Pare de falar sozinho

Vivemos num mundo em que os povos não se entendem, provocando grandes confl itos, e costumamos ouvir que o que falta é diálogo. Se olharmos ao nosso redor, também encontramos uma série de pequenos confl itos, pessoais e profi ssionais, sobre os quais podemos fazer o mesmo comentário: falta diálogo. Uma interessante lição sobre esse assunto pode ser encontrada, curiosamente, em um texto de biologia. No livro A Segunda Criação, de Ian Wilmut (Editora Objetiva), há uma refl exão pra lá de perturbadora.
 
Esse geneticista britânico, que é um dos criadores de Dolly, a ovelha-clone, afi rma que os genes não operam isoladamente: “Eles estão em diálogo constante com o resto da célula, que, por sua vez, responde a sinais de outras células do corpo, que por sua vez estão em contato com o ambiente externo. Esse diálogo controla o desenvolvimento do organismo (…). O diálogo entre os genes e o ambiente que os circunda continua depois que o animal nasce e durante toda a sua vida e, se ele não se processa corretamente, os genes saem fora de controle, as células crescem desordenadamente e o resultado é o câncer”.
 
Uau! Isso nos remete a uma segunda refl exão sobre o comportamento das pessoas. Seríamos nós, como sugere o texto, produtos de um permanente diálogo entre nosso interior e o mundo em que vivemos? Seria o ser humano um animal parcial, considerando que só controla parte de seu comportamento, estando a outra parte entregue à variação aleatória de um mundo em permanente transformação? Parece, sim! Nosso bem-estar, nossa produção, nossa felicidade não dependem só de nós, mas também do mundo e, como conseqüência, da qualidade do diálogo que estabelecemos com esse mundo.
 
Nesse sentido, a busca é pelo consenso — que, em última análise, é condição para a felicidade. Entender o mundo e me fazer entender por ele é o grande desafio. Ninguém deve ganhar esse diálogo, pois ele é um apelo de paz. Um grupo de trabalho só tem a ganhar com a disposição ao diálogo. Mas isso não funciona quando um apenas fala e o outro ouve. Lembro-me de um executivo que fi cava quieto nas reuniões e um dia me disse: “Entre o monólogo com meu chefe, prefi ro o diálogo comigo mesmo”.
 
Texto publicado sob licença da revista Você s/a, Editora Abril.
Todos os direitos reservados.


Visite o site da revista: www.vocesa.com.br