“Laboratório de Gestão” de Antonio C. A. Sauaia

– Você ficou decepcionado com o resultado de sua pesquisa? Afinal, que tipo de cientista você quer ser, se sua pesquisa serve apenas para confirmar sua tese?

A pergunta-advertência acima me foi feita por uma professora de bioquímica quando eu era ainda um acadêmico do curso de medicina da Universidade Federal do Paraná e participava de um programa de incentivo a novos pesquisadores. Eu havia manifestado decepção ao perceber que a colônia de bactérias sobre as quais eu havia aspergido gotas de um concentrado de Ilex paraguaiensis – a conhecida erva-mate, muito ingerida no sul do Brasil como infusão, em forma de chá ou de chimarrão – havia crescido e se desenvolvido, em vez de definhar e morrer, como eu previa.
 
Tal previsão havia sido gestada em uma experiência anterior, realizada com cavalos de corrida, que melhoraram a performance nas pistas e tiveram sensível aumento em sua imunidade depois de ingerirem um infusão de chá-mate em vez de água pura. Meu cérebro ainda imaturo não levou em consideração que havia um erro de premissa: o aumento da resistência dos cavalos deveu-se ao incentivo metabólico do alcaloide ingerido, e não a um possível efeito antibacteriano do chá.
 
Apesar de minha formação original, não dediquei minha vida à arte de Asclepius, e sim a duas grandes paixões: primeiro à educação, que ocupou a maior parte de minhas horas produtivas, como professor e estudioso de novos meios de aprendizado e, segundo, à gestão, um amor tardio, mas sólido, como costumam ser as conquistas da maturidade. Atualmente dedico meu tempo a estes dois fabulosos campos tão necessários às sociedades modernas, como professor e consultor empresarial na área de desenvolvimento organizacional e humano.
 
E o que mais vejo, tanto nas organizações quanto nas salas de aula das escolas de negócios? A replicação de modelos, a utilização de falsas premissas, a certeza quase absoluta que as situações se repetirão iguais e, portanto, poderão ser tratadas da mesma forma como já foram outras. Mas, definitivamente, cavalos e bactérias não são iguais.
 
Quando convidado a prefaciar a 3a. Edição desta obra do professor Antonio Carlos Aidar Sauaia, tratei, como não podia ser diferente, de me debruçar sobre o texto. E o que encontrei? Uma visão moderna de tudo o que acredito, tanto em termos de educação, quanto em termos de gestão.
 
Ao lê-lo, não só atualizei vários conceitos, como me identifiquei de imediato com sua filosofia. Por minha cabeça passaram conceitos antigos, muitos deles abandonados em nome da velocidade crescente do surgimento de novos conhecimentos, que acabaram por transformar a formação de novos profissionais em uma sequencia monótona de aulas repetitivas, com ênfase à memorização em detrimento do entendimento e significação. Aqui eles estão  resgatados e atualizados, fazendo-nos lembrar que o aprendizado é um processo dinâmico, próprio do ser humano, que, dotado de pensamento crítico, deseja aprender pela experimentação própria, pois assim o conhecimento é definitivamente apropriado e incorporado.
 
Lembrei de pronto de pensadores como John Dewey, Anísio Teixeira, Jean Piaget, Paulo Freire, David Kolb, Peter Drucker e até de Sócrates, talvez o primeiro grande educador que o ocidente conheceu, que insistia na qualidade excessivamente humana de aprender constantemente, desde que sua mente estivesse preparada para isso. A função da educação seria a de preparar a mente para o aprendizado, que, dessa forma, aconteceria naturalmente.
 
É aí que entra o Laboratório de Gestão, que, definitivamente, não é um livro comum. Livros comuns não têm propostas, têm repetições, baseiam-se em crenças pessoais de seu autor, e não em fatos comprovados pelo rigor científico, e, principalmente, ainda que possam entreter, não agregam valor real. Não é o caso deste livro, que tem no respeito à ciência seu paradigma, e na evolução da mesma, seu propósito.
 
Confesso que foi com alguma surpresa que eu, tendo sido formado nas ciências naturais, me deparei com a gestão como igualmente ciência, e das mais dinâmicas. Hoje encaro esse fato com naturalidade e alegria, e dedico meu trabalho a aprender constantemente e propor eventualmente novas abordagens, com respeito permanente às anteriores.
 
Neste sentido, o Laboratório de Gestão muito me ajudará doravante, tanto com professor, quanto como gestor e consultor de gestão. Seus princípios, que permitem errar para aprender, replicar os acertos, recuperar conhecimentos úteis e, principalmente, aplicar o aprendido para criar valor dinâmico, soam como música aos ouvidos deste educador.
 
Torço para que este texto chegue a todos, especialmente aos professores dos temas de gestão (ainda que os de outras áreas também se valeriam dele) e aos gestores de empresas, jovens executivos demandados por resultados de curto prazo e por estratégias sustentáveis, sem que haja conflito entre essas duas demandas, o que nem sempre é fácil.
 
O mundo atual é dotado de uma dinâmica nunca antes vista. Vivemos, mais do que uma era de mudanças, uma mudança de era, em que a tecnologia nos concede – e nos obriga – a uma velocidade de percepção, compreensão, aprendizado e adaptação inéditas. Qualquer material que nos ajude a conviver melhor com essas características, será muito bem vindo. Sorte nossa que ainda há pessoas com a seriedade do professor Antonio Sauaia, que há tantos anos investe na aproximação do melhor da academia com o melhor que o mundo empresarial pode oferecer: uma gestão inteligente e em permanente evolução.
Há anos saí do laboratório de bioquímica, e agora encontro o Laboratório de Gestão. E em ambos verifico os mesmos princípios, da observação cuidadosa, do respeito ao ambiente e aos protagonistas dos fenômenos, da seriedade acadêmica e da curiosidade jovial de quem se considera um eterno aprendiz, sem os quais não há ciência. Nem progresso.

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