Personas

Nesta época em que insistimos em que os trabalhos são resultados de equipes, e que as mesmas devem ser constituídas por pessoas de várias habilidades, mas com objetivos comuns, ou seja, pessoas diferentes, porém iguais, eu me ponho a pensar no que isso significa.
 
Lembro-me então de uma história de três indivíduos com personalidades bastante diversas, mas que passaram à história em função de um traço comum, que as reunia em uma só paixão: a poesia.
 
Foi no início do século (não este, o anterior) em Portugal. O primeiro, Alberto, ligeiramente mais velho, era um homem simples, do campo. Quase não estudou, foi criado por uma tia-avó e tinha constituição muito frágil. Acabou morrendo tuberculoso muito cedo, em Lisboa. Sua poesia era singela e contemplativa como ele. Diz: “O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério! O único mistério é haver quem pense no mistério.”
 
O segundo, Ricardo, estudou com jesuítas e acabou por formar-se em medicina. Erudito, dizia ser latinista por formação, mas helenista por convicção. Sua poesia é clássica, racional, moral. Apreciador do poeta romano Horácio, repete: “abdica, e sê rei de ti próprio”. É influenciado por Alberto em sua apreciação da natureza, mas o faz de forma mais sofisticada: “Sábio é o que se contenta com o espetáculo do mundo. Coroem-no pâmpanos, ou heras, ou rosas volúteis…”
 
O terceiro amigo, Álvaro, era um homem pragmático, dinâmico, progressista. Preocupado com a evolução do mundo, era dado a crises existenciais, mas seu comportamento freqüente mostrava uma personalidade audaciosa, impulsiva e muitas vezes irônica. Estudou engenharia naval em Glasgow, mas não se dedicava á engenharia, e sim à poesia, através da qual tentava interferir no mundo. Inconformado, diz coisas do tipo: “Quem dera houvesse um terceiro estado pra alma, se ela tiver só dois. Um quarto estado pra alma, se são três os que ela tem…”
 
Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos são três pessoas diferentes, mas na verdade não são indivíduos, e sim três personalidades da mesma pessoa. São figuras literárias criadas pelo gênio da poesia portuguesa, Fernando Pessoa. Não existiram de verdade, são os “heterônimos” do poeta português.
 
O gênio criativo de Pessoa foi tão impressionante, que ele precisou “dar à luz” outros poetas, como que para formar uma equipe. Sua diversidade poética poderia despersonalizar seu estilo, então ele preferiu dividir a autoria com seres imaginários, dotados de forte personalidade própria, com nome, profissão, data e local de nascimento e, às vezes, de morte. No total foram mais de setenta heterônimos. Os três citados são os mais conhecidos.
 
Pode-se acusar Fernando Pessoa de ser um poeta sem personalidade? Podemos dizer, sem ofender a honestidade, a ética e a estética que alguém dotado de várias facetas de criação, pensamento ou comportamento é problemático, não focado ou disperso?
 
Um único ator grego podia interpretar todos os personagens de um espetáculo teatral, mudando (além da voz e da expressão corporal) uma máscara simples, que ele segurava através de uma haste. Essa máscara chamava-se “persona”. Um mesmo ator poderia, dessa forma, incorporar várias “personas”, ou assumir várias “personalidades”.
 
Nós todos somos assim. Assumimos a personalidade que convém ao momento e ao local onde nos encontramos. Ser flexível não significa ser despersonalizado. Ao contrário, significa ser múltiplo, capaz de interagir com o meio e aprender com ele. Aumentar nossa percepção do mundo proporciona capacidade adaptativa, que é responsável pela sobrevivência e pelo desenvolvimento. Perceber, adaptar-se, evoluir: o tripé do progresso.
 
Hoje o trabalho depende de equipes entrosadas, e exige que cada um de nós seja uma espécie de equipe em nós mesmos. Ser um só já é difícil, imagine ser múltiplo. Mas é assim que é o mundo atual. Múltiplo, inconstante, mutável, novo a cada dia. E assim devemos ser, para podermos interagir com o mundo e modificá-lo para melhor todos os dias, e para valer a pena ter vivido. Afinal, como diz Fernando Pessoa, ele mesmo, o ortônimo:
 
“Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.”
 
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