cada situação. Haja nomes…
 
O homem cordial
 
Muito já se disse sobre as características do brasileiro, esse povo tão alegre, apesar de todos seus problemas. Uma dessas características é justamente a paciência – inclusive quando ela já não deveria mais existir.
 
O historiador Sérgio Buarque de Holanda escreveu um dos livros mais importantes já publicados sobre nossa gente – Raízes do Brasil. Nele, descreve o brasileiro típico, aquele formado pela junção do português, do negro e do índio, e que definiu o jeito de ser de todos nós que falamos português deste lado do Atlântico, independentemente da origem de nossos ancestrais. Ele batizou esse homem de “homem cordial”.
 
Cordial vem de cordis – coração. O homem cordial é sempre sincero e essencialmente afetivo. Ele prioriza o emocional, as relações humanas, dispensa formalidades, prefere ser amado ou odiado, mas nunca esquecido. Este é o lado bom do homem cordial – carinhoso, amigo, solidário, sociável, alegre, verdadeiramente adorável.
 
O lado questionável é o excesso de tolerância do homem cordial. Ele não se ofende quando é desrespeitado; não se indigna com as imensas diferenças sociais; não se exaspera com a falta de segurança e de perspectivas. Essa passividade é ruim na medida em que acaba repercutindo em nosso progresso. Tolerância, sim, com as diferenças, mas não com o desrespeito, a incompetência e a desonestidade. Paciência é virtude até certo ponto. Ser paciente além do razoável não ajuda nem o paciente nem quem é o objeto da paciência.
 
A paciência só é benéfica quando não é sinônimo de passividade. Quando percebemos que algo está amadurecendo e encaminhando-se para a conclusão esperada, devemos ser pacientes. Mas quando a situação se pereniza ou se repete, sem dar sinais de uma conclusão, qualquer que seja, está na hora de interromper a passividade e tomar uma atitude.
 
Na filosofia budista encontramos o exercício da meditação e da paciência como um caminho para a iluminação espiritual. O autocontrole que deriva desse estado melhora nossa relação com o mundo e conosco. Budistas costumam ser pessoas pacíficas. É comum ouvirmos a expressão “paciência de monge budista” como símbolo da postura sábia de observar o mundo com serenidade e sem pressa, tendo certeza de que, no fim, tudo dará certo.
 
Entretanto, na própria origem do budismo encontramos uma atitude que sinaliza a não passividade. O príncipe Sidarta foi criado longe dos sofrimentos humanos. Jamais saía do palácio, onde vivia cercado de conforto e carinho. Essa boa vida, entretanto, não satisfez o espírito inquieto do jovem. Um dia, desobedecendo as ordens de seu pai, saiu do palácio e foi visitar a cidade, a vida real. Teve, pela primeira vez, contato com a velhice, com a doença e com a morte.
 
Sidarta poderia simplesmente ter voltado ao conforto palaciano e tratado de viver sua vida boa. Mas não foi o que ele fez. Abandonou o palácio, o pai, a mulher e o filho e foi buscar a iluminação por meio de variadas experiências de vida. Submeteu-se a um período de privações e sofrimentos até encontrar o caminho do meio. Sua atitude, criticada por todos que conviviam com ele, foi uma demonstração de que ele não se conformou com o imenso contraste entre os dois mundos e saiu procurando uma alternativa para o ser humano. Sidarta acordou para a realidade e adotou o nome de Buda, que quer dizer, literalmente “aquele que está desperto”. Entender a importância da paciência é sinal de sabedoria, mas reconhecer seu limite é demonstração de que estamos de olhos abertos, inteiramente despertos.
 
Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril.
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