Paixão nacional

Em épocas de fortes emoções, lembramos do que deixou marcas no coração.
 
Há algum tempo fui chamado por uma empresa farmacêutica de origem européia para um trabalho que me deu muito prazer. Coordenar uma reunião da diretoria destinada a interpretar as competências corporativas recém chegadas da matriz. Eram oito competências e estavam, quase todas, ligadas diretamente ao core business da empresa. Mas uma delas era diferente. Dirigida aos líderes, dizia simplesmente: “desenvolver pessoas com paixão”.
 
Quando coloquei o tema os diretores ficaram se olhando durante algum tempo com ares de como assim?. Mas depois a discussão pegou fogo, e o grupo acabou se dividindo em duas categorias: a dos que achavam que isso era possível e seria ótimo para a empresa, e a dos que viam algum perigo nessa idéia. Utilizei, então a técnica do brainstorming livre, mas com o compromisso assumido por todos de que chegaríamos a um consenso. E chegamos. O resultado, quando escrito, ficou muito parecido com o seguinte texto:
 
Entenda-se por apaixonado, alguém capaz de trabalhar com comprometimento total, e dar o melhor de si pelos objetivos da organização. Um colaborador apaixonado é aquele cujos olhos brilham quando a empresa tem sucesso e enfurece-se quando ela perde market share. Neste caso, sente como se fosse uma ofensa pessoal, então empenha-se inteiramente e não mede esforços para reverter a situação. O apaixonado sofre com o sofrimento da amada e se alegra com seu sucesso, por isso não tolera quedas de rentabilidade e vibra com o lucro crescente.
 
Por outro lado, temos que aceitar a responsabilidade que vem junto com as paixões desenvolvidas. Pessoas apaixonadas são exigentes e não gostam de situações estáveis. Querem a evolução da empresa em ritmo sempre crescente. São irrequietas, insatisfeitas, preocupadas. Não entendem os que se acomodam em suas tarefas sem buscar alternativas e novas possibilidades. Os apaixonados se doam mas exigem ser ouvidos, querem melhores condições de trabalho, novos desafios, mais responsabilidades. São empreendedores, autônomos e inovadores. São curiosos, transgressores e, às vezes, insolentes.
 
Apesar disso, queremos as pessoas apaixonadas, porque é delas que nasce a vida nova, o brilho da criação, a poesia do sucesso. Estamos dispostos a ser incomodados pelos apaixonados porque eles nos tiram da zona de conforto e nos empurram para novos caminhos. Preferimos o risco de sermos contrariados por um apaixonado ao risco de vermos nossas ordens serem meramente acatadas por um acomodado.
 
A diretoria decide, então, desenvolver a competência e investir tempo e talento das lideranças no sentido de conseguir um grupo de funcionários apaixonados, porque estes serão as pessoas que nos ajudarão a ter uma empresa nova a cada dia que começa.
 
Pode ser que, como disse o poeta, a paixão seja um fogo que nos consome por dentro, mas também é a luz que ilumina nosso dia e dá sentido à nossa vida. É ótimo ter – e ajudar a ter – paixões por idéias, tarefas, missões e causas. Afinal, uma empresa sem paixões seria como uma Copa do Mundo sem a seleção brasileira. Dá pra imaginar?
 
Texto publicado sob licença da revista Você SA, Editora Abril.
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