Porque fazer bem feito

Lembro-me bem da lição que me foi dada por um professor do laboratório de fisiologia onde eu exercia funções de monitor, durante a faculdade. Eu estava preparando umas transparências para uma apresentação interna do laboratório. Seria a prévia para outra apresentação, esta em um encontro da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência – SBPC. Considerando a reunião como rotineira, e menos importante, eu fazia o trabalho de modo displicente, sem esmero, despreocupado com a qualidade do material e com os detalhes que sempre fazem a grande diferença nessas ocasiões.
 
O velho professor questionou minha falta de preocupação com a perfeição e, após escutar meus (fracos) argumentos, disse-me as palavras que até hoje, três décadas depois, reverberam em minha cabeça cada vez que tenho deslizes com a qualidade: “meu filho, não esqueça que tudo o que merece ser feito, merece ser bem feito”.
 
A preocupação com a qualidade foi, justamente nessas três décadas, transformando-se em um assunto importante e, em alguns lugares virou até obsessão. Nas empresas mais competitivas transformou-se em cultura, o que lhes garantiu certificações como a ISO, que atestam a política interna e a própria existência da qualidade.
 
A estréia, nesta semana, do filme O Último Samurai levou as pessoas mais atentas a uma nova reflexão sobre a importância de fazer as coisas bem feitas. O capitão Nathan Algren, o personagem de Tom Cruise, é feito prisioneiro pelo samurai Katsumoto (Ken Watanabe) e é obrigado a viver na aldeia de seu captor durante um inverno. Durante esse tempo o americano tem a oportunidade de refletir sobre sua vida e seus valores, especialmente após começar a compreender aquela cultura oriental.
 
Em um dado momento o capitão relata seu encantamento com aquelas pessoas que levantam pela manhã com a missão de transformar aquele dia em algo perfeito, e conseguem isso colocando o melhor de si até na menor e, aparentemente, menos importante tarefa que devem executar. O filme mostra guerreiros treinando com armas e praticando lutas corporais, buscando a perfeição dos movimentos. Mas também pessoas cuidando a horta, limpando a casa ou simplesmente preparando o chá. E tudo isso feito com o mesmo esmero e qualidade dispensados ao manejo da famosa espada samurai, da qual depende a vida e a honra de quem a possui.
 
Mas será que em nossa vida ocidental, corrida, sofrida, competitiva, existiria lugar para uma postura filosófica como essa, em busca da perfeição? Minha conclusão é que sim, existe e, mais do que isso, é uma necessidade para quem deseja uma vida realmente boa de ser vivida, repleta de sonhos ambiciosos e de conquistas capazes de elevar a autoestima e de construir felicidade.
 
Qualidade não é apenas um substantivo feminino que define o grau de diferenciação de um produto ou de um serviço. É também uma postura pessoal, que acaba transparecendo no resultado pessoal e profissional. A busca da perfeição não é, como querem os derrotistas, uma batalha perdida para a percepção de que a perfeição não existe. Pois a perfeição existe sim, e é fácil de ser vista; ela reside exatamente no movimento que a persegue.
 
Construir uma vida dedicada a fazer as coisas bem feitas não é um sacrifício. É um prazer que deriva do resultado obtido, mas também da consciência de se estar fazendo o melhor possível. Experimente a sensação maravilhosa de colocar atenção plena em absolutamente tudo o que você faz. Do cuidado com o corpo e com as roupas, à organização da agenda e das gavetas, e ao trato com as pessoas, sejam elas clientes, colegas, familiares ou transeuntes desconhecidos.
 
Não há mais samurais para defender imperadores em um Japão feudal. Mas os princípios do bushido, o código que orientava a vida inteira daqueles homens ainda existe, e merece no mínimo um momento de reflexão, caso você esteja interessado na qualidade e na busca da perfeição. São eles: coragem, honestidade, cortesia, honra, compaixão, lealdade e sinceridade.
 
Podem esses princípios ser aplicados à nossa vida pessoal e profissional? Se você achar que “tudo o que merece ser feito, merece ser bem feito”, vai responder que sim!
 
Texto publicado sob licença da revista Você s/a, Editora Abril.
Todos os direitos reservados.

 
Visite o site da revista: www.vocesa.com.br